quarta-feira , 22 novembro 2017
Cantina do Araújo

Consternados, ainda consumimos Cultura


Começo com estes escritos uma série de ensaios ainda sem nome, escrevendo sobre minhas mais absolutas certezas dos bons resultados reunidos no ato, quase bastardo, de empreender a Cultura na esfera pública.

Mas antes sinto a necessidade de explicar um motivo, a força motriz de tal processo narrativo.

“Abre alas pra minha folia, já está chegando a hora. Apare os teus sonhos que a vida tem dono, e ela vem te cobrar. A vida não era assim, não era assim. Não corra o risco de ficar alegre pra nunca chorar. A gente não era assim, não era assim”. (Ivan Lins)

Vivemos no Brasil mais um episódio de consternação pública frente os devaneios da austeridade econômica proposta por uma bancada dominante no congresso, liderada pelo presidente Michel Temer: a Reforma da Previdência e a não perspectiva da aposentadoria. As ruas e praças tornam-se palco desta consternação em uma contundente forma de revolta popular marcada como evento, no Facebook e na vida lá fora, com hora pra começar e acabar. Saúdo cada e qualquer espírito bravo de luta pelos nossos direitos e consternações coletivas. Sou um destes. Mas é importante falar dos eventos enquanto força motriz para estas palavras.

Habitamos o espaço rua, ambiente público e por si só democrático, eventualmente, enquanto todo o resto do tempo estamos inseridos em uma cultura de mercado. Acordamos, levantamos, consumimos, trabalhamos, consumidos voltamos prontos para dormir – satisfeitos por um dia a menos do mês a ser consumado.

Estamos no mercado e dele vivemos, dependentes, entrelaçados, como que sustentando uma parede pendente. Se pararmos de escorá-la, por um evento que seja, ela vai cair. Não nos sobra tempo para nos consternar, para lutar, a não seja que tenhamos horário para começar e acabar. Vivemos a vida pública apenas se esta é medida em eventos, ciclos pequenos de vivência coletiva. Em todos os outros casos, vivemos o mercado e dele dependemos, individual e coletivamente. Sobrevivemos uma sobrecidadania. A vida não era assim.

Por isso irei saudar algumas práticas, agora já imerso absolutamente no campo da Cultura, que nos remetem a viver ou ao menos vivenciar cotidianamente (e sem hora para acabar) a esfera pública, nas dimensões simbólica, econômica e cidadã.

Empreender a Cultura na esfera pública não é para amadores. Nunca foi, no Brasil, e acho que nem no restante da América Latina. Somos um país continental consumado pelo capital, que dita diversas tendências vitais, inclusive nossa cultura latina e o afastamento dela. Somos mais globais do que latinos em nossas produções culturais. A gente não era assim.

O mercado globalizado, ambiente no qual estamos inseridos pelas nossas escolhas passionais, profissionais e comportamentais, nos limita a um só campo de visão: empreender no capital. Aquele tempo que nos permite empreender a Cultura na rua, nas praças, nos prédios públicos, na vida das outras pessoas, fora de uma lógica capital regida pelo lucro – marca principal do mercado – é um tanto utópico e por vezes socialmente encarado como um processo ingênuo, utópico, infantilizado. Mas qual o processo cultural que não nos permite passar por uma densidade sonhadora como a da nossa infância? Arrisco dizer que um só: o falsificado.

É por este motivo que dedico meus próximos escritos, quinzenalmente nesta coluna, a citar e ensaiar sobre tentativas – passionais, profissionais e comportamentais – de empreender a Cultura na esfera pública. Irei tomar exemplos de Poços de Caldas, parcerias técnicas com a Prefeitura, espetáculos e aulas em praça pública, para refletirmos juntos a possibilidade de viver a amplitude da nossa relação cultural com a cidade para além do lucro e do mecenato.

Falarei da esfera pública como universo a ser explorado e participado, ambiente fértil para ideias que nos permite compreender que é tempo de viver mais. Ideias como essa, sem valor de mercado. Deste meu engenho de dentro, para despertar outras mil: de cada engenho pessoal e de aparência vil.

“As ideias das pessoas são pedaços da sua felicidade”. (Shakespeare)

*Renan Moreira (renan.mgouvea@gmail.com) é gestor cultural poços-caldense, atua no Coletivo Corrente Cultural e com projetos culturais na Prefeitura de Pouso Alegre. Está a ler Mia Couto, autor de ensaios moçambicanos imperdíveis.

 

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