Publicidade

Irineu, mesmo não pescando mais, visita o rio todos os dias (fotos: Monique Rodigues)

 

“Ninguém tem coragem de comer o peixe do rio, ninguém. Depois da tragédia, a minha casa que vivia cheia de gente, a casa dos meus pais, vinham pra comprar peixe, não apareceu mais ninguém. Então isso aí é um sentimento, uma tristeza muito grande pra gente.”

As palavras são de Monique Rodrigues dos Santos, 32 anos. Ela e a família de pescadores moram em Mascarenhas, distrito de Baixo Guandu (ES), uma das áreas atingidas pela tragédia de Mariana (MG). Em novembro de 2015 a barragem da mineradora de Fundão, de responsabilidade da Samarco e controlada pela Vale e pela BHP Billiton, se rompeu, espalhando lama, morte e tristeza.

O Poços Já fez a cobertura desta tragédia, contou um pouco da história da família de Monique e como estavam encarando toda aquela situação.

De lá pra cá, pouca coisa mudou na vida dos pescadores de Mascarenhas. O rio nunca mais foi o mesmo e o que se vê por lá ainda é tristeza e indignação. Monique conta que houve um acordo entre a Samarco e os pescadores que dependiam totalmente do Rio Doce, atingido pela lama de rejeitos. Mas, pouco foi cumprido. Alguns pescadores ainda esperam pelo cartão de auxílio emergencial, concedido a quem perdeu renda em decorrência da tragédia.

“Os meus pais recebem o cartão emergencial, o valor é R$ 1.300 com o ticket alimentação incluído, mas minha irmã, que é pescadora profissional também, não recebe. Ela fez o acordo, em agosto (2018) ligaram pra ela falando que em 20 ou 30 dias cairia o cartão emergencial. Esse dinheiro não caiu na conta dela, ela não recebe ainda o auxílio e isso não acontece só com ela não, tem uns profissionais que nem indenização receberam ainda”, lamenta.

Rio nunca mais foi o mesmo depois da tragédia em 2015

Agora, pouco mais de três anos depois, a história se repete, desta vez, em Brumadinho. E os moradores de Mascarenhas choram junto com as famílias de Minas Gerais. Monique não esconde a tristeza, mas a revolta vem à tona. De novo.  “Eu fico muito triste em saber que mais pessoas vão sofrer, vão passar por coisas que nós já passamos, algo que poderia ser evitado se alguém tivesse sido punido pelo que fez em Mariana. Essa tragédia enorme que aconteceu agora, poderia ter sido evitada. Por causa da ganância do homem, da ambição, aconteceu de vidas inocentes estarem pagando e infelizmente é isso que acontece”.

O Rio Doce não é mais o mesmo. Aquelas águas, onde dona Maria José dos Santos e Irineu Rodrigo dos Santos, pais de Monique, cresceram, brincaram e tiraram seu sustento durante praticamente a vida toda, são amargas. Os peixes, quase todos sumiram, não se vê mais abundância, e os que sobraram, ninguém tem coragem de comer. Monique lamenta pelo pai, que sofre, mesmo em silêncio, a morte de mais um rio. O Doce, do seu Irineu, ficou só na lembrança.

“O meu pai não tirou o bote do rio. A gente sabe que o peixe não vai voltar, mas pelo menos uma voltinha no rio ele dá, com o bote dele, ele vai lá no rio e volta, todos os dias. Nós já passamos por isso, e agora é essa tristeza maior lá (Brumadinho). A gente sabe que essas empresas não dá pra confiar nelas, a gente vê que ela não tá tomando providência nenhuma na questão da água, do meio ambiente. A gente vê a tristeza no olhar deles, meu pai mais a minha mãe, eles cresceram no rio, e não é a mesma coisa mais, e eu sei que o rio não vai voltar a ser o que era. Ele fica sentado o tempo todo na frente da televisão, vendo a notícia lá de Brumadinho, e com os olhos cheios de lágrimas, porque ele sabe que mais um rio está sendo devastado por causa da ganância de poucos. E resto sofre”.

Solitário, Irineu sofre ao ver o rio onde cresceu brincando

*A cobertura do Poços Já sobre a tragédia em Brumadinho só é possível devido ao patrocínio das seguintes empresas: Centro Médico Oncológico (CMO), Construtora Horizonte, Embtech, Gatino Fitness,  Lab Tânia, Lavanderia Laundromat, Maní, New York Pub, Pizza na Roça, Poltrona 1 Turismo, PP Caponi, Pulsar, Sushi na Roça e Unifenas.

Publicidade