Família, de Mascarenhas, vive da pesca há décadas.
Família, de Mascarenhas, vive da pesca há décadas.

A Maria José dos Santos, de 53 anos, está em Mascarenhas, distrito de Baixo Guandu (ES), desde os sete. Ela tem na memória as imagens de um rio volumoso, cheio de vida. Da criança que brincava nessas águas surgiu a mãe, esposa de pescador, que vendia peixe para viver.

O marido, Irineu Rodrigo dos Santos, de 59 anos, chegou em Mascarenhas aos nove. E lá ficou, brincando, aprendendo a pescar e cuidando dos irmãos. Tudo girava em torno do rio.

Nós encontramos o casal sentado em frente à porta de casa. Ele, em uma cadeira de plástico. Ela, em um longo banco de madeira. Um pouco mais à frente, duas redes de descanso vazias à sombra das árvores.

Juntos com três filhos e três netas, eles viviam da pesca. Dourado, cascudo, traíra, pacumã. Irineu pescava e Maria cuidava das vendas. Tinham clientes em Belo Horizonte, Vitória, nas cidades vizinhas e na própria comunidade. Neste momento, eles têm apenas a dúvida. “A gente vive da pesca. E agora? Nem beber da água do rio a gente pode”, diz a mulher.

Pescador observa o rio, que hoje é só lama.
Pescador observa o rio, que hoje é só lama.

Os dois contam com orgulho do dia em que participaram de uma grande manifestação contra a Samarco, empresa responsável pela tragédia. A linha férrea que corta o distrito ficou sem trens. Pescadores, prefeito, máquinas e caminhões impediram a passagem dos minérios.

A revolta é ainda maior quando se lembram que para os pequenos a fiscalização é intensa. Em época de Piracema, a pesca pode causar multa e apreensão dos materiais e dos peixes, como já aconteceu com muitos lá em Mascarenhas. Mas quando se trata dos grandes, mesmo em caso de destruição do rio e de todos os peixes, parece que as punições vêm a passos lentos.

Maria José se emociona quando lembra dos peixes no Rio Doce.
Maria José se emociona quando lembra dos peixes no Rio Doce.

A filha Monique Rodrigues dos Santos, de 29 anos, conta que viu poucos peixes mortos. Segundo ela, devido a uma manobra da empresa. “A usina, quando os peixes estão mortos, abre as três comportas, vem a correnteza e a gente não vê nada. Lá embaixo tinha um pessoal da Samarco que catava os peixes. Aqui foi pouco, mais era camarão. Porque a tendência deles é descer.”

Mesmo o que sobrou da pesca, feita antes do rompimento da barragem, fica encalhado nas geladeiras. Os antigos compradores hoje não têm mais coragem de consumir os peixes, por medo de terem sido pescados depois da lama. Em Mascarenhas, há quem tenha guardados cerca de 200 quilos.

O que consola a família é que os últimos momentos com o rio foram especiais. No mês anterior à lama, a pesca foi farta. “Esse mês, de setembro para outubro, ele pegou tanto pacumã, que ontem eu terminei de comer os últimos dois que tinha. Parecia até despedida”, conclui a emocionada Maria José.