No segundo dia em Brumadinho, vamos à lama. Aos pés do morro da Rua Um, é possível chegar à beirada do grande lago de rejeitos. A entrada é permitida, mas controlada pela Polícia Militar.

Expectativa. 

 

São 290 hectares de destruição e o que podemos ver ali é um pequeno trecho. O fedor é único, difícil de descrever. Não dá pra saber o que é característico dos rejeitos de minério e o que é o mau cheiro de tudo que foi enterrado pela lama. Pessoas, animais, casas, árvores.

Repugnante. 

 

As bandeiras de Minas Gerais e do Brasil, hasteadas, parecem escancarar a hipocrisia de toda essa desgraça. Enquanto o Estado de Minas Gerais fechava os olhos e garantia o afrouxamento dos procedimentos para concessão de licenças ambientais, seus cidadãos morriam. Mais de 360, entre encontrados e desaparecidos.

Dissimulação. 

 

Agora voltamos dez minutos nessa linha do tempo. Quando chegamos à entrada e pedimos autorização para a Polícia Militar, somos surpreendidos por Simone Silva, 40, desempregada. Ela se coloca ao nosso lado e já revela a que veio, conversando com o policial: “Eu quero descer, porque eu sei o que é passar por isso”. À medida que caminha, a revolta que ela demonstrava lá em cima vai se misturando à dor, ao medo, à preocupação, à empatia que sente por quem está vivendo toda a experiência que ela, moradora da comunidade de Gesteira, distrito de Barra Longa (MG), experimenta desde que a lama da Samarco mudou sua vida drasticamente. Era cinco de novembro de 2015 e as consequências não têm previsão para terminar.

Futuro. 

 

Simone só observa e segura o choro por alguns poucos instantes. Ela não contém as palavras de indignação, que chegam acompanhadas pelas lágrimas. É o choro de raiva e de dor.

Angústia. 

Ex-estudante de artes, ela precisou deixar a faculdade depois que o marido ficou desempregado, em 2018. A esposa conta que ele pegou uma doença que, aos poucos, tira pedaços de pele da mão.

Consequência.

Ela é mãe de dois filhos, a Sofya, de quatro anos, e o Davyd, de 16. Essa família já foi notícia nacional. Após a lama invadir Gesteira, a Samarco, representada pela Fundação Renova, espalhou os produtos tóxicos para todas as áreas, inclusive as que não haviam sido devastadas.

Indiferença.

A cidade virou um canteiro de obras, com pó tóxico condensando o ar. A lama retirada da parte baixa foi utilizada para calçamento das ruas altas. Iniciativa que somente espalhou o caos e as doenças. Respirar ali é um ato de destruição.

Crueldade. 

 

Os filhos sofrem os sintomas da contaminação. Manchas de pele, dores nas pernas, problemas respiratórios. Alto risco de câncer. “Eu não sei por quanto tempo meus filhos vão estar comigo”, diz a mãe. Para piorar, a família ainda não conseguiu o direito de receber o cartão emergencial.

Omissão.

Hoje Simone luta para conquistar seus direitos, mas sabe que a própria missão é maior: ela precisa mostrar que esse crime começou em 5 de novembro de 2015, mas fica mais violento a cada dia. O tio dela, também morador de Gesteira, foi encontrado morto em 11 de novembro do ano passado, deitado no sofá. “Morreu de tristeza”, garante. Ele estava com depressão.

Teia. 

 

O tio avisou que estava mal. A sobrinha lembra que ele constatava, com profunda amargura: “A gente não vale nem uma pelota de minério”.

Vale.

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