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Lama contaminada deixou areia preta, com resíduos da mineração e o mar marrom.

Estamos chegando próximos do ponto final. O Rio Doce, destruído pela lama, chega ao mar no distrito de Regência, em Linhares (ES). A praia tem um aspecto diferente. Areia preta, brilhante, com resíduos da mineração. Quando subimos no mirante improvisado à beira-mar, só vemos água de um marrom forte. Escuro.

O mar de lama deixou triste e desamparada a comunidade do distrito. As pousadas tiveram reservas canceladas e alguns surfistas ainda vão ao mar, mas convivem com a dúvida da contaminação da água.

Assim que entramos na sede do Projeto Tamar, conhecemos o educador ambiental e vice-presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica Barra Seca e Foz do Rio Doce, Carlos Sangalha, de 49 anos. Ele mora em Regência há 23. Quando fala sobre o caso da lama tóxica, divide os sentimentos em dois: tristeza e revolta.

Ele lembra que o rio estava mal conservado mesmo antes do acidente e que se houvesse maior vazão de água e mata ciliar os estragos no mar seriam menores. “O rio vem agonizando há tanto tempo e poucas coisas são feitas. Agora todo mundo está olhando para o Rio Doce. Infelizmente no nosso país é assim, tem que acontecer uma desgraça”, lamenta.

Quando a barragem estourou a expectativa era que as autoridades fizessem algo para barrar os rejeitos, como segurá-los em alguma hidrelétrica. Mas a inércia do poder público deixou a lama invadir o mar. Os poucos peixes de água doce que haviam sobrevivido morreram quando mergulharam nas águas salgadas. Graças ao Projeto Tamar, ovos de tartarugas marinhas foram retirados de áreas de risco.

Ainda na sede do projeto, encontramos representantes do Ibama. Entre eles, Guanadir Gonçalves, superintendente da instituição do Espírito Santo. Ele afirma que a lama chegou a 95 quilômetros de Regência, em Guriri, e que o barro mais diluído ainda avançou mais dez quilômetros.

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Regência, Distrito de Linhares (ES)

O trabalho do Ibama consiste em tentar diminuir os impactos, com o resgate da fauna na área de maior turbidez da água. Porém, os reflexos dessa lama, fatais, ainda não podem ser contabilizados. “É muito difícil ver o que está se passando, mas é muito gratificante poder cooperar e ver que muitas  pessoas, que dependem desse rio, querem cooperar também. Apesar de ser um processo triste, complexo, é muito importante participar dessa ação”, relata o superintendente.

Depois da reportagem, saindo do Projeto Tamar, vemos Carlos Sangalha novamente. Ele está levando quadros para o museu da cidade. Essa é uma tentativa de elevar a moral da comunidade, com um evento que será realizado logo mais. Vai ter congada, exposição, música, artistas locais. Um esforço para que o povo da cidade volte a ser como era antes. “Precisamos alegrar o ânimo da comunidade. Temporariamente o rio e parte do mar não estão acessíveis, mas tem um povo hospitaleiro, cultura, arte, lagoas, a reserva com as tartarugas nos aquários. Regência está viva”.