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Ex-moradora observa carro em cima de uma das casas destruídas pela onda de lama

A funcionária pública Maria das Graças Quintão, de 58 anos, saía todos os dias do distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, às seis horas da manhã. Quando voltava, por volta das sete horas da noite, gostava de ficar deitada no banco de pedra próximo à mangueira. Era o momento mais relaxante do dia.

Pela primeira vez no distrito após o rompimento da barragem, ela tem a esperança de que o banco continue no mesmo lugar. Apesar do peso, não está mais lá. Foi arrastado por cerca de cinquenta metros. “Eu adorava ficar deitada aqui nesse pé de manga com a perna para cima. A gente perdeu não só coisas materiais, mas perdeu a identidade, perdeu a história”, lamenta.

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Maria das Graças encontra seu cobertor a cerca de 50 metros de sua casa.

Cinco dos sete irmãos de Maria das Graças moravam no distrito. Os pais estão sepultados no local, junto com as lembranças de quase 300 anos de histórias e história, já que a fundação de Bento Rodrigues remete ao início do século XVIII.

A funcionária pública procura por pequenas coisas que possam conectá-la ao passado, seja um cobertor ou as sacolas de uma loja de roupas que funcionava na comunidade. Aos poucos ela recupera objetos, mas não se ilude. Sabe que isso é pouco.

O sobrinho dela, Vitor Geraldo de Souza, de 18 anos, parece ter se enraizado da mesma forma, apesar da pouca idade. Ele procura por objetos pessoais não só próprios, mas também de outros membros da família. Quer levar-lhes consolo junto com uma concha dessas de pegar feijão, roupas cobertas pela lama e quadros cobertos de barro.

Quando ele fala, se dá conta de que não há consolo suficiente. “Era tudo muito tranquilo. Tinha de tudo, era uma comunidade apaziguada, e vem a lama tirar a nossa história. Nunca mais vai existir”.

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Vitor procura o que sobrou de seus pertences nas ruínas do bar da sua família.

Encontramos os dois assim que chegamos ao distrito, junto com o Corpo de Bombeiros. O sargento que nos acompanha trabalhou durante 36 horas, sem parar, logo após a tragédia. Ele conta que nunca viu algo tão forte e se lembra com pesar de uma criança, o Thiaguinho, que morreu na confusão. Quem segurava o menino acabou deixando-o cair e não conseguiu recuperá-lo. Também se recorda da senhora que estava a salvo, na parte alta do distrito, mas que voltou para pegar dinheiro. Hoje, ela faz parte da lama que assola o lugar. Assim como o homem que, mesmo após a fuga, resolveu voltar para fechar a casa.

Histórias como essas ainda são pouco quando observamos a dimensão do problema. Ao redor das casas de Maria das Graças e Vitor estão inúmeras marcas da destruição. Algumas impressionantes, como o carro que foi parar em cima de uma casa e o relógio que marca uma hora e cinco minutos em uma das poucas paredes que restaram. O restaurante que ficava próximo à mangueira em nada lembra a casa pintada com um amarelo forte, de janelas azuis, com galinheiro ao fundo, que simbolizava a vida harmônica e pacata do distrito. Quem passa por ali apenas percebe o cheiro ruim, das galinhas mortas, e paredes com poucos resquícios do passado.

Todos falam de Bento Rodrigues com paixão nos olhos. Sabem que viveram no lugar ideal. Colorido, sem violência, onde os homens conviviam em harmonia com a natureza e o primeiro a ser transformado em lama. Para os moradores, sobraram os quartos de hotel. E, claro, as histórias.

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