quarta-feira , 23 Janeiro 2019

Deixem minha pinta em paz

*Karol Dias


Há pouco tempo comecei a fazer uns trabalhos como modelo fotográfico. Desempregada, freelas como jornalista escassos e então, depois de muita gente vir me falar pra tentar esse ramo por ser fotogênica, fui lá e tentei. E não é que tem dado certo?!

Sempre gostei de fotos, tanto de tirar como de posar, então isso é algo que gosto muito de fazer, faço com gosto e feliz da vida. Porém, contudo, entretanto, depois de algumas sessões percebi que, em alguns trabalhos, depois de editarem minhas fotos, minha pinta do lado esquerdo do queixo sumiu.

Pluft.

Meu queixo ficou pelado, sem a pinta que me acompanha desde que me dou por gente.

Parece que para o padrão de beleza perfeito que se quer hoje em dia minha pinta é um problema, e sabe o que é pior? Depois de olhar essas fotos com meu queixo pelado comecei realmente a achar que a minha pinta era um problema. Comecei a olhar fotos em que estou com a pinta, as quais gostava bastante, e comecei a achar defeitos, principalmente do lado esquerdo do queixo.

Parei, me olhei no espelho, olhei fotos antigas, fotos em que ainda era criança e lá estava ela se exibindo no lado esquerdo do queixo. Lá estava ela quando caí e ralei o joelho na escola e escondi da minha mãe com medo dela passar merthiolate (naquele tempo merthiolate ardia, tá? E muito!). Lá estava ela quando deixei de ser café com leite no pique-pega. Lá estava ela nas crises de adolescência em que me achava a pata feia da turma (e nunca por causa dela). Lá estava ela no meu primeiro beijo, meu primeiro dia da faculdade, meu primeiro porre… Acredito que ela esteve lá no meu primeiro tudo. Percebo que ela faz parte do que sou. Olho no espelho, tapo a pinta com o dedo, destapo e então decido que a minha melhor versão é com ela.

A obsessão do mundo atual pela perfeição, nada de rugas, olheiras, estrias, cicatrizes ou pintas, faz com que esses nossos “defeitinhos” sejam apagados como passe de mágica, ou melhor, com a borracha do photoshop. Mas esses defeitinhos são os que nos tornam únicos no mundo, aquela cicatriz tem uma história só dela, essas ruguinhas que aparecem quando sorrimos são os traços de alegrias e tristezas que adquirimos durante nossa vida. Não vou ser hipócrita e dizer que fico feliz ao ver meus pés de galinha, ou que não gostaria de sumir com minhas estrias. Claro que a gente quer sempre melhorar, por isso compramos cremes anti-idade e somos loucas para que inventem uma fórmula para que nossas pernocas fiquem livres das celulites e estrias, porém não podemos enlouquecer por conta disso. Vamos nos cuidar sim, mas vamos também nos assumir. Vamos enxergar beleza nas nossas particularidades.

Ninguém é perfeito como mostra o Instagram, essa perfeição photoshopada só nos faz mal, só nos faz ficar cada vez mais insatisfeitos com nós mesmos, com nosso corpo, com nossa beleza. Porque não adianta estar lindo na foto se você não se enxerga ali. E definitivamente eu não me enxergo sem minha pinta. E depois dessa pequena crise, na qual duvidei da beleza da minha, só minha, pintinha, lhes digo com toda certeza do mundo que prefiro a minha imperfeição com a pinta no queixo do que a perfeição photoshopada.

E se minha pinta é um defeito para o padrão de beleza, que me desculpe o padrão de beleza, mas escolho ficar com minha pinta.

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