terça-feira , 2 junho 2020

As dores de falar sobre violência contra a mulher


Nesta semana, o Poços Já publicou uma série de reportagens especiais sobre violência contra a mulher. Entrevistamos vítima e agressor, ouvimos psicólogos e assistente social, falamos de feminismo e divulgamos dados assustadores fornecidos pela Delegacia da Mulher. Seria, é claro, mais prazeroso falar de grandes mulheres, contar histórias com finais felizes, lembrar os avanços sociais conquistados por elas. Mas enquanto há outras sofrendo pela cidade, correndo riscos graves, vamos priorizar este assunto.

Para fechar a série, as repórteres Mariana Negrini e Gabriela Bandeira contam como foi a experiência de se aprofundar no tema. Durante o processo, as duas lembraram que já viram de perto muitas vítimas da violência doméstica.

As fotos desta série de reportagens foram feitas por atrizes, que não sofreram violência.

Mariana Negrini

Ao escrever para a série optei por não entrar nas situações individuais. Analisei os números friamente, calculei a quantidade de vítimas diárias e até anual. Depois me recordei, em parceria com a equipe, de casos chocantes. Me lembrei das matérias desses casos, das entrevistas com os autores, e senti um pouco de raiva por nem todos estarem devidamente condenados, embora presos.

Mas, quando parei para escrever este texto, percebi o quanto essa situação me incomoda. Talvez por ser mulher, talvez por ter passado por violências de gênero e por ter mantido na minha memória a primeira cobertura que fiz envolvendo um homicídio. Isso tem oito anos.

Era por volta das 5h da manhã quando passava por uma rua do bairro Jardim Ipê, a caminho de casa, e vi algumas viaturas policiais. Não resisti e fui conferir do que se tratava. Era um homicídio passional. Não lembro bem as causas, mas me lembro claramente do portão aberto, da casa amarela, as marcas de sangue que vinham da escada e iam até a porta do carro na garagem. A vítima, uma mãe, estava nua da cintura para cima, tinha cabelos anelados, várias marcas de facadas pelo corpo e seu sutiã estava caído no chão, com manchas de sangue. O autor, seu marido e pai de seu filho de 14 anos, se preparava para sumir com o corpo quando a polícia chegou. Ele conseguiu fugir em uma moto ao abrir o portão para os policiais.

Fiquei naquele lugar por algum tempo, fiz entrevistas e saí de lá com um nó na garganta, pensando onde estaria aquele adolescente de 14 anos, que até então não tinha sido encontrado, e de como ele lidaria com o fato. Quem iria contar pra ele que o pai matou a mãe? Eu passei a semana toda pensando neste caso, imaginando a dor de cada um, em especial o desespero daquela vítima enquanto era golpeada por aquele que escolheu para fazer uma família e como ele estava destruindo tudo.

O meu primeiro homicídio ‘passional’ me fez ver que os casos de violência contra a mulher parecem não ter fim, os números apresentados de 2017 não me surpreendem pela quantidade. Pelo contrário, acho pouco. Tem muita mulher sendo agredida e violentada que segue calada.

Cobri os cinco casos citados na matéria escrita por mim. Alana, Andrea, Aline, Camila, Tammy e Tuani fazem parte da minha memória. Em especial Tammy, uma garotinha de apenas três anos enforcada pelo próprio pai. Esse pai, a quem prefiro chamar de assassino, foi apresentado à imprensa. Mas eu torci muito para não ver a cara dele, para não falar com ele. Depois de vários questionamentos não respondidos, fiz a minha pergunta. Ele me olhou e disse que estava arrependido. Minha vontade era de ir para cima dele, chamá-lo de louco ou qualquer outra coisa, dar um tapa, sei lá, fazer justiça com as próprias mãos por duas pessoas que eu nunca conheci.

Enquanto houver mulheres sendo agredidas dentro da própria casa, sendo menosprezadas por questões biológicas, dentro e fora de casa, precisamos falar do assunto, apontar alternativas e tentar ajudar, mesmo que apenas uma entre mil. Hoje escrever sobre mulheres é acreditar num futuro melhor e apostar que o jornalismo ainda é capaz de disseminar informação de utilidade pública.

Gabriela Bandeira

Eu tinha pouco menos de seis anos quando uma amiga da minha mãe foi assassinada a golpes de faca em uma praça na esquina da nossa casa. O crime aconteceu por volta das seis da manhã. Os vizinhos ouviram os gritos desesperados por socorro, mas não tiveram coragem nem sequer de espiar pela janela para saber quem era aquela mulher ou o que a fazia clamar por misericórdia.

O criminoso era um motoboy, namorado da vítima. A motivação, aparentemente uma discussão em razão da venda de um carro. Seu corpo sem vida foi entregue ao filho, responsável pela organização do velório e enterro. Muitos comentam a lástima dos pais terem que dizer adeus aos seus filhos, mas creio ser ainda mais doloroso para um filho ter a obrigação de receber os pêsames após ter a mãe assassinada.

Tão atormentador quanto era o sentimento de insegurança que todas nós, crianças, adolescentes e mulheres estávamos expostas a partir daquele dia. Pessoas morrem assassinadas quase que diariamente. Mas ignoramos que isso possa vir a acontecer, mais cedo ou mais tarde, com alguém que conhecemos, de quem estivéssemos próximas. Passamos a ter pavor de andar sozinhas nas ruas e até mesmo de nos relacionar.

De alguma forma, a morte da amiga da minha mãe dividiu minha vida em duas partes: antes e depois de conhecer a violência doméstica. Desde então, acompanhei, no papel de espectadora e, anos mais tarde, jornalista, diversas mulheres sofrerem os mais diversos tipos de abuso pelas mãos de amigos, namorados ou maridos.

Esta semana, pela primeira vez, tive a experiência de entrevistar uma mulher que sofreu um estupro. Sempre nos dizem que nós, profissionais da mídia, precisamos exercitar a frieza, praticar a não demonstração de sentimentos ao estar cara a cara com uma vítima, bandido ou seja quem for o entrevistado.

Confesso que ainda estou longe de chegar a este patamar, ao ponto de permanecer neutra diante de um relato carregado de tamanha dor e sofrimento. “É uma ferida que se abre e não para nunca de sangrar”, ela desabafou, com a voz fraquejada. Senti um arrepio que percorreu toda espinha enquanto ela relatava, com a cabeça baixa e os olhos desviando dos meus o tempo todo, cada detalhe do que sentiu naquela noite, 15 anos atrás, quando foi estuprada por um rapaz que conheceu em uma festa.

Cada palavra daqueles 28 minutos de entrevista eram como um soco no meu estômago. Ouvir a dor de outra pessoa, especialmente sendo mulher, mexe com a gente. Muda, ainda mais, a forma como percebíamos as coisas.

Ao final, ela contou que hoje consegue falar com mais tranquilidade sobre o assunto. Mesmo nunca tendo esquecido. Aproveitou para expressar a satisfação que sente em poder, através do movimento feminista, ajudar outras mulheres que passam ou passaram pela mesma situação, que foram vítimas do ódio e da violência.

Percebi ali que estaria escrevendo, minutos depois, uma matéria que também pode mudar a percepção de outras pessoas e que a nossa luta ainda perdurará por muito tempo. Talvez para sempre. Mas não esmorecer é o mais importante. Que possamos, dia após dia, proteger umas às outras e acabar, de uma vez por todas, com todas as formas de violência doméstica.

Fotos

As fotos que ilustram esta série são fruto de um ensaio feito pelo Poços Já em parceria com o Grupo Andara de Artes e a Escola de Beleza Bardot.

Ficha técnica

Fotógrafo: Juliano Borges

Direção artística: Nando Gonçalves

Atriz: Juliane Gaspar

Maquiagem: Franciele Tarabolle (Bardot)

Apoio: Secretaria Municipal de Cultura

1 Comentário

  1. Oiie tudo bem? show esse site. Galera estou muito feliz com esse novo colchão da kenko patto pra rinite que ganhei de meu pai. Então em uns 15 dias ja senti melhoras dessa rinite e das dores de cabeças que diminuiram. É esse aqui da Kenko Patto http://kenkotop.com.br Quem aí já usou esse?

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