terça-feira , 12 novembro 2019

“Eu sei que a culpa foi minha”, confessa agressor


As fotos desta série de reportagens foram feitas por atrizes, que não sofreram violência.

Foi uma discussão “bem acalorada”, como define o comerciante de 47 anos. Esposa com ciúmes, gritaria em casa. A filha, que mora ao lado, ouve tudo e decide interferir. Descontrolado, o pai a empurra. Mais um caso de violência doméstica.

O comerciante, que não quis se identificar, foi preso logo em seguida. Aqui vamos chamá-lo de “Marcos”. Ele conta que ficou um dia e meio no presídio de Poços de Caldas mas hoje, depois de tanto tumulto, a situação é diferente. “A gente sempre quer jogar a culpa no outro, mas eu sei que a culpa foi minha. Hoje, graças a Deus, está tudo bem na minha família, com a minha mulher, meus filhos. Nós vivemos muito bem”.

A mudança neste cenário foi possível por meio do Grupo de Homens Autores de Violência Doméstica, criado e mantido pela Secretaria de Promoção Social de Poços de Caldas. Desde o ano passado, o judiciário encaminha para o serviço homens que comprovadamente agrediram mulheres e filhas, inclusive como pena alternativa.

Marcos concluiu os 16 encontros semanais do grupo, com orientação de dois psicólogos, da prefeitura e da Associação Beneficente Fonte de Vida Nova. Ele compreende a importância do projeto e reconhece que agora vê a relação entre homens e mulheres de uma forma mais ampla, além de ter conquistado controle emocional. “A gente discutiu no grupo sobre várias outras situações. Homofobia, racismo. O homem brasileiro é muito machista, preconceituoso. Por isso essa orientação psicológica é fundamental. Também é importante que a gente tenha o controle emocional, em situações adversas, para não perder a razão. A assistência que eles deram foi ótima”.

Sopa de gente

O psicólogo Anderson de Marco Loro define o grupo como “uma sopa de gente”. Isso porque passam por lá jovens e idosos, pobres e ricos. Traçar um perfil do agressor é impossível. Na verdade, esse perfil não existe se limitado apenas a indicadores socioeconômicos. Basta ser homem e reproduzir a cultura machista perpetuada há incontáveis gerações para tornar-se um agressor em potencial.

O trabalho no grupo é feito em dupla. A psicóloga Gracielle Maria dos Santos Quiciri leva em sua abordagem não apenas a visão profissional, mas também a vivência como mulher. Ela tem a delicada tarefa de se impor em um grupo repleto de homens que se comportam de maneira padrão: para eles, a culpa é feminina.”Eles falam que bateram, humilharam, porque ‘todo dia eu chegava em casa e ela ficava falando na minha cabeça’, ‘eu não podia mais sair numa sexta-feira para tomar uma com meus amigos’. Sempre culpando a mulher pelo ato que ele teve, ou as circunstâncias. Colocam a mulher no lugar de culpada, ela não tem voz ativa. Isso se reproduz nos filhos. As nossas próprias mães nos ensinam a nos comportar assim: ‘Se ele falou, fica quieta’, ‘não discuta’, ‘homem é assim mesmo’ “.

Parece que transformar esses agressores é uma tarefa impossível, mas é somente complicada. Os dois psicólogos contam que o resultado tem sido positivo.  Após o primeiro impacto, em que os participantes tentam justificar seus atos, a história muda. O trabalho de conscientização faz com que cada um deles reflita e se coloque no lugar das próprias vítimas.

Anderson e Gracielle relatam que, com o decorrer dos encontros, o grupo passa a ficar mais maduro e a quebrar paradigmas machistas e até então incólumes. Eles mesmos se ajudam para entender que a violência é o pior caminho.

No fim das contas, a sensação é de dever cumprido. Não só dos profissionais da prefeitura, mas também dos agressores. E do judiciário, que vê nesta iniciativa uma forma inovadora e eficaz de se combater a violência doméstica. “A gente até recebeu um feedback bacana do judiciário, dizendo que a reincidência tem diminuído bastante. A maioria tira bom proveito do grupo. Isso devia ser discutido no meio profissional também, na saúde, na educação. Todo mundo tinha que estar capacitado para lidar com esse tipo de coisa”, conclui Anderson.

Fotos

As fotos que ilustram esta série são fruto de um ensaio feito pelo Poços Já em parceria com o Grupo Andara de Artes e a Escola de Beleza Bardot.

Ficha técnica

Fotógrafo: Juliano Borges

Direção artística: Nando Gonçalves

Atriz: Fernanda Dearo

Maquiagem: Franciele Tarabolle (Bardot)

Apoio: Secretaria Municipal de Cultura

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