terça-feira , 2 junho 2020

Rede pública presta assistência às vítimas de violência doméstica


As fotos desta série de reportagens foram feitas por atrizes, que não sofreram violência.

Ameças. Socos. Chutes. Ofensas. Gritos de dor. Essa cena se repete diariamente em Poços de Caldas e, depois dela, mulheres vulneráveis ficam perdidas em meio à necessidade de ajuda urgente. Apesar de difícil, a saída para esse tipo de situação existe. Há uma rede de proteção às mulheres vítimas de violência, que passa por órgãos públicos e até pela própria família.

Noventa mulheres são atendidas atualmente pelo Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), vinculado à Secretaria de Promoção Social. Desde o momento em que visitam o local pela primeira vez, todas sabem que têm um objetivo em comum: romper o ciclo de violência doméstica que vêm sofrendo de seus companheiros, parentes ou amigos.

“É uma situação muito singular, porque cada uma vai vivenciar um tipo de violência, um tipo de relação. A maneira como ela vai reagir a esse relacionamento é muito particular. Algumas vão romper esse relacionamento, outras vão permanecer na relação e romper o ciclo de violência, outras não vão aderir ao serviço porque ainda não estão fortalecidas”, explica a assistente social Tainara Marques, que atende há três anos e meio no serviço.

De acordo com a psicóloga Giulia Granato, um dos principais passos para fazer com que a mulher busque abandonar o ciclo de violência é o empoderamento financeiro, já que os agressores tentam baixar a autoestima da mulher e muitas vezes não permite que ela trabalhe ou saia de casa. Após o acolhimento inicial, elas entram em um grupo de apoio, no qual convivem com outras vítimas do mesmo problema.

Ambas enfatizam também que romper com o parceiro não é obrigatoriedade dentro do programa. “Ninguém tem obrigatoriedade de fazer denúncia, boletim de ocorrência ou de romper o relacionamento. A gente trabalha com a ideia de romper o ciclo de violência. Algumas mulheres escolhem romper o ciclo com aquele companheiro, outras continuam com eles, algumas pedem medida protetiva. Cada uma vai seguindo seu próprio caminho”.

Para ser atendida no CREAS, basta que a mulher procure a unidade, que fica na rua Corumbá, Jardim dos Estados, ao lado da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG). As vítimas também são encaminhadas pela Delegacia da Mulher, CRAS, hospitais ou quaisquer lugares da rede pública em que relatem a agressão.

Andréa Benetti

Um violento ambiente familiar e diversas agressões feitas pelo próprio pai contribuíram para que a pedagoga Andréa Benetti se tornasse uma das mais fortes integrantes do movimento feminista em Poços de Caldas. Há mais de dez anos ajudando outras mulheres, ela conta que costuma aconselhar especialmente suas alunas adolescentes, que a procuram para relatar abusos sofridos dentro de casa ou em seus relacionamentos amorosos.

“Eu procuro sempre orientar e ajudar a buscar ajuda, seja no CREAS, seja na polícia. A gente tem uma preocupação com a vida da pessoa. A questão é que a mulher que está no ciclo de violência raramente sai sozinha, raramente ela vai conseguir ir lá no CREAS, então às vezes o vínculo que ela tem com o conselheiro, comigo, é o único meio dela pedir ajuda”, explica.

Andréa ainda relata que um dos casos de violência que mais a deixou afetada foi o da funcionária pública Andrea Araújo de Almeida, sequestrada e morta a mando do ex-marido em janeiro de 2014. “Eu tinha acabado de começar minha militância e isso mexeu muito comigo. A morte dela foi uma barbárie. Tivemos há pouco tempo o caso da Tuani, que era atendida pela gente. São mulheres com quem a gente convive no dia a dia e de repente descobre que foram mortas”, desabafa.

Para a conselheira tutelar, a melhor forma de acabar com a violência é lutar contra o machismo. “A questão cerne, para mim, é quebrar os processos culturais e sociais de violência que estão escalados porque a sociedade é patriarcal, porque ela é machista, porque a nossa forma de se relacionar é possessiva, ciumenta, é de ser dono do outro e eu não vejo outra forma se não quebrar estes paradigmas, se não a gente não consegue avançar”, finaliza.

Fotos

As fotos que ilustram esta série são fruto de um ensaio feito pelo Poços Já em parceria com o Grupo Andara de Artes e a Escola de Beleza Bardot.

Ficha técnica

Fotógrafo: Juliano Borges

Direção artística: Nando Gonçalves

Atriz: Ariane Nery

Maquiagem: Franciele Tarabolle (Bardot)

Apoio: Secretaria Municipal de Cultura

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