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“A cultura é o líquido amniótico da sociedade”, disse o professor Daniel Furtado no meu primeiro dia no curso de gestão cultural, anos atrás. A frase veio através dele pelo filósofo Nuccio Ordine em seu livro “A Utilidade do Inútil”, no qual o autor defende que ordenar as coisas por importância funcional não é um critério válido, uma vez que existem saberes que são fins em si mesmos e que, por isso, exercem papel fundamental no cultivo do espírito e desenvolvimento civil e cultural.

Naquela época, eu estava deprimido e bem descrente do potencial de transformação da cultura na vida das pessoas. Mas a frase ficou martelando na minha cabeça anos a fio, e que bom! Pois bem, se o líquido amniótico é fundamental para o desenvolvimento do bebê, já que ele o protege de impactos, auxilia na alimentação do feto e o ajuda a exercitar órgãos vitais, o que a cultura teria a ver com isso?

Tudo.  Nas palavras de Ordine, “devemos continuar a crer que a cultura e uma educação livre são os únicos meios para tornar a humanidade mais humana”, e continua “[elas] constituem o líquido amniótico ideal no qual podem se desenvolver vigorosamente as ideias de democracia, liberdade, justiça, laicidade, igualdade, direito à crítica, tolerância, solidariedade e bem comum”. Em resumo, é a cultura – esse ente sem utilidade – que por permear todas as estruturas sociais a nutre, protege e garante a funcionalidade de suas organizações. É ela que nos separa da barbárie de um estado sem lei, num conflito de todos contra todos e da violência de um de estilo de vida segregacionista, formada por dicotomias de classes e abismos econômicos, elementos que impedem o surgimento de uma sociedade integrada, harmoniosa e fraternal.

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Porém, se a cultura é tudo isso, por que mesmo assim a sensação é de que estamos mais próximos da barbárie do que da civilização? Ora, basta analisar a condição dos artistas no país. Não falo daqueles badalados que aparecem nas colunas sociais e capas de revistas, mas dos que andam junto do povo e batem de porta em porta buscando patrocínio e ouvindo vários “nãos”, por não apresentarem um projeto prático do ponto de vista comercial. Pois, perceba, essa mercantilização do inútil se chama publicidade e já tem sua função na sociedade pós-industrial de hoje, contudo ela deve ser preocupação dos setores contábeis, comerciais e de marketing das empresas públicas e privadas, não do segmento artístico.

Justamente o que todos esses profissionais não podem fazer é “sepultar a arte e a cultura de invenção em troca da ‘beleza fácil’ e dos critérios comerciais na vida artística e cultural em nome de vendas”. Minha sugestão é que eles – os profissionais estratégicos do mercado – abram caminho para os artistas, conforme defende Ordine dizendo que “uma nação em crise não pode virar as costas à cultura e à educação; ao contrário, é fundamental que ela duplique ‘recursos destinados ao saber e à formação dos jovens, para evitar que a sociedade caia no abismo da ignorância’”, pois, segundo ele, esta é sempre mais perigosa do que a miséria. E ainda conclui que “não é verdade que em tempos de crise só é útil o que produz cifras”.

Ou seja, se a cultura é o líquido amniótico, nós, em uma relação dialética (para não dizer simbiótica), somos a mãe e o feto: dela devemos cuidar para dela sermos cuidados. Logo, medir o valor das coisas pela perspectiva funcionalista consiste em grande engano, visto que quando falamos de arte e cultura estamos falando de algo muito maior, que é a civilidade do bem comum.

Guilherme Garcia (gui.com.soc@gmail.com) é proponente do projeto “Vou com você ao museu”. Entre em contato para mais informações.

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