Arquiteta conta sensação de finalizar disco do marido que faleceu: “É a união de uma vida inteira”

Música
Danilo faleceu em agosto do ano passado (foto: arquivo pessoal).

“É como se eu tivesse aberto a porta do nosso quarto”. Assim, Eni Sulanita descreve o processo de produção do álbum ‘O futuro já existe’, último trabalho do marido Danilo Schultz, falecido em agosto do ano passado devido a complicações de um câncer que atingiu o pulmão e os ossos. A primeira edição da Mostra Musical Danilo Schultz está marcada para 19 de agosto deste ano. “Acho legal ser no mês que ele morreu, porque isso é uma semente que floresce. É uma espécie de renascimento. Não acredito que seja o fim, mas sim o renascimento do Dan”, declara.

Num álbum com participação de mais de 20 artistas renomados e produção do argentino Alan Plachta, Eni conta que, desde que o marido faleceu, dedicou-se aos projetos deixados por ele. “Se ele visse tudo isso, ficaria muito entusiasmado, consigo até ver o sorriso no rosto dele. Ele ia dizer ‘meus ídolos estão tocando no meu disco’. Algumas pessoas dizem que sou continuação dele. Eu também me vejo assim e quero fazer esse trabalho bem feito. Quando ele se foi, sabia do potencial e da capacidade dele. Tudo que está acontecendo agora é mérito do Dan”.

O disco

Todo dinheiro captado para produção do disco foi adquirido por meio de um financiamento coletivo. O valor, equivalente a 189% do proposto pelo músico, foi utilizado em todo projeto, que, segundo Eni, cresceu ainda mais após o falecimento de Danilo. “Não tínhamos mais a pressa. Aquela necessidade louca de gravar a qualquer modo. Nos reunimos e discutimos como tudo seria feito. O projeto todo acabou virando uma espécie de tributo ao Dan. O álbum é a união de uma vida inteira, tem músicas desde o começo da faculdade até os últimos momentos dele”, narra.

Amigos e artistas se reuniram para produzir álbum (foto: arquivo pessoal).

Além da pré-produção, Danilo conseguiu gravar a melodia de duas músicas que estão no álbum. Com a ajuda de um amigo, também definiu as canções que comporiam o disco e falou das vontades que tinha para o projeto. “O que ele gravou foi mais caseiro, só para registrar as músicas mesmo, mas acabamos conseguindo incorporar isso ao álbum”, relata a esposa. Ela também fala da dor que sentiu em continuar o projeto depois da morte de Danilo. “Fazer tudo isso me doeu muito, mas ao mesmo tempo foi uma forma que encontrei de me curar. Acho que para a gente se curar de algo, precisa mexer naquilo. Eu não queria, de nenhuma forma, sufocar aquela dor e deixar ele parado dentro de mim. Eu queria que o Danilo se movimentasse e eu conseguisse mostrar para o mundo quem ele realmente era”, explica.

Eni atuou diretamente na produção executiva e administrou toda parte gráfica do projeto. O encarte montado para distribuição junto ao álbum tem 50 páginas de escritos e desenhos que recontam todo processo de criação de Danilo. “Hoje eu percebo a grandeza dos documentos que ele me deixou. Eles contam toda transformação pela qual ele passou em vida”.

Capa do álbum ‘O futuro já existe’ (foto: arquivo pessoal).

Ela também escreveu uma carta sobre o álbum. Mas ao invés de narrar na terceira pessoa, decidiu escrever para o marido. “Minha escrita flui muito mais quando eu falo para ele. Eu e o Dan tínhamos uma intimidade muito grande. Além de sermos namorados, casados, a gente era quase terapeuta um do outro. O fato de eu sentir que estou falando com meu melhor amigo faz eu me abrir bem mais. É um modo de conseguir extrair de mim o que eu realmente quero falar”, descreve.

O amor e a doença

Eni e Danilo se conheceram em 2011. “Sentimos que os dois tinham encontrado a casa um no outro”. Na época, o músico estava se recuperando de uma cirurgia que fizera em decorrência do câncer. Como o tratamento não podia ser feito por meio de quimio ou radioterapia, ele apenas fazia acompanhamento médico regularmente.

Quando se mudaram para São Paulo, descobriram que o câncer havia se tornado metástase e atingido os pulmões e, logo depois, os ossos. O estado era terminal. “A gente foi ficando muito confuso, ou era uma tentativa de autonegação. Não sei direito. Me lembro exatamente do dia que fomos no médico e ele disse que o Dan tinha poucos meses de vida”.

Casal estava junto desde 2011 (foto: arquivo pessoal).

Meses estes que não se passaram em vão. Além da produção do álbum, o casal procurou manter a casa sempre lotada de amigos. As festas, eram sempre regadas com muita alegria e boa música. “Era assim que ele queria e eu também. Morrer também faz parte da vida. Não queria que o Danilo ficasse triste durante esse processo. A música tinha um poder transformador na vida dele. Era impressionante como ele mudava”, relembra.

A morte

Danilo Schultz faleceu em 17 de agosto de 2016. Eni relembra o último dia do marido com detalhes. “Ele sabia que ia morrer, porque não parou de falar isso nem em um minuto”. Agitado, o músico não queria que a amada ficasse longe.

“Ele pediu pra gente deitar. Lembro que ele perguntou ‘você me ama?’, eu disse que sim e perguntei se ele tinha dúvidas. Quando nos deitamos, ele virou pra mim e disse ‘a vida é bonita, mas você é linda’ e dormiu. Percebi que ele estava agitado e inconsciente. Tentei ligar pro SAMU, mas como demorava demais, carreguei ele nos meus braços e levei pro hospital. Não sei como eu tive forças. Como eu não podia ficar com ele, voltei pra casa e no outro dia de manhã fui visitá-lo. Cheguei às 7h35, ele faleceu 7h40. Não acho que seja acaso”.

A pedido do músico, que não queria ninguém triste, o velório tornou-se uma celebração. Os amigos tocaram e homenagearam Danilo. O corpo foi cremado e as cinzas jogadas ao pé de uma árvore. “Claro que eu fiquei muito triste com tudo isso, mas quando ele faleceu, eu acordei no dia seguinte e nunca tinha me sentido tão leve. Me deu uma tremenda tranquilidade de tudo, ter largado minha vida em São Paulo, meu emprego. Foi uma sensação de dever cumprido. É isso que eu tô tentando fazer até agora para ele”, finaliza.

Mostra

A Mostra Musical Danilo Schultz acontece nos dias 19 e 20 de agosto, na estação Fepasa, Centro de Poços de Caldas.  Mais informações podem ser vistas aqui.

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