sexta-feira , 18 agosto 2017
Cantina do Araújo

De salto no paralelepípedo


Nós, pessoas de cidades pequetitas do interior de Minas, somos muitas vezes vistas como caipiras. E sim, com todo orgulho digo que sou sim caipira da roça! Acontece que esse caipira pejorativo vem acompanhado com uma falsa noção de moda, para eles usamos maria-chiquinhas e vestidos de chita. Pois bem, queridos amigos de cidades grandes, as caipiras do interior sabem se vestir muito bem sim sinhô, aliás, andamos de salto alto como poucas, já que fomos formadas nas passarelas de paralelepípedos de nossas cidadezinhas.

Realmente não temos muitas opções para curtir a noite nessas cidades, por isso o point, em grande parte das vezes, é a praça principal, que por sua vez é rodeada por ruas de paralelepípedos. E então onde usaríamos nossas roupas de sair? Ora, na praça! Lógico. E íamos com nossas melhores roupas e, no caso específico das meninas, com nossos melhores sapatos, pasmem, de salto. Se já é difícil se equilibrar em cima dos saltos altos e finos, imaginem com o fator paralelepípedo.

Mas não havia tropeção, cata cavaco ou salto preso nos vãos daquelas pedras que nos fizesse desistir de colocar nossos sapatos favoritos e ir para a praça. E depois de algum tempo e tropeções, já não estávamos mais andando como pata chocas, mas como giseles.

Os saltos iam aumentando na mesma medida da nossa confiança. E então, quando o pessoal das tais cidades grandes ia para nossas cidadezinhas e saía na praça no sábado à noite ficava embasbacado com nossas vestimentas.

Uai, cadê os vestidos de chita e as marias chiquinhas?

Havia apenas meninas vestidas com suas melhores roupas, que estavam longe de serem vestidos de chita, maquiadas, com cabelo lindo e, claro, de salto alto.

Pois é, era assim que respondíamos as brincadeiras com o povo da roça, com nossa melhor arma, nossos saltos. Aquilo nos emponderava, enquanto o pessoal da cidade penava pra andar por aquelas ruas de pedras irregulares, nós desfilávamos, de salto alto, com todo garbo e elegância.

Os paralelepípedos ensinaram a mim e a muitas meninas do interior que as dificuldades estarão por todos os lugares onde pisamos, que vai haver tropeções, catadas de cavaco e tombos homéricos, porém, se você quiser, vai se levantar e aquilo tudo que antes te derrubava será seu diferencial.

Não desistam dos saltos por causa dos paralelepípedos.

*Karol Dias é formada em jornalismo pela PUC-Campinas e fez curso de moda com Maria Prata.

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