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Tantas vezes um profissional que trabalha com cultura ouve que ter uma profissão dessas é ser um tanto “esquizofrênico”. O argumento geralmente é pautado nos diversos papéis que o “culturalista” assume nas etapas de um projeto, da pré à pós-produção: coordenador, redator, comunicador, designer, diretor, fotógrafo, contador, chapa, atendente, vendedor, legislador, coreógrafo, cenografista… (contribuições nos comentários são bem-vindas!).

Em alguma medida, essas pessoas não estão erradas em suas afirmações, uma vez que ser gestor cultural é ouvir os diversos “eus” presentes na nossa personalidade. O trabalhador da cultura anda na contracorrente da especialização, na medida em que – por necessidades diversas como falta de verba ou de tempo – se coloca como generalista, acessando habilidades organizacionais e artísticas em prol da realização de ideias incomuns.

O interessante nesse processo de variadas habilidades é que ele posiciona o gestor cultural como um agente multidisciplinar, cuja pluralidade de talentos aponta para as tendências empresariais mais futuristas, como a das múltiplas inteligências e do repertório como base para a combinação de conhecimentos que levam para soluções criativas e inovadoras.

Um exemplo dessa figura ímpar de profissional é o renascentista Leonardo da Vinci, e suas várias profissões. O criador da obra de arte mais famosa do mundo poderia, num mesmo dia, realizar estudos teóricos de anatomia humana pela manhã; criar um equipamento de extensão do corpo humano à tarde; se dedicar à pintura no período da noite.

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Voltando aos dias atuais, o da pós-modernidade – que tenta superar a fragmentação do trabalho imposta no séc. XIX e o que isso implicou na concepção de homem contemporâneo – encontramos os jovens da geração “Y” (aquela nascida entre o início dos anos 1980 e final dos anos 1990) que resgatam essa noção dos diversos dons e os colocam a serviço da gestão cultural desde meados da segunda metade dos anos 2000.

Como exemplos há os coletivos culturais, que em Poços de Caldas tem como referência o Corrente Cultural, os quais puxam a pauta da importância dos gestores no segmento da cultura, atuando na prática com um assunto tão teórico. Certamente este ethos (forma de agir de um grupo) dos millenials (sinônimo de geração “Y”) alinhado com o “zeitgeist” (o espírito do tempo) contemporâneo e a necessidade de profissionais multitarefas colaborou para resgatar o perfil renascentista – ou pré-industrial – e adaptá-lo ao futuro dos profissionais ligados à cultura: dinâmicos, curiosos, que aprendem rápido e sozinhos, buscando a não hierarquização das suas organizações.

Obviamente, identificar esses profissionais como “esquizofrênicos” é banalizar a necessidade deles para a manutenção saudável de ações e boas práticas culturais do local em que atuam. Logo, ser um gestor cultural é ser um dos pioneiros rumo ao cuidados do corpo social por meio do zelo pelo bem-estar das pessoas.

* Guilherme Garcia (gui.com.soc@gmail.com) promove conversas entre os diversos “eus” das pessoas, inclusive os próprios.

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