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‘‘Escrevo poesia quando estou triste. Pra mim, poesia é um exercício de melancolia’, confessa o poeta. Foto: Bruno Alves

A passagem dele pelo Festival Literário de Poços de Caldas (Flipoços), no sábado (25), foi quase silenciosa. Enquanto várias pessoas se amontoavam para assistir a palestra do terapeuta e pesquisador de terapias quânticas, Sérgio Ceccato Filho, em um espaço próximo, poucos ouvintes se aventuraram a conhecer a poesia do croata Drago Stambuk, no Teatro da Urca, palco principal do evento.  Mas os que apostaram na palestra de Stambuk, saíram do teatro de alma lavada e emocionada. ‘‘Escrevo poesia quando estou triste. Pra mim, poesia é um exercício de melancolia’’, confessa ele.

De fato, ‘‘Céu no poço’’ o único livro de poesias de Stambuk publicado no Brasil, reflete a densa solidão que costuma rondar a alma de muitos poetas. Talvez por isso, a poesia que ele escreve seja tão tocante. O curioso é que escrever não é o trabalho principal do croata. Drago Stambuk é nada mais e nada menos que o embaixador da Croácia no Brasil.

Muitas poesias presentes em ‘‘Céu no poço’’ é fruto do vazio e da solidão que ele sentiu quando desembarcou em Brasília há três para exercer o trabalho dele. ‘‘Achei tudo muito estranho, pois estava acostumado a morar em cidades que tinham um centro, por exemplo. E Brasília me assustou por não possuir um ponto de referência. Achei tudo muito distante’’, desabafa.

A arquitetura da capital brasileira foi um dos aspectos que mais assustou Stambuk. ‘‘O Itamaraty é um dos mais belos palácios que já visitei no mundo. Uma verdadeira obra de arte. Mas não é nem um pouco funcional. Assim como a Catedral de Brasília, outra construção belíssima.’’ Em compensação para o Hino Nacional Brasileiro, ele só tem elogios. ‘‘O hino brasileiro e o croata são os mais bonitos do mundo’’, confessa ele, que também adora a poesia brasileira. ‘‘Pena ser pouco difundida no mundo’’, conclui.

Em breve, o embaixador croata lança no país um novo livro de poesias, que tem ainda mais a ver com o sentimento que assaltou a alma dele desde que chegou ao Brasil.  A obra já tem nome e tudo mais: ‘‘A inacabada criação do mundo’’.  Segundo Stambuk, o fato de ter vivido por muitos anos em um país totalitário – a Croácia fazia parte da antiga Iugoslávia – ajudou bastante no desenvolvimento da veia poética dele. ‘‘Quando há censura, a poesia serve de canal para você dizer algo que pensa, de forma figurada, sem que as pessoas necessariamente entendam. Isso é muito bom para o aperfeiçoamento poético’’, revela.

 

AIDS

Trabalhar com diplomacia e alimentar-se de poesia não são os únicos fatos que tornam Stambuk uma figura interessante. Ele guarda, ainda, outra grande surpresa: é médico. Tem cinco especialidades. Entre elas, gastroenterologia e infectologia.  Até estourar a guerra envolvendo várias repúblicas que pertenciam à Iugoslávia, no começo da década de 90, Stambuk vivia em Londres, na Inglaterra, desenvolvendo importantes pesquisas médicas.  ‘‘Fui um dos pioneiros nas pesquisas de combate à Aids, por exemplo’’, diz ele.

Inconformado com a guerra que tomou conta de sua terra natal e com a barbárie que separou povos que viviam sob a mesma bandeira, ele resolveu   se enveredar pelos caminhos da diplomacia. ‘‘Sempre gostei de viajar, de conhecer pessoas e de ajudar a resolver conflitos. Foi por isso que troquei a medicina pela diplomacia’’, explica.

Ele deixou a medicina, mas medicina não deixou ele. Quando volta para a cidade em que viveu por muito anos na Croácia, a bela Split, às margens do mar Adriático, as pessoas que o conhecem e sabem que ele é médico, o procuram para uma consulta. ‘‘Nesse caso, volto a ser médico, pois não posso negar ajuda às pessoas’’, diz.

 

Programação

O Flipoços, que vai até domingo (3), terá como uma das principais atrações na quarta-feira (29) o encontro entre os convidados portugueses do evento, que reúne o cineasta José Miguel Ribeiro, e os escritores José Luís Peixoto e Luis Serguilha. O encontro será às 20h00, no Teatro da Urca. Os interessados em acompanhar essa palestra e bate-papo devem doar um livro, que não seja técnico ou didático, em troca do ingresso, na secretaria do evento, próxima à entrada do teatro. Os livros doados serão entregues a entidades assistenciais da cidade e região.

 

Fonte: ACS Flipoços

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