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Meia-noite e pouco, acabo de lavar a louça. Estava fazendo as tarefas de casa e pensando no meu relacionamento, de como às vezes dá vontade de sumir, pelo simples fato de querer ser mais si mesmo, ou por achar que está atrapalhando o seu parceiro de ser mais si mesmo. É ruim ter a sensação de que está emperrando a vida do outro, há tantas possibilidades para ambos numa vida fora do conjugal que o medo de perder o que se tem constantemente vem à tona. Mas é assim, a vida é uma oscilação do afeto do medo de perder o outro ou se perder e a coragem de enfrentar o que vem de fora. Pois bem, enquanto pensava tudo isso lavando a louça fui levado a reflexão de que a vontade de fazer dar certo um relacionamento (você pode pensar no seu aí) é a maior obra de arte da resistência. O resistir não está relacionado em vencer os percalços, desafios e afetos que ambos encontram no meio do caminho, a vontade de resistência está atrelada ao sentimento de querer permanecer. A permanência num mundo cada vez mais líquido não é mais almejada, ninguém quer a essência de outrem. Por isso, o outro é cada vez mais objetificado, só vou curtir as fotos da minha amiga ou conhecida ou colega se tiver mostrando as pernas, se eu perceber que ela tirou a foto sem calcinha, mesmo não mostrando nada, ou seja, se ela se mostrar como um corpo (objeto) pronto para ser desejado. A essência do outro pouco importa. Também se faz o contrário, adoramos subjetivar, dar nomes a nossa condição de vida. É comum colocar a sua condição de felicidade em outro, achar que estar feliz no dia de hoje é por causa de fulano, estar triste nos últimos meses é culpa de ciclano que não me quer. Colocando a condição de estar ou não feliz em um sujeito. Na verdade, estar triste por outro não querer, está muito mais relacionado com a dificuldade que se tem de lidar com a rejeição num mundo onde se prioriza a objetificação do corpo (principalmente o feminino) do que qualquer razão exterior. Achar que sé feliz por estar com outro mostra uma inocência, falta experiência para entender que aquele que alegra elogiando todos os dias é o mesmo que te entristece falando ou fazendo coisas que te irritam profundamente. Portanto, se não achar a felicidade em si mesmo, vai querer cada dia estar com uma pessoa, já que a sensação de alegria de amanhã pode se transformar numa tristeza periódica depois de amanhã. Com tudo que foi dito até esta afirmação faz sentido: a vontade de resistir deve ser a sustentação de qualquer tipo de relação ou relacionamento, nos seus mais diferentes níveis. Pensando tudo isso e, ainda lavando louça veio o título deste texto: o mundo cívico-militar – uma revolução dos contrários de maio de 68. Graças ao fluxo de consciência parto do resistir das relações pessoais para uma política de resistência. Antes de abordar o mundo cívico-militar é importante tratar do ano de 1968.

Para os autores contemporâneos que discutem e tratam de uma filosofia da política, o ano de 1968 se mostra um marco na história mundial e coloca o capitalismo numa nova fase. Maio de 68 leva estudantes franceses às ruas, coloca Jean Paul Sartre, Simone de Bouveau, Michel Foucault e tantos outros intelectuais nas ruas, junto com os universitários. A reivindicação é simples e simbólica. Se as manifestações começaram pelo direito de banheiros mistos ou não, isso é o que menos importa, fato é que o homem precisa ser livre, ter o direito de fazer o que quiser, deve sentir o que quiser,aproveitar o que quiser aproveitar, gozar o que quiser gozar. Todos têm o direito de buscar os seus prazeres, de ir ao encontro do que mais agrada ou quer. Outras manifestações foram acontecendo mundo a fora por diversos outros motivos, mas o fato é que se a liberdade dos jovens era cerceada logo os gritos de rebeldia eram ouvidos. O capitalismo, um sistema econômico, político e cultural enraizado na sociedade no século XIX (ver Max Weber “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”), percebeu que não era possível lutar contra este rebeldia que estava cada vez mais forte. O sistema se apropria desta condição dos jovens e passa a vender sensações (a Escola de Frankfurt através de seus grandes estudiosos já aborda muito bem a venda de sensações através da indústria cultural). As manifestações continuam acontecendo anos depois em várias partes e países, sistemas autoritários vão se tornando cada vez mais inaceitáveis, o bem comum e o direto igual a todos, através de uma democracia, vão se tornando uma condição dentro da política. No Brasil, anos depois, o governo do regime militar tem seu fim, uma constituição é feita (1988) e o país caminha lentamente seguindo os passos de uma Europa democrática. Em nenhum momento o sistema capitalista coibiu de fato tudo que estava acontecendo e suas consequências. Deleuze e Guattari no livro “O Anti-Édipo” falam sobre o reflexo de maio de 68 alegando que todas as manifestações da época e posteriores só aconteceram (e ainda acontecem)porque foram permitidas, tais rebeldias nunca ameaçaram o sistema que, na verdade soube transformar esta sensação de luta por liberdade destes intelectuais (cada um da sua época) em consumidores, consumidores mais exigentes, mais ainda consumidores. Étienne de La Boétie escreveu uma obra pouco estudada Discurso Contra a Servidão Voluntária, entre os anos de 1552 e 1553, onde este filósofo fala da vontade natural do homem de ser tirano (tal palavra que vem do grego, não é sinônimo de um opressor, mas sim, de um homem que é mais, mais inteligente, forte, astuto, ou seja, mais em suas virtudes e por isso é o que deve governar); como todos tem a tirania como vontade, se escolhe ser tiranizado, recebe ordens para um dia dar ordens. De certa forma o capitalismo com toda sua violência subliminar imposta faz com que aquele intelectual que fez uma leitura deste signo ou sistema do capital, também seja mais, ele consegue se sobressair perante os outros, é o provido de mais esclarecimento e, portanto, também se transforma num tirano. Portanto, assim como o tirano, o esclarecido também depende do capitalismo, sem ele não há o tirano que ganha cada vez mais privilégios e também não há o esclarecido que precisa desta cultura capitalista arraigada e cada vez mais subliminar para ser a referência de alerta, para sempre ser aquele que vê além.

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Ao final do século XX com Fernando Henrique Cardoso (pelo PSDB, um partido fundamentalmente de centro-esquerda) e, no início do XXI com Luiz Inácio ‘Lula’ da Silva (pelo PT, um partido que mostrava uma ideologia de esquerda) o país foi caminhando com cada vez mais políticas públicas para diminuir as desigualdades entres as classes. Depois de oito anos de governo Lula estava implantado no país a política do Estado do Bem-Estar. No entanto, não houve uma diminuição da desigualdade, esta política só aconteceu porque quem continuou ganhando muito dinheiro foi a classe burguesa. Habilmente, o PT levou o capitalismo inclusivo para Brasília. Vale lembrar que o capitalismo inclusivo nada mais é que o esforço das grandes corporações e da burguesia de uma forma geral em transformar a base da pirâmide social (os mais pobres), também em consumidores. Tal teoria é muito fácil de ser vista, se um trabalhador não tem dinheiro para comprar uma máquina de lavar da Brastemp, a empresa começa a fabricar um produto de segunda, com peças mais descartáveis, com um custo mais baixo, surge então o ‘tanquinho’ da Brastemp, não custando cerca de dois mil reais, mas sim, 800 reais, onde ainda é possível dividir em dez vezes no cartão de crédito. O capitalismo inclusivo deu certo, as empresas começaram a fabricar produtos mais baratos e descartáveis, os bancos começaram a aumentar as facilidades de crédito e o governo federal começou a dar cada vez mais poder de compra ao trabalhador. No entanto, este modelo do capitalismo não é tão sólido assim, isso porque para ser rentável economicamente o consumo tem de ser em larga escala. Em 2008 com a crise imobiliária nos Estados Unidos, já era quase certo um recuo deste tipo econômico para os próximos anos no Brasil. Ainda se tentou reduzir alguns impostos sobre produtos para o poder de compra dos trabalhadores continuarem em alta, mas não foi suficiente. Brasil se tornou referência na implantação de políticas sociais, cada vez mais direitos foram conquistados pelos trabalhadores, direito a educação de qualidade e gratuita em universidades (até pouco tempo ensino superior neste país era restrito aos filhos de burgueses), investimento em moradias populares e linhas de créditos de 20 ou 30 anos nos bancos públicos, melhora na qualidade dos serviços prestados na saúde, disseminação do bolsa-família. Fato é que com a crise que começou a ter cada vez mais força no país, pós 2009, transformou a ascensão das políticas sociais em um problema fiscal ao governo. A arrecadação dos governos (federal, estadual e municipal) vinha caindo, ano após ano, devido a crise financeira e os gastos para manter toda esta estrutura desenvolvida por outro lado só aumentava. A consequência foi uma crise fiscal, onde o país começou a gastar mais do que arrecadava. Mesmo assim, a então presidente Dilma não fez o que se esperava. A pressão dos empresários e da burguesia de forma geral era de também diminuir os investimentos na área social, mesmo que momentaneamente, até passar os meses mais difíceis de crise econômica. A ideia era, se o topo da pirâmide está perdendo dinheiro, nada mais justo que a base também passar por isso. Depois de muita pressão, Dilma foi cortando gastos, mas não o suficiente, não como queriam os empresários.

No meio de toda esta crise econômica ainda surgiu a crise política, com esquemas de corrupção do Partido dos Trabalhadores sendo desmantelados e vindo à tona. Georges Sorel no clássico livro sobre política sindical “Reflexões sobre a Violência” aponta que todo partido ou o próprio político que luta para haver uma subversão em massa, que luta para que o pobre saia desta condição de dominado precisa de uma utopia, de um mito que os façam lutar. É necessária uma crença pela qual o socialismo possua uma “organização de imagens capazes de evocar instintivamente todos os sentimentos que correspondem às diversas manifestações da guerra empreendida pelo socialismo contra a sociedade moderna” (SOREL, 1993, p. 107). Com a corrupção anunciada em todos os órgãos de imprensa o PT acabou matando a utopia tão necessária para uma mobilização geral. Agora a mobilização ou manifestações eram contra o partido que ajudou e lutou pelos direitos dos trabalhadores, mas que agora, não representava mais tais trabalhadores.

Com o impeachment de Dilma foi anunciado um caos com crises econômicas e políticas cada vez mais profundas. Com tudo isso, era necessário colocar uma ordem, uma disciplina na forma de governar e pôr fim as políticas sociais, de forma gradativa ou não, desmantelar os direitos conquistados. Para o governo ter de volta um corpo econômico é necessário cortar de quem dá mais trabalho e despesa, a base da pirâmide precisa sangrar. Quem tem força ideológica para tal é a frente conservadora e com o discurso focado a “família brasileira”, entende-se aqui a grande mãe chamada burguesia, partidos como o PSL (do atual presidente) também criaram um mito para mobilizar a sociedade, não mais de bem comum, mas de reestruturação do país, por um Brasil que estava mergulhado em duas crises. E tem de ser considerado como um mito ou ideologia mesmo e tão somente, porque depois de eleito, o país de Bolsonaro continua com os mesmo problemas.

O que mais se fala atualmente é dos níveis de desemprego, o que os economistas de grandes corporações e universidades brasileiras ainda não perceberam, desculpe-me pela arrogância, mas vou sugerir aos nossos intelectuais do ramo financeiro que leiam duas obras importantes para se entender o que acontece na economia: primeiro “O Direito à Preguiça” de Paul Lafargue (intelectual francês do século XIX que aponta como servimos voluntariamente a uma sociedade condicionada ao trabalho, uma grande evolução dos pensamentos de um amigo seu, Karl Marx); o segundo é “O Horror Econômico” de Viviane Forrester que aborda ainda a questão do trabalho e traz uma visão de como cada vez menos a burguesia precisa do trabalhador. Utilizando do pensamento de Forrester, a crise econômica tem mostrado ao pequenos e médios empresários que esta realidade já vivida nas grandes corporações também pode ser experiência de sucesso nos seus negócios, ou seja, é possível reduzir o número de funcionários (que até então achavam que já era o mínimo para poder operar) e continuar na mesma margem de lucro. Mas qual é a importância nesta constatação? Simples, o desemprego agora passou a ser estrutural e tal situação não irá se reverter tão facilmente. O país vai ter de se acostumar a ter níveis de desemprego oscilando entre 10, 15 ou quase 20% da população. A onda conservadora está tornando um muro invisível cada vez mais sólido. “(…) o muro que, no interiorde cada sociedade e entre os países, separa os privilegiados, que fruem a realidade  virtual de suas ações e os desempregados, massa de humilhados e ofendidos, dos envergonhados e culpados por não possuírem  aquilo que o capitalismo não lhes deixa possuir – um trabalho – e faz crer que têm o dever moral e social de possuir – um emprego”. (CHAUÌ, 2014, p. 193). Com isso, a nova fórmula para uma servidão voluntária está pronta. Com o desemprego fazendo parte da estrutura social e econômica do país, o trabalhador deve se sujeitar as condições que antes não suportaria, o subemprego toma conta e, novamente quem ganha é a burguesia que, além de entender que pode continuar tendo lucro com menos trabalhadores na operação de produção, há a possibilidade de reduzir benefícios aos que já trabalham, afinal, o emprego está difícil: é pegar ou largar.

Mas espera aí, o que tudo isso que foi dito tem haver com o título deste texto, ou seja, qual a relação destes argumentos com a escola cívico-militar? Simples, o trabalhador de hoje já está disciplinado pela condição imposta pelo capitalismo, vai mesmo se sujeitar a ofertas cada vez piores de emprego, vai servir voluntariamente a um tirano (seja o chefe da empresa ou um presidente da república), vai cada vez mais esquecer a divisão de classes existente, principalmente, se houver um aumento de renda, afinal a América Latina é a região onde os pobres mais se sentem ricos. No entanto, a subversão pode vir pelos trabalhadores de amanhã que, cansados de tal exploração podem se rebelar, praticar atos de subversão que podem impulsionar outros grupos, outros trabalhadores. Agora, uma possível revolução no amanhã se torna cada vez mais esquecida à medida que ocorre uma disciplinarização dos corpos e da mente das crianças. Se quiser adestrar um cão é preciso fazer isso quando o mesmo ainda é filhote. A escola cívico-militar quer expandir o adestramento do povo, a aceitação da condição de servidão se torna um hábito praticado desde a infância. Portanto, a implantação deste tipo de escola no país é uma perpetuação da condição de servidão voluntária atual. A educação com viés não de esclarecimento ou questionamento, mas sim, para melhor servir. E aí, está preparado para aceitar ou enfrentar este mundo? Na luta que apontaram ser de todos é necessário começar consigo mesmo!!!

*Thiago Quinteiro é jornalista e filósofo. 

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