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O ‘Tratado da Emenda do Intelecto’ foi escrito por Baruch Espinosa entre os anos de 1661 e 1662, quando Espinosa tinha idade entre 32 e 33 anos e antes do filósofo escrever sua principal obra, “Ética”. No entanto, não deixa de ter uma grande importância para se entender o pensamento deste autor. Como gosto de ser mais literário que didático, a ideia é de abordar o meu entendimento sobre o texto sem trazer citações, padrão acadêmico só serve pra quem está na academia vomitando jargões que muitos deles não entendem.

Recentemente, escrevi na minha página no instagram (@quinteirothiago) um entendimento que tive a partir deste texto de Espinosa: “A vontade não parte do que é real, mas da ideia que se faz do que é real, pois é a ideia que ser torna alcançável e, à medida que o ideal é buscado como um reflexo da vontade, este escapa e muda pelo que foi então idealizado. É por isso que ocorre a frustração, já que a ideia verdadeira é diferente do real, mesmo com a mente tentando conciliá-los”. É impressionante como o tempo todo se faz isso com relação ao outro.

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Para explicar achei melhor trazer um tema muito importante na vida de todos: a amizade. Durante muito tempo da minha vida, sempre tive como melhores amigos, mulheres. Não sei muito o motivo, mas percebo que tem coisas que você pode contar para uma mulher que ela não vai ficar te julgando, justamente por não ter a mente tão machista quanto a nossa. Adoro falar da minha sensibilidade sobre as coisas, este papo flui melhor com mulheres. Isto foi da adolescência até a primeira graduação. Como falava muito sobre mim, também ouvia muito sobre os relacionamentos das minhas amigas. Comecei a perceber como nós homens somos babacas, mas na época não fazia muito esforço para colocar tais descobertas como prática na vida, nos meus relacionamentos. De qualquer forma eu julgava muito os homens com os quais as minhas amigas se relacionavam.

Bem, agora eu posso explicar o que é uma ideia verdadeira (conceito utilizado por Espinosa no Tratado). Tive uma amiga na faculdade que realmente era muita amiga, fazíamos diversas coisas juntos. Era comu, após a aula eu não ir pra minha casa pra ficar na dela. Depois de cerca de dois anos de amizade e se vendo todos os dias, eis então que ela começou a namorar. Um cara muito gente boa. Demorei um tempo para acostumar em ter de dividir minha melhor amiga com outra pessoa, mas coisas de sentimento eu aprendo rápido. Passados alguns meses de relacionamento, ela começou a reclamar dele (convenhamos que nós homens somos já de natureza babacas, não que ele era pior que os outros, mas ele era homem fazendo “homice”). Como minha amiga contava as suas experiências, eu comecei a ter uma ideia de que ele não servia para ela. Esta ideia não era inadequada ou ilusória, pois foi uma ideia criada através dos sofrimentos causados por ele à minha amiga. Esta ideia criada pela mente ou consciência através da experiência vivida no mundo exterior pode ser definida como uma ideia verdadeira. Como a minha amiga contava os problemas e situações complicadas que tinha com seu namorado, a conclusão que cheguei à época foi de que ele não a fazia feliz, eis a ideia verdadeira. Até aí tudo bem, quantos leitores não estão pensando que já disseram isso para um amigo com o qual tem liberdade para falar? Agora, quantos de vocês já não perderam a paciência com o amigo que vinha chorar as mágoas no seu ombro? E você já impaciente dizia: larga dele ou dela. O problema da ideia verdadeira que se tem na experiência do outro é que para o seu entendimento ela é tão verdadeira que se torna óbvia. Isso quer dizer que aquele problemão que seu amigo te apresenta, você vê como uma situação bem simples de ser resolvida. Se fosse contigo, resolveria num estalar de dedos. Acontece que mesmo a ideia verdadeira que se tem, mesmo me lembrando de todas as vezes que a minha amiga da faculdade já tinha reclamado do namorado pra mim, tal ideia não pode ser tomada como a realidade de vida dela dentro do seu relacionamento. O que eu tenho como ideia verdadeira é apenas parte do que ela vive. Normalmente, quando temos um amigo de verdade, o procuramos mais na condição de ajudar a solucionar um problema ou de curtir a vida juntos. O amigo sabe o que te alegra, aproveita a vida com você, escuta seus sofrimentos, mas não quer desperdiçar o tempo juntos ouvindo o que te alegra com o seu namorado ou crush, mesmo porque isso você divide no seu relacionamento amoroso e não com o amigo. Portanto, não fique bravo quando seu amigo reclamar da namorada e não ouvir os seus conselhos. A sua ideia verdadeira não pode ser implantada como ideia verdadeira neste outro que é o seu melhor amigo, mesmo você sabendo de muitas coisas da vida dele, você é uma parte ínfima (isso não quer dizer que não é importante) em tudo que é consciente ou inconsciente no seu amigo. Acontece que a relação de amigo não pode ser confundida com a de tirania. A amizade é baseada na condição igualitária. O que seu amigo tem  que é igual em você e, a partir do que é igual surge a admiração. Ocorre que quando a ideia verdadeira não é assimilada pela amiga é como se parte da admiração que se tinha se perdesse, pois ela não está agindo como você agiria, o que gera como consequência uma frustração. São precisos dois fatores para que as grandes amizades continuem duradouras, você tem de entender que a sua ideia verdadeira é uma parte e não o todo da experiência do outro e, quando você é o amigo encurralado pela ideia verdadeira do outro, tem de ter o entendimento que o simples ouvir não afeta o real de fato, é só uma aparência consumada, ou seja, se estiver certo da sua ação, ninguém poderá lhe manipular, nem mesmo aquele que te conhece como a palma da sua mão!

*Thiago Quinteiro é jornalista e filósofo

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