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Já são rotina da administração Sérgio Azevedo as queixas quanto às finanças municipais. Ele afirma que continua buscando o equilíbrio financeiro e admite que pode terminar o mandato sem consegui-lo, porém mais próximo. O principal motivo para tentar a reeleição, apesar de não falar abertamente sobre isso, seria a vontade de gerir o município sem enfrentar grandes problemas financeiros.

Em entrevista exclusiva para o Poços Já, o prefeito ainda aborda os mutirões de reformas nos bairros e afirma que, dentro deste projeto, o Jardim Kennedy terá a “praça mais bonita cidade”. Outro destaque é a relação com a Câmara. Apesar de classificá-la como “normal”, o prefeito reclama da lentidão na aprovação do projeto que possibilita a Parceria Público-Privada (PPP) dos pontos turísticos. Também são abordados outros assuntos, como monotrilho, Complexo Santa Cruz e DME.

Fotos: Juliano Borges

Confira a entrevista na íntegra:

Poços Já: Em nossa última entrevista, no final do ano passado, a prefeitura estava em uma situação financeira delicada. Como está hoje em dia?

Sérgio Azevedo: Na verdade, a situação financeira continua delicada devido a fatos novos que vêm ocorrendo. Ano passado nós sofremos com retenção do governo do estado, uma coisa que nunca tinha acontecido e que foi muito forte, pegou muito dinheiro da prefeitura. Junto com isso, houve também retenção de 50% do FPM (Fundo de Participação dos Municípios), que é uma das principais receitas da prefeitura e que não tem nada a ver com o estado. É uma receita federal, retida para pagar dívida anterior da prefeitura, com INSS, o que é justo fazer.

Poços Já: Qual o valor da retenção?

Sérgio Azevedo: Ficava na faixa de R$ 2,5 milhões, por aí. Nós nos preparamos esse ano para voltar ao normal com o governo do estado e para que essa retenção do FPM se mantivesse. Para nossa surpresa, a partir de janeiro passou a reter 100%. É uma situação mais delicada, porque nós não esperávamos.

Poços Já: Os repasses do governo estadual estão normais, pelo menos os atuais?

Sérgio Azevedo: Estão normais. Lógico, ficou grande parte para trás, que só vai ser paga a partir do ano que vem, em 30 parcelas.

Poços Já: Como está a liberação do financiamento de R$ 96 milhões?

Sérgio Azevedo: Precisa primeiro ter aprovação do governo federal, em cima do nosso projeto, que já fizemos, está tudo certinho. Porém, ele foi dividido em duas partes: uma parte é a revitalização da João Pinheiro, essa está mais adiantada; a outra parte seria o novo emissário de esgoto, a concessão das encostas, ao logo da João Pinheiro, e gabiões. Essa parte da revitalização da João Pinheiro está mais avançada, mas eu não posso começá-la, nem se tivesse o contrato assinado. É a mesma coisa que pegar uma casa e, antes de reformar por dentro, sair pintando.

Poços Já: Uma das críticas que você fazia às administrações anteriores era por utilizarem recursos do DME para pagamento de dívidas e não para investimentos. Qual tem sido o destino das verbas do DME na sua administração?

Sérgio Azevedo: O DME tem que ser usado realmente para investimentos, esse é o sonho, uma meta a ser cumprida. Porém, algumas coisas a gente não pode fazer, pelas novas condições que são impostas à cidade, como eu acabei de falar. Então, acaba tendo que usar o DME para pagar algumas coisas, mas coisas fundamentais para a cidade, como a Santa Casa e as entidades assistenciais. Eu poderia parar, não ajudar a Santa Casa, porque isso não é obrigação da prefeitura, mas são serviços essenciais para a cidade, não posso nem pensar em parar. Pelo contrário, acrescentar, porque precisa de mais. Então, o dinheiro do DME a gente tem usado mais para essas duas finalidades, para evitar um caos na cidade. É um dinheiro extremamente significativo que a gente investe, da ordem de R$ 15 milhões/ano.

Poços Já: Como está o processo do aterro sanitário?

Sérgio Azevedo: O Secretário de Serviços Públicos, o Tiago (Biagioni), já está autorizado a fazer uma licitação onde nós devemos levar esse lixo para um aterro sanitário licenciado da região. Isso provavelmente vai ser feito nesse segundo semestre, para que ano que vem isso ocorra. Nós não temos como abrir um novo aterro sanitário aqui na cidade, devido às exigências ambientais que existem. Chegamos à conclusão que o melhor é que a gente possa tirar esse passivo ambiental daqui e levar para um aterro licenciado, que está autorizado para isso, dentro da região, para que esse problema não tenha mais aqui em nossa cidade.

Poços Já: Mas isso não exclui a parceria com a cidade de Machado?

Sérgio Azevedo: Nós temos essa possibilidade de fazer juntos com Machado, mas nós já fomos procurados por Andradas e Alfenas. Em Machado é mais lento, está fazendo estudo ainda, para ter uma área, para executar, construir e após isso começar a funcionar. Então, é uma coisa mais a médio prazo, mas eu quero a curto prazo, a partir do ano que vem nós não estarmos mais com esse lixo aqui. Aí levaríamos para um aterro já existente, momentaneamente, até que caminhe a questão em Machado ou Andradas, onde estamos estudando uma sociedade. Ou até aqui mesmo, o DME está estudando sobre gerar energia com lixo. Pode também fazer a pirólise, que é queimar o lixo inteiro, mas são coisas novas. Isso vai ser definido nos próximos anos, mas imediatamente eu quero tirar o lixo daqui, para ir para um aterro licenciado.

Poços Já: E quanto ao monotrilho? Qual a prioridade da prefeitura?

Sérgio Azevedo: Não vai ter investimento público nenhum, é uma iniciativa privada e vamos buscar justamente isso: alguma empresa que queira investir no monotrilho. Então, essa empresa alemã se interessou, me procurou. A vantagem é a seguinte: não querem ganhar dinheiro, o que me falaram foi que precisa do zero a zero, um modelo para que possam entrar no Brasil e fazer isso em outras cidades. Vão ter ajuda do governo alemão, que fomenta o investimento em países em desenvolvimento. Vão fazer o estudo de viabilidade e, sendo viável, provavelmente vão querer investir, ou não. Paralelamente a isso, estou pegando um laudo do IQT (Instituto de Qualidade e Tecnologia de Segurança Veicular), que é um dos institutos mais conceituados no Brasil com relação a segurança estrutural, para verificar como está o monotrilho. De posse desse laudo, independente da empresa alemã, vamos tentar um plano B, que seria botar o monotrilho para funcionar, melhorando suas condições, para que já entregue pronto para uma empresa vir operar, que pode ser a empresa do transporte público, dentro da licitação que vamos fazer no final do ano. Pode até ser integrado ao transporte público.

Poços Já: Há algum projeto relacionado ao Complexo Santa Cruz?

Sérgio Azevedo: Esse é um problema, porque lá não vai ter investimento nenhum mais. Está abandonado, os moradores próximos reclamando. É de difícil acesso, não dá para levar um monte de secretaria para lá, porque seria um inferno chegar lá e sair. Então, estamos vendendo. Esse projeto já está na Câmara, esperando autorização. Ali pode fazer um belo condomínio de alto padrão, serve para o Sesc, que já teve interesse anos atrás. Acredito que vá ter interessados.

Poços Já: Qual seria o valor?

Sérgio Azevedo: Da ordem de R$ 16 milhões, aproximadamente.

Poços Já: Até agora, você tem mantido seus secretários. Com exceção da Secretaria de Cultura, onde o próprio secretário pediu para sair. Alguma previsão de quando será definido outro nome para a pasta?

Sérgio Azevedo: Nós devemos nomear até o fim do mês, ainda estou avaliando se alguém vai acumular secretaria ou não, estou pensando nas hipóteses, mas é uma secretaria que a gente sempre deu força. Eu lembro que saíram, na campanha, boatos de que iríamos acabar com a Secretaria de Cultura. Eu falava que não, muito pelo contrário, que eu ia valorizar e investir mais. Então, os boatos morrem por si só, hoje eu dou mais dinheiro para patrocínio do que era dado antes, cumprindo o compromisso, e ano que vem será mais ainda, cumprindo o compromisso de valorizar a secretaria. A partir de agosto a gente entra em uma nova fase, de conclusão, de acontecer o que foi planejado.

Poços Já: A marca do seu governo neste terceiro ano tem sido os mutirões nos bairros. Essa é a prioridade atual?

Sérgio Azevedo: Esse é o projeto mais importante que tem, vem de encontro ao meu compromisso, que é cuidar dos bairros, cuidar da cidade. Eu falava que não precisava fazer obras grandes, mas precisava cuidar do que tinha. Poços de Caldas já tem tudo, mas muita coisa está abandonada. As próprias escolas e creches, estamos investindo em todas elas, aos pouquinhos. Queremos entregar, até o final do ano que vem, as nossas escolas e creches em boas condições. Os postos de saúde nós já fizemos. Cuidar dos bairros vem de encontro ao que a população quer. A população não está atrás de grandes obras, está atrás de cuidar de onde ela mora, para ter qualidade de vida e se sentir segura. Começamos pelos bairros mais carentes. Nós começamos no São José, que é um dos primeiros bairros da cidade. Fomos agora para o Kennedy, é um bairro há muitos anos sem investimentos, vamos dar uma melhorada grande no bairro. Inclusive, um local que está abandonado, que é a antiga estação de tratamento de esgoto, no centro do bairro, escura, fácil para que as pessoas possam estar ali usando de forma errada. Nós vamos transformar aquele lugar ali na praça mais bonita da cidade. A praça mais bonita da cidade vai ser no Kennedy. Estamos acabando o projeto dela e vamos executar, igual nas outras praças, com nosso próprio pessoal. Se fosse fazer terceirizado, custaria R$ 500 mil, R$ 1 milhão. E vamos para outros bairros, começamos Parque Primavera agora, acabamos Vila Nova, depois devemos ir para Santa Rosália, Vila Rica, então aos pouquinhos vamos atingir todos os bairros. Tomara que dê tempo, até o ano que vem, da gente atingir a cidade inteira. Acho difícil, mas vamos tentar.

Poços Já: O mesmo vai ocorrer no Centro?

Sérgio Azevedo: O Centro vai ter, paralelo aos bairros. Vai chamar “Nosso Centro está de volta”, também, e já começou. O DME já está embutindo a fiação da avenida Francisco Salles, da UPA até lá no Mercado Municipal. Vai ser iluminação de LED, conforme foi na Marechal. Vamos entrar dia 5 de agosto na Praça dos Macacos, que é a única que ainda não tem o piso padronizado das outras praças. Estamos terminando o projeto das calçadas no Centro, quero fazer um novo calçamento, acessível, o deficiente físico tem que ter toda a facilidade para andar na rua, hoje não tem. Depois disso, viriam os carrinhos de lanches. Queremos revitalizar aquela área. E vamos investir já nesse ano em ciclovia, na ligação da Fepasa com o Hotel Floresta, onde está parada a ciclovia que vem da Zona Sul, aí teremos essa ligação Zona Sul/ Zona Oeste, completa. Ano que vem faremos a ligação com a Zona Leste e teremos uma cidade inteirinha ligada por ciclovias, no Centro e onde é plano. Os novos loteamentos nós vamos pedir para que venham já com ciclovias planejadas.

Poços Já: Mas essa reforma das calçadas vai ocorrer com recursos da prefeitura ou dos comerciantes?

Sérgio Azevedo: Nós ainda estamos verificando como vai ser a melhor forma. Já procurei a Acia (Associação Comercial, Industrial e Agropecuária de Poços de Caldas), de modo a fazer uma parceria, para que os comerciantes possam participar de alguma forma, cada um pagar por sua testada. E vai ser muito bom para eles também, porque vai valorizar muito o comércio aqui do Centro, que já é um shopping a céu aberto. A Acia foi muito receptiva, mas não avançamos porque estou terminando o projeto. Acredito que em agosto, no mais tardar, a gente já tenha isso e possa iniciar esse ano ainda. Eu não queria deixar para o ano que vem porque é um ano difícil, eleitoral, as coisas tumultuam muito. Vamos ver. Também a gente esbarra no problema financeiro, que é nosso grande problema hoje. Quando falavam, lá na eleição, “qual a maior obra que você pretende fazer?”, eu já dizia que a maior obra é equilibrar a prefeitura financeiramente, sem isso não dá para fazer nada. Nós caminhamos muito e hoje já era para estar tudo redondinho, não fosse essa regra de bloquear o dinheiro, que eu não esperava. Mas vamos lá, mais um desafio. Vamos vencer esse também.

Poços Já: Mas pode ser que esse equilíbrio não seja alcançado durante seu governo.

Sérgio Azevedo: Pode, porque esses fatos novos são muito difíceis para gente, mas vou terminar o governo com um crédito da ordem de R$ 40 milhões a receber, uma grande parte só vai pagar a partir de 2021.

Poços Já: Gostaria de seguir por mais quatro anos?

Sérgio Azevedo: Essa é uma tendência, mas vai ser discutida na hora certa. Poços hoje chegou nesse grande problema pela falta de continuidade. Começa de novo, depois acaba com tudo. Isso é muito complicado para a cidade. Se você for ver as cidades  que hoje estão bem administradas, elas tiveram sequência nas administrações, e posso sofreu com isso. A administração pública é diferente, é uma empresa que a cada quatro anos tem um dono. Que empresa é essa que não consegue ter uma sequência, como ela vive? No setor privado, ela quebraria. Eu lembro que, quando entrei na prefeitura, sobrava dinheiro. Não tinha onde gastar.

Poços Já: Quando?

Sérgio Azevedo: Foi em 1993, até 96. A partir daí, começou a piorar, não se preocupou mais em fazer com que a cidade tivesse uma arrecadação condizente com o que precisa, mas foram se preocupando só em fazer, inaugurar e por placa. Aí chegou aonde estamos hoje. Criou-se uma despesa fixa que a arrecadação não suporta. Houve um descompasso entre o aumento da receita e o aumento da despesa. Eu queria ter uma varinha mágica, para fazer “assim” e a coisa funcionar, mas não é assim, demora um tempinho. Se a gente conseguir, ao longo de quatro anos, fazer a prefeitura pelo menos respirar, já é uma tarefa maravilhosa. Agora, você ter um mandato de oito anos, em que possa desenvolver mais, aí com certeza você entrega uma prefeitura que é só tocar pra frente para ela andar. Mas dá trabalho, na Coopoços foram dez anos para conseguir equilibrar.

Poços Já: Então você não pode afirmar que será candidato à reeleição, mas é uma vontade?

Sérgio Azevedo: É uma tendência de sequência, mas não afirmo que vou ser ou que não vou ser. O pessoal diz que eu falei que não ia me candidatar nunca mais. Não falei. Se você pegar uma fala minha você nunca vai ver isso. Eu falava que não queria usar a cadeira de prefeito como trampolim para ser deputado, isso eu sempre falei.

Poços Já: O projeto da PPP do turismo voltou oficialmente para a prefeitura?

Sérgio Azevedo: Voltou, nós tivemos uma reunião aqui muito boa. Ele vai retornar com algumas sugestões que a Câmara fez.

Poços Já: O que mudou?

Sérgio Azevedo: Não muda praticamente nada, coisas simples, nada significativo, absolutamente. Uma vereadora de oposição chegou ao cúmulo de falar que queremos terceirizar de graça os pontos turísticos. Mas a forma de decidir quem vai ganhar é justamente quem vai oferecer a maior outorga. Na verdade, se você for ver só a receita do teleférico, ela é maravilhosa. Mas tem que colocar despesas que ele já dá e as que vai dar daqui pra frente, que são muito mais. E outra coisa: onde diz que a prefeitura tem obrigação de operar um teleférico? Prefeitura tem que operar educação, saúde, segurança. Se quebrar alguma coisa ali, tem que fazer licitação para arrumar. É um equipamento velho, que vai dar despesas e tem um risco iminente. A empresa que quer vir vai instalar um teleférico novo, trazendo da Suíça, e vai ter uma outorga, a compra do direito de explorar nossos pontos. E vamos continuar recebendo infinitamente, porque vão pagar ISS de, no mínimo, 5% de tudo que eles gerarem de receita.

Poços Já: Outro questionamento é que a concessão é unica, com todos os pontos turísticos juntos.

Sérgio Azevedo: É a única forma viável. Por que se faz um estudo antes? Para ver a melhor forma. Se fossem separados, todos iam querer pegar só o teleférico. Aí, quando você vê, só o teleférico está bom e o resto ruim. A empresa que fez os estudos chegou à conclusão que precisa ser uma empresa só, com a obrigação de investir em todos os pontos turísticos. Precisamos começar a trazer investimentos para a cidade, e estão pipocando investimentos no Brasil, mas Poços não tem, porque é tanta dificuldade… Se eles não atrapalhassem, já tinha feito isso muito mais rápido.

Poços Já: Como tem sido a relação com a Câmara?

Sérgio Azevedo: É uma relação normal, como deve ser, de harmonia. A gente tem uma harmonia boa, mas lógico, com uma oposição que ultrapassa os limites de uma oposição. Não é uma oposição a mim, mas à cidade. Mas a Câmara voltando, em agosto, acho que vão cuidar dessa questão do turismo com mais afinco. Tivemos uma reunião muito boa, inclusive com participação da Ciça, e ela entendeu a importância, espero eu que tenha o voto favorável até dela, pelo menos pelo que a gente conversou aqui. A cidade vai ganhar, só espero que não seja tarde demais. As cidades estão todas pedindo “pelo amor de Deus” para ter investimentos, então as empresas vão. Quando a gente publicar outras vão ter interesse também, mas essa empresa aqui, por exemplo, perdeu lá no Ibirapuera. Acabou de ter terceirização lá, ela ficou em segundo. Se ela ganhasse lá, não investiria aqui mais. Nós estávamos muito à frente, mas fomos ultrapassados por causa dessa lentidão. O projeto está parado há um ano na Câmara.

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