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A ideia é trabalhar um pouco com as ideias de Hegel, filósofo alemão que trouxe grande contribuição para o século 19. Muitos estudiosos da filosofia apontam que Hegel foi o filósofo que mais se aproximou de um sistema de pensamento absoluto, total. Por isso, a influência deste pensador para a contemporaneidade é significativa, não tem como ignorar o pensamento de Hegel.

O primeiro aspecto abordado é sobre a constituição da própria realidade em Hegel, que pra ele está sempre em constante mudança, pode-se voltar aqui a Heráclito que dizia que a constituição do ser está no próprio devir, à medida que tudo flui e tudo se modifica, através de outras coisas que vão fluindo. Depois de Platão que faz todo um trabalho para universalizar a importância da razão. O homem não gosta de assumir que é imperfeito, que a sua constituição vem das próprias incertezas da vida. Atualmente, há esta tentativa desenfreada do homem de controlar toda a sua rotina da vida quotidiana e até as outras pessoas, principalmente, aquelas que estão mais próximas, mostrando o pavor que o ser tem de andar em um solo que ele não conhece, de andar num caminho onde ele não vê o chão. No final do século 19, outro alemão vai abordar de forma genial esta afirmação de Hegel e vai utilizá-la para fazer duras críticas ao homem da época (que não mudou muito para o indivíduo do século 21). Nietzsche vai fazer um paralelo também com a Grécia Antiga¹. Aliás, Nietzsche vai além ao dizer que a filosofia nasceu e morreu com os pré-socráticos, já que, depois deles com a tentativa de universalizar o pensamento racional, foi tudo por água abaixo. Aqui a tentativa é de somente utilizar o paralelo que este filósofo faz com dois deuses gregos. Nietzsche disse que se tem então o estilo (ou momento) apolíneo, referente ao deus Apolo que caracteriza a perfeição, um ser que a tudo conhece, portanto, ele anda somente sobre as certezas da vida, sobre a claridade do ser perfeito que é; o outro momento é o dionisíaco, referente a Dionísio, o deus da embriaguez, indiferenciação, o deus da desmedida. Neste mundo não há certezas, a imperfeição opera e o caos constitui o próprio agir humano. No entanto, o homem de hoje não quer sofrer, não quer sequer viajar apenas utilizando um mapa em papel, pois tem medo de errar, não quer se arriscar, por isso, é muito mais interessante utilizar o GPS, que vai orientado e coordenando todo o seu trajeto. Será que o homem vai conseguir encontrar um GPS que guia toda a sua vida? É difícil, mas pode ter certeza que ele vai procurar por tal ferramenta incessantemente. Voltando a Hegel, que também voltou aos gregos, ele afirma, portanto, que a realidade é o próprio devir, gerando um desconforto na filosofia e batendo de frente com outro grande filósofo, Kant, que mais do que universalizar a razão este autor dedicou grande parte da sua obra para mostrar que a razão pode sim ser prática e utilizada por todos de forma universal. Hegel então percebe que a realidade é um devir, vem e vai, portanto, faz um esforço em querer entender como fica o homem neste devir, qual é a primeira ação do pensamento para o homem entender e sobreviver dentro do próprio caos? É aqui que ele chega a um fator fundamental e utilizado por muitos filósofos contemporâneos, muitas vezes, na tentativa de mostrar algo que Hegel não viu, ou uma posição contrária. Fato é que o estudo da consciência feito por Hegel mudou a filosofia.

Ora, para o homem entender a realidade, lembrando que para Hegel o real é racional, portanto, é algo que pode ser perfeitamente entendido pelo pensamento humano, é preciso antes entender a si mesmo. E isso acontece, à medida que o ser vai tomando consciência das coisas e de si mesmo. Portanto, a consciência tem dois fundamentos para se chegar a um entendimento. Primeiro é a experiência, à medida que o ser vai experimentando o mundo através das suas sensações e emoções este mundo vai tendo mais sentido pra ele. No entanto, somente os sentidos não fazem o ser chegar a um entendimento. Se uma pessoa colocar a mão no fogo, vai sentir que queima, no entanto, ela precisa interpretar o que aquela experiência lhe trouxe, como por exemplo, dor e ferimento na pele, para que na próxima vez ele possa evitar colocar a mão no fogo. Portanto, além da experiência o homem precisa interpretar tal fato para que realmente haja um entendimento, um aprendizado. Esta correlação das experiências e interpretações é um primeiro estágio da consciência em Hegel.

O segundo estágio da consciência é o mais complicado. Pois bem, quando o homem de tanto experenciar e interpretar começa a se dar conta de que a sua realidade é construída por ele mesmo, ou seja, de que o seu mundo depende única e exclusivamente dele, que interpreta e age à medida que vai tomando consciência de si e das coisas. Para Hegel o mundo só tem sentido para o ser através da sua consciência, as coisas e pessoas só vão tendo importância para o homem, à medida que suas experiências e interpretações vão sinalizando tais importâncias, vão formando o seu próprio mundo. Portanto, depois desta percepção o ser fica no estado de melancolia. Quando o ser dá por si de que ele é o responsável pela sua condição tanto atual quanto uma futura, o homem pode ficar no estágio da melancolia, inconformado que a sua condição depende somente de si mesmo. É neste ponto que terá uma ampla discussão logo a frente e que vai trazer o mal estar da pós-modernidade, ou seja, este segundo estágio da consciência vai remeter diretamente ao problema do ser atual. Mas antes, é importante trazer para a mesa o terceiro estágio da consciência para Hegel que é a consciência de si e para si. Nesta fase o homem consegue ultrapassar a melancolia, ou seja, ele entende que é a sua consciência que constrói o mundo e vai realizar ações para então transformar o seu mundo. Dois outros fatores são importantes aqui, a dialética de Hegel, ou seja, aquilo que é e ou que não é, é que vai levar o homem ao entendimento de fato. Isso quer dizer que o nada é tão importante quanto o ser. Tal concepção hegeliana também foi fundamental dentro da Fenomenologia de Husserl que vai analisar as intenções vazias². Husserl vai além ao dizer que toda consciência é sempre “consciência de alguma coisa”, ou seja, que todo o entendimento e intelecto têm uma intenção, uma intencionalidade. Portanto, este exercício dialético que traz a negação de forma positiva é o exercício dialético da própria consciência para o mundo, ou seja, o mundo é sempre constituído de dentro para fora em Hegel. Outro pensador alemão vai utilizar esta teoria de Hegel, o tal de Karl Marx, que tem muitas das suas teorias inspiradas em Hegel, a influência é tão decisiva, mesmo quando contrapõe as teorias de Hegel, que é difícil imaginar Marx sem Hegel³. No entanto, Marx inverte a dialética de Hegel, e traz o seguinte conceito, ora, não é a consciência que constrói o mundo, e sim o contrário, são as relações de trabalho, ou seja, aquilo que se dá no mundo que vai formar a consciência do indivíduo.

Além da dialética outro fator é fundamental para se alcançar a consciência de si e para si: a história (tal concepção vai influênciar o materialismo histórico de Marx). Para Hegel, o fato histórico é o principal atributo do ser para chegar a consciência plena. Ele tem uma frase interessante: a ave de Minerva só levanta voo ao cair da tarde. O que isso quer dizer? Que somente depois de ter experienciado e historicizado todo o dia é que a ave que representada o conhecimento, levanta voo.

Depois destas explicações sobre Hegel, está na hora de trazer suas teorias para a atualidade, mais precisamente este estágio da consciência que traz certa melancolia. É neste estágio que pode também acontecer a perda de si, ou seja, a alienação. Quando o ser não consegue alcançar a consciência de si e para si, na tentativa de sair do segundo estágio da consciência, o ser pode sim se perder. Isso é visto a todo instante neste mundo pós-moderno. A palavra alienação também muito utilizada por Marx[4] vem do latim alienus e quer dizer algo que está alheio. Nesta tentativa do homem de sair da melancolia, do sofrimento, já que ele descobre que tudo na sua vida depende somente dele, muitas vezes se perde no caminho. O mundo se torna um labirinto e o homem está nele sem ter noção alguma de como sair dele. O desespero faz com que, pouco a pouco, esta consciência de que a condição de vida não está fora, ou seja, esta realidade nua e crua vai ficando mais difícil de ser vista. Daí o homem sai em busca de referências, de alguém que pode lhe ajudar a sair do labirinto. O ser pós-moderno entregou sua autonomia para adorar alguém.

Talvez a religião seja o caminho mais fácil para o ser se perder neste processo. Isso não quer dizer que todas as pessoas que estão inseridas em uma religião estão perdidas ou alienadas. A religião e isso a fenomenologia de Edith Stein trata muito bem tem sua importância, porque muitas vezes é a única maneira que o indivíduo tem de voltar a si mesmo, de meditar e refletir sobre os seus atos. No entanto, há um perigo dentro da religião, pois em muitos cultos e em discursos de líderes religiosos, o destino da pessoa está nas mãos de Deus e não mais nas mãos dele mesmo, quando se constrói no ser que a sua vida não depende dele, há portanto, uma perda si, o ser está alienado. É comum entre jogadores de futebol, quando fazem uma boa atuação em campo, na saída quando o repórter pergunta para o craque do time porque ele foi tão bem, a resposta é quase sempre essa: nós estávamos concentrados, eu sabia o que tinha que fazer para vencer e, graças a Deus, consegui executar tudo o que treinador me pediu em campo. Outra forma de se perder no mundo quotidiano é quando o homem torna responsável, torna como causa algo que lhe acometeu ao outro. Fulano pode dizer que está triste porque brigou com Ciclano. É claro que isso pode acontecer, na medida em que o ser vai experenciando e interpretando as suas relações, tem muitas experiências que estão fora do controle do ser, elas acontecem independentemente dele querer ou não, mas a interpretação daquela experiência é de total domínio do ser. Estas alienações são comuns e fáceis de serem superadas.

A pior alienação não acontece quando o ser passa a responsabilidade que é sua para o outro ou para Deus. O maior problema da humanidade na atualidade, está na alienação do pensar, com uma imposição de uma ideologia que o indivíduo acredita que tenha de ser dominante, ou seja, quando o ser quer que o outro tenha a mesma interpretação que ele teve, o seu mesmo entendimento. Neste caso, o ser está exacerbado, vazando de si mesmo e chegando ao outro. O que não deixa de ser também uma perda de si mesmo, por mais que possa parecer manipulação e controle, não deixa de ser uma ilusão, algo que não é real, pois é praticamente impossível fazer do outro si mesmo. Esta tentativa de domínio de si perante o outro tem sido uma atitude cada vez mais incisiva por parte de muitos indivíduos. Muitas vezes, aquele que tem uma opinião contrária é criticado pelo ser. Um exemplo disso é a polarização na política do Brasil, que começou pouco antes da queda da presidente Dilma. Agora está assim, tanto a direita quanto a esquerda pedem um posicionamento por parte da população, mais que isso, pedem que a população vá as ruas mostrar aquilo que pensa, ou melhor, aquilo que querem que a população pense. Com isso, a população vira massa de manobra entre aqueles que querem impor a sua visão para os demais. Esta é com certeza a alienação que pode devastar politicamente o Brasil, pois quando há esta imposição de pensamento, percebe-se que o que menos interessa, pelo menos neste momento, é o bem estar comum, o bem estar da população de uma forma geral.

A crítica que tem de ser feita é contra esta ideologia dominante que aliena o ser em sociedade. O pobre não pode mais ficar defendo ideias que não irão beneficiá-lo, que na verdade irão beneficiar seu patrão. Por outro lado, a ideologia de esquerda no Brasil é completamente alienada, onde os intelectuais ficam escondidos atrás das máscaras, como mestres e doutores de universidades públicas. Mas por que a ideologia de esquerda é alienada? Simples, porque na realidade, não é possível subverter jogando com as mesmas regras. O doutor ou pós doutor de esquerda, ao invés de ficar reinventando ou resignificando Marx, deveria mostrar aos seus discípulos (que são muitos), que o sistema político, da forma como ele é jogado, que a própria e tão idolatrada Constituição Federal (de 1988), foi construída para conservar o poder político na mão dos poucos que aí estão perpetuando seu poder. Tal negação (niilismo) praticada pela esquerda é por mim relacionada com o mau caráter praticado por aquele que quer manter o poder. E porque não dizer que é até mais grave. O burguês que quer conservar tem um motivo real, não quer perder o que sempre teve de mão beijada, ou que tem pela luta dos seus familiares e de si mesmo. Agora os nossos intelectuais de esquerda que se escondem nas salas das universidades, estes querem conservar a referência na qual se tornaram. Eles querem conservar o posto de intelectual, posto tão difícil de conseguir no campo social da intelectualidade. Estes homens não querem perder a referência que lutaram tanto pra conseguir, mesmo sabendo que com isso, não se vai a lugar nenhum, que com isso a subversão não acontece. Contudo, posso afirmar sem medo de errar, mas sabendo que há muitos estou ofendendo: a subversão tão sonhada e discutida no camplo acadêmico do Brasil não é prática, é uma subversão de ideias, tanto que tais ideias e conceitos estão muito longe do trabalhador. Esta conformidade da intelectualidade conformada em trono referencial também é uma prática da ideologia dominante, ou seja, a sua intelectualidade, os livros que estuda e que vive fazendo fichamentos e resenhas e toda a revolução que vocês acreditam estarem realizando, são todas, “revoluções” (na verdade alienações) legitimadas por aqueles que estão no poder. Adoro mostrar este paradoxo. Confesso que a primeira vez que me deparei com este conceito foi lendo O Anti-Édipo de Deleuze e Guatarri, onde ele aponta que toda a revolta do ano de 1968 na França foi uma revolta legitimada pelo Estado. O povo tomou as ruas para não tomar o parlamente, a ideia de revolução já serviu de ração aos ratos que pediam revolução. Afinal, a ideia é sempre mais confortável que a prática.

Portanto, a única saída é de seguir o caminho da autonomia parra sair do labirinto dominante e chegar a consciência de si e para si, mesmo sabendo que tal consciência é uma coisa que leva uma vida toda para ser construída, seguir este caminho pode começar simplesmente com um pensamento bem simples: mais importante do que ver e ter lados é procurar sempre enxergar o mundo com os seus próprios olhos.

*Thiago Quinteiro é filósofo e jornalista

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Notas:

[1] É interessante como a filosofia da Grécia Antiga é tão importante para a filosofia contemporânea, muitos pensadores fizeram alguns resgates de teorias daquela época para trazer novos trabalhos. Por isso, que na Academia se defende e se estuda de forma tão intensa a Filosofia Antiga. Assim como Hegel e Nietzsche, outros autores importantes bebem desta filosofia grega, como Husserl, Heidegger, Deleuze, Foucault e tantos outros.

[2] As intenções vazias dentro da fenomenologia remetem a estudar ou analisar aquilo que ainda é somente uma possibilidade, que analisa o que ainda não é fato, não é histórico. É como os comentaristas fazem antes de um clássico entre Corintians e Palmeiras e também depois do clássico. Estas discussões são importantes para entender de fato toda a importância de um jogo como este. As intenções vazias são reflexões realizadas quando ainda o fato não aconteceu, mas que ajudam a entender o próprio fato quando ele acontecer.

[3] Por isso, fiquei tão preocupado com as críticas que muitos da esquerda fizeram a um promotor de São Paulo que queria citar Marx e Engels e acabou trocando e escrevendo Marx e Hegel. Não podemos negar que foi um equívoco, mas o próprio Marx e também Engels sofreram forte influência de Hegel. A própria esquerda, da forma como a conhecemos hoje, que luta por uma liberdade política, surgiu com o neo-hegelianos da Alemanha de meados do século 19.

[4] Em Marx a alienação acontece, sempre do mundo externo para o indivíduo. No seu entendimento, não há mercadoria sem o trabalho de alguém, ou seja, não há mercadoria sem o proletariado. Sem mercadoria não existe relação de compra e venda, sem tal ação não há economia. Portanto, na relação econômica, que move o mundo, o trabalhador tem o papel principal dentro da história. No entanto, o trabalhador não percebe a sua importância, neste momento Marx vai dizer que o proletariado está alienado, pois não se dá conta da sua própria importância no processo.