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Vivemos hoje como se estivéssemos em uma gigante prateleira de supermercado. Estamos expostos, sendo observados cotidianamente, em uma crise de identidade. Não só isso, vivemos uma crise da própria ideia de identidade.

Com o desaparecimento da interioridade, e consequentemente do conteúdo essencial do sujeito, o que testemunhamos hoje é uma curadoria do eu – uma edição permanentemente construída da imagem projetada sobre si, no mundo.

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Esta identidade, que pode ser reconhecida, legitimada e definida como parte de algo, é o que comumente chamamos de rótulos. Por detrás da necessidade de dar nomes, descansa a necessidade de pertencer: a um grupo, um movimento, uma ideia, uma comunidade. Pertencer a qualquer coisa que faça desaparecer de si a sensação de estar sendo inadequado.

Enquanto corpos pulsantes, passamos por variados processos. Constantemente somos afetados, bombardeados e, de certa maneira, moldados. Nem sempre somos preparados para encarar uma sociedade que nos limita e rotula. Porém, em uma construção social patriarcal, aprendemos a seguir as ordem de uma linearidade domesticadora: o personagem é sempre o mesmo personagem, o roteiro é sempre o mesmo e o ciclo de vida-morte-renascimento é subjugado.

O resultado disto é que não estamos necessariamente orientando a bússola de nosso devir em direção à vida, mas sim, em direção a um sistema moral de reprodução e manutenção do status, da personalidade adquirida. É como se, a cada indício de fragmentação e fluxo de deslocamento de realidade, agarrássemos com todas as forças dos nossos dentes e unhas a qualquer coisa que nos traga o senso de pertencimento – nutrindo um sistema capitalista, colonialista fracassado, em troca de mercadorias que representem códigos sociais, estereótipos: lugares seguros, porém arcaicos e provincianos.

Perceber que somos além de um rótulo, ou um mero código social, expressa a liberdade, o potencial de descoberta sobre si e o outro. De permitir a chama acesa da verdadeira identidade.

Diante de mim, uma alienação patológica que pede doses homeopáticas de engajamento de pensamento, para que, ao invés de aprendermos a imitar melhor os códigos, possamos conectar com o verdadeiro saber do corpo, com a potência do coração pulsante, com o criar que tece sua trama a partir da flexibilidade, da experimentação, na mistura dos códigos, no improviso, na não-programação.

Que saibamos encarar a constante re-construção do ser.

*Évila dos Anjos é nortista, cabocla da cidade de Belém do Pará. A(R)tivista na vida, pedagoga, atriz, professora de teatro, diretora teatral, palhaça, contadora de histórias, performer e membro fundadora da Cia Nós de Teatro. Desenvolve trabalhos de educação/teatro em projetos sociais, tendo experiências diversas no ramo. Alia a arte à militância, pois uma não caminha sem a outra. Com o tempo e as vivências, aprendeu que a arte é uma maneira de resistência e uma das bandeiras que carrega como forma de conscientização e cura para descobertas e convicções. Mora em Poços de Caldas há seis anos, mantendo as raízes de luta e força dentro dos espaços e da arte, caminhando e seguindo graças a toda ancestralidade que a rege.

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