Publicidade

Internet, uma invenção da última década do século XX, já nasceu com esta ideia de causar uma revolução tecnológica em todo o mundo. Com a evolução do microchip, os computadores foram diminuindo de tamanho e agora cabem no bolso. Com isso, a internet e o mundo que ela representa também cabem no bolso.

A complexidade se tornou maior quando se percebeu que a internet não havia revolucionado somente o setor tecnológico. Esta ferramenta mudou o comportamento do ser em sociedade. Aliás, até a noção de sociedade se transformou, não é preciso estar com muitas pessoas, com um grupo para se viver em sociedade, posso fazer isso sozinho dentro de casa e conectado com dezenas ao mesmo tempo. Com o advento da internet, o indivíduo se tornou um casulo. O ser tem acesso ao mundo sem sair de casa, sem sequer levantar da cama.

O século XXI se destaca pela invenção das redes sociais, formas de comunicação e relação entre indivíduos através de uma conta de e-mail ou pelo próprio número do telefone celular. Onde se pode acompanhar a vida das outras pessoas, de quem se gosta ou de quem se odeia estando longe, sem qualquer obrigação de participação do espectador. Eis a facilidade da vida, se relacionar sem se relacionar. A partir da segunda década do século XXI, o homo sapiens demiens chegou a um novo estágio, muitos diriam que evoluiu para: “o homem de cabeça baixa”. O mundo a ser descoberto e contemplado não está mais à sua frente, mas sim na tela do seu celular, agora é só olhar para baixo. No entanto, chega de falar mais do mesmo. Entendo que, se não for para escrever e trazer uma ideia ou um conceito interessante, é melhor não perder tempo escrevendo, tampouco pedir para amigos lerem o seu artigo como sempre faço. A ideia aqui é trazer uma análise do “homem de cabeça baixa” com a ajuda dos três primeiros livros da maior obra de Schopenhauer: o mundo como vontade e representação.

Mas antes de Schopenhauer, trago a minha visão das redes sociais de um possível Platão. O que ele acharia das redes sociais? Têm alguns aspectos que me levam a crer que este filósofo da antiguidade não seria saudosista e não reclamaria dos tempos de hoje para dizer que bom mesmo era o papiro, quando a pessoa tinha de pensar muito bem antes de escrever para não rasurar o papel egípcio. Seria então a rede social um ideal concreto do diálogo? Não tem como negar que este advento facilitou o diálogo entre as pessoas. Não só para falar de coisas fúteis, como a briga que uma pessoa teve no trabalho, ou da melhor transa da sua vida (se bem que uma transa boa não é futilidade, é momento bom da vida); têm outras pessoas que discutem sobre política (talvez a grande futilidade), debatem sobre questões sociais, pensam o mundo através de longos debates nas redes sociais, tem professor no Brasil que chegou a escrever livro somente com as conversas que teve com outro docente através do WhatsApp. Fato é que um dos primeiros métodos filosóficos se evidencia com as redes sociais, é o auge da dialética. Não se pode negar que o diálogo é executado exaustivamente, é comum pessoas conversarem com outras na cama até uma ficar no vácuo em uma conversa, quando isso acontece você já sabe que a outra pessoa, aquela que não está ao seu lado, acabou pegando no sono. Talvez o que poderia chatear Platão é que quase ninguém utiliza uma rede social para tratar de um problema sem solução (uma aporia) da nossa sociedade. Agora podemos avançar para Schopenhauer, pois o advento da rede social promove uma exaltação do ser, do ego. Sugiro a você, que não consegue ficar desconectado das redes, a não avançar nestas palavras, ainda há tempo.

A rede social é uma incansável exposição do ser, o indivíduo tenta a todo instante mostrar aquilo que lhe agrada, a sua diversão, o que está comendo, o que está fazendo, o que está pensando, quem está amando, quem está comendo, as pessoas que são mais queridas, suas inquietações, seus ranços, suas indignações, etc. É claro que não maioria das vezes o que se faz é mostrar uma série de coisas que são importantes para um “preenchimento” do indivíduo. As pessoas colocam mais postagens de coisas boas feitas e reconhecidas como positivas na sociedade do que as ruins. Dificilmente, quem cometeu um crime publica tal ação na rede. Até mesmo quando se coloca algo triste da sua vida é sempre na tentativa de se mostrar como alguém digno, que não quer saber de pessoas de mau caráter a sua volta. O grande problema da internet, da rede social, é o mesmo do mundo real (não virtual). O ser está sempre tentando mostrar e se fazer percebido por aquilo que ele acha que é. Esta talvez seja a grande dificuldade do mundo. Se um indivíduo vê como principal característica sua uma genialidade, é esta a imagem que ele vai tentar passar para as outras e estas terão um acesso mais fácil pelas redes sociais. Aquele que se acha gênio vai passar uma representação de gênio. Antes deste advento, para alguém ser considerado um gênio, ele teria de conquistar degraus na sociedade, ter pelo menos três pós-doutorados e mais de dez livros publicados antes dos trinta anos. Com a rede social basta colocar frases de outros e conclusões originais que alguns ou muitos podem achar que este “homem de cabeça baixa”é um gênio.

A rede social tem coisas boas. Já no parágrafo cinco do primeiro livro, Schopenhauer relaciona lindamente a vida real e o sonho, ao dizer que ambos são “as folhas de um mesmo livro”. Este livro na verdade é o próprio ser, quando o indivíduo está acordado, vive a vida e quando está dormindo também vive está mesma vida, só que em páginas diferentes, uma “já lida ou sobre uma que não conhecíamos”, mas a obra é a mesma. Quando nos expomos nas redes sociais também é o mesmo livro, só que é intencional, ou seja, é aquilo que se quer representar. A intenção é sempre de mostrar e exaltar o corpo, o corpo na sua matéria, o que se acha belo dele e o corpo no seu pensamento, ou seja, o que o indivíduo que tem uma matéria pensa sobre um determinado assunto, sobre um fato, sobre um acontecimento. Assim sendo, dá a entender que se mostra e, consequentemente, o que se vê nas redes sociais é a essência do indivíduo. Se por um lado é interessante ter a rede social para compreender uma pessoa, é perigoso ou inocente achar que esta representação é de fato a essência do ser. O homem é muito mais daquilo que se apresenta nas redes sociais ou fora dela. É preciso entender isso para se ter menos frustrações, menos espera de algo que foi mostrado no Instagram ou outro aplicativo. Um homem é muito mais do que aquilo quer mostra, as relações são mais complexas e muitas vezes apontam sensações e reações que vão muito além do que o próprio indivíduo conhece. Quando se pensa conhecer a essência, é como se negasse o movimento; a essência ou a procura por uma verdade acaba servindo como uma máscara de um movimento do ser que nunca cessa; é como querer congelar uma onda, um instante, num registro, numa fotografia, num comentário ou numa curtida. O problema do virtual é quando ocorre o encontro com o real. Na virtualidade, dimensão das redes sociais, se analisa uma pessoa de forma racional, ou seja, pelo entendimento ali mostrado, no entanto, no encontro real, a relação pode fugir totalmente da influência da razão, daí o encontro por ser diferente do entendimento tido antes. Um bom exemplo pode ser mostrado na relação de prazer ligada ao sexo. Tanto para um homem quanto para uma mulher é comum, rolando tela no Instagram, ver alguém que te apetece sexualmente. Ver uma mulher de biquíni na praia com um corpo que instantaneamente te leva a querer desejá-lo, ter o pertencimento daquele corpo numa relação sexual. Quando isso ocorre, se o homem tiver coragem, ele pode tentar uma aproximação virtual, mostrando interesse, conversando, trocando diálogos e, à medida que a mulher também vai mostrando interesse, a relação vai fluindo, sempre é claro com o objetivo de alcançar o desejo impulsionado anteriormente. Vai surgindo no homem o entendimento de que aquela mulher vai te dar um prazer incrível, ela também vai construindo estes entendimentos do outro lado. A conversa avança, as sacanagens nos diálogos trocados passam a ter cada vez mais intensidade, ao ponto que ambos chegam à conclusão de que está na hora daquela relação que começou na virtualidade se concretizar. Quando chega a este estágio já há um entendimento formado por ambos de que a transa vai trazer uma felicidade, uma alegria do desejo alcançado. Ocorre que o encontro pode muito bem seguir para este fim, da pessoa que conseguiu te alegrar e te trazer um gozo, mas também pode-se ter uma frustração. Para a mulher, aquele cara que se mostrou compreensivo, amoroso, que pelo entendimento dela poderia trazer momentos de contemplação do seu corpo, durou dez minutos na cama, que mal olhou para o seu corpo, que mal tocou no seu corpo que ele tanto elogiara nas redes sociais. Isso quer dizer que mesmo com o entendimento produzido na conversa, na construção de um relacionamento pelas redes sociais, pode ser muito diferente do encontro carnal, de quando o corpo dela se encontrou com o corpo dele. Daí vem a frustração, todo o entendimento, toda a razão que a mulher utilizou para encontrar no mínimo um parceiro bom de cama, não é garantia de um bom encontro. Isso quer dizer que todo o entendimento (Schopenhauer entende este conceito como o princípio da razão) não pertence à intuição. Se por um lado as redes sociais aproximam pessoas, elas também podem servir como máscara, uma falsa imagem que escapa à intuição. É claro que, este mau entendimento, este erro de análise, também pode acontecer num flerte numa balada, mas ali a intuição pode ser melhor percebida e interpretada.

Com esta análise é possível entender que “o sentimento opõe-se naturalmente ao saber: o conceito que designa a palavra sentimento tem um conteúdo absolutamente negativo. Simplesmente existe qualquer coisa atualmente presente na consciência – que não é nem um conceito, nem uma noção abstrata da razão” (p. 60). Ora, isso quer dizer que: independentemente do gênero (homem ou mulher), viver a vida seguindo sua própria vontade, ou seja, perseguindo os desejos desta máquina desejante que é o indivíduo não lhe dá nenhuma garantia de ter sempre encontros alegres, encontros que aumentam a potência do indivíduo. A vontade não é boa nem ruim, somente a experiência de aplicação da vontade como um querer realizado é que vai depois trazer o entendimento de que tal encontro foi bom ou ruim. Isso quer dizer que a vontade também é contingência. Para Nietzsche este não é o problema, pois assim é a vida, viver é sempre trágico, justamente por não ser ordenado, por não termos nunca a essência de qualquer ser, tudo escapa o tempo todo. Mas o que faz a rede social? Simplesmente, coloca uma condição ao ser, tenta mostrar uma essência, acaba sendo uma ferramenta para o ser se mostrar imutável. Este entendimento é o que se procura nas pessoas, um homem pode se representar como alguém legal, preocupado com a política vigente que não quer saber do fator social, que sempre tem bons sentimentos para com uma mulher, adora ainda escrever poemas exaltando a beleza delas. Basta acompanhar algumas postagens para pensar: pronto, este cara é ideal pra mim. No entanto, “a realidade tem por contrário a aparência, ilusão do entendimento”. E este homem que percebe o que uma mulher procura e faz exatamente o que se espera dele, não passa de um imitador que tem como uma intenção mais uma transa e usa de todas as artimanhas da  imitação para conseguir o que quer. É preciso entender que o homem da rede social é apenas um recorte (ilusório ou não) do homem em si e a linguagem das redes sociais pode servir para desvendar um sujeito, mas também para esconder “do outro os seus pensamentos”. É importante lembrar que a imitação é apenas uma reprodução do mundo da intuição. Sei o que uma mulher que quero conquistar deseja, isso pode ocorrer através da intuição, daí utilizo a imitação para representar justamente o homem que ela procura. Às vezes, a representação tem uma conciliação com a realidade daquele sujeito determinado, mas muitas outras vezes não.

Fim da primeira parte.

*Thiago Quinteiro é jornalista e filósofo

Publicidade