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O livro “A peregrinação interior”, de um autor francês desconhecido, do século IX, traz uma definição interessante do ódio. A obra conta a história de um viajante que vai encontrando diversos personagens na sua jornada que tem como finalidade a busca de si mesmo. Certa ocasião ele se depara com Eros (o deus do amor na cultura greco-romana) com uma venda nos olhos. Este amor cego é apresentado ao peregrino como a definição do ódio.

Aquele deus, responsável em levar o amor, agora encontra-se cego, perdido, não sabe em quem deve lançar sua flecha. Um Eros cego pode ser comparado a uma esquerda que, ao invés de se preocupar com os mais pobres, de distribuir as riquezas pelo bem comum, se enriquece, faz fortuna e se transforma num dominador. O Eros cego não sabe em quem deve lançar suas flechas, uma esquerda que busca o poder pelo poder não consegue disseminar o bem comum. Cedo ou tarde, tanto aquele que busca o amor, quanto o povo que está à procura de uma política que busca diminuir a desigualdade, irão perceber que seus deuses já estão longe dos seus ideais, levando aos dois agonia… desespero.

É neste momento de fragilidade política, de uma cegueira ideológica, que um novo messias é anunciado. No caso do Brasil de 2018, Jair Bolsonaro passa a ser uma esperança, uma saída desse amor cego. É como se ele fosse o responsável por desvendar Eros, surgindo como uma bússola ao navio à deriva que se tornou o país. A bússola não traz nenhuma novidade, nenhum caminho a ser descoberto, mas este político que mistura pregações cristãs prega o que as pessoas querem ouvir.

No entanto, utiliza uma sofisticação para tal discurso. Utiliza como base o nacionalismo para substituir o vazio deixado pela crise de identidade de um PT acuado e que ainda gera medo, pelo simples fato de um dia voltar ao poder. O problema é que nação é diferente de pátria. Uma coisa é o atleta ter orgulho de representar o seu país numa competição olímpica, isto é ser patriota. Já o nacionalismo é uma forma moderna para mostrar que o mundo inventado através das suas palavras é melhor que o mundo vivido. Como para muitos o Brasil estava atolado na lama, Bolsonaro não precisou de muito esforço. Vítima de um atentado na época das eleições, se tornou um mártir, uma referência, levando elementos aleatórios para pregar uma visão nacionalista à população. Mostrando preocupação com a segurança, apostou na tolerância zero, vangloriando as forças armadas, defendendo a implantação de colégios militares, a volta da disciplina de Moral e Cívica na educação, o armamento dos cidadãos para se defenderem dos bandidos. Com isso, deixando de discutir as causas e os efeitos de um possível aumento da violência.

Fazendo uma análise como um materialista histórico, Bolsonaro não chega a infraestrutura para pensar a violência e a falta de segurança, mas somente se utiliza de um discurso vazio na superestrutura, pois sua fala é voltada ao nacionalismo, religião e a conservação da família brasileira da década de 1970.

Marx não teria dificuldades de assimilar a violência com o fator econômico e George Sorell (no início do século XX) não tem dificuldade em trabalhar com outra infraestrutura para assimilar a violência com a política. Mas estes discursos são muito sofisticados para um presidente superficial como Jair Bolsonaro, que governa o país com discursos que ficam somente na superestrutura, na superfície, na vacuidade… num vazio. No entanto, nós brasileiros temos uma grande culpa neste fator histórico que se tornou a vitória de Jair Bolsonaro nas últimas eleições.

Deleuze, no livro “Proust e os signos”, alerta para um signo que cada vez mais tem importância na sociedade, que não é um, mais vários: os signos mundanos. Tais signos são vazios, a mídia não discute o que realmente importa, assim como os políticos, as religiões, a educação e tantos outros signos que podemos até relacionar com as superestruturas de Marx.

Mas por que isso acontece? Para não fazer o homem pensar. Para não refletirmos sobre as discussões de leis importante no Congresso, recentemente, Bolsonaro falou da importância de se comemorar o Golpe de 64. Diversas manifestações aconteceram no dia 31 de março, encabeçadas por partidos de esquerda, movimentos, coletivos e intelectuais e de outro lado, os defensores de Bolsonaro. Enquanto o país se afunda em discussões pouco conceituais, as empresas tiveram um lucro 100% maior nestes primeiros meses e podem ganhar mais benefícios com as mudanças que estão para serem votadas em Brasília.

Enquanto os conservadores e os esquerdistas travam lutas ideológicas provocadas por um presidente “louco”, o sistema (ou o capitalismo) vai se transformando num polvo de mil braços, de possibilidades incontáveis de crescer, de se alimentar, de multiplicar o capital. Como todas estas possibilidades dependem da população, do trabalhador, o sistema, que nunca trabalha de forma braçal, realiza o seu trabalho intelectual, alienando a população e, até mesmo os opositores, dando a eles somente o osso que podem mastigar. Frente a uma noção de maioridade do capital, há sempre um esforço em deixar o indivíduo na condição de menoridade. O indivíduo sequer consegue perceber sua maioridade numérica frente aos poucos que detêm o capital, que formam os alicerces do sistema. Cadê a revolução? Bem… somente aquela revolução que o sistema permitir para continuar no poder, o resto é resto.

*Esta é a segunda parte do artigo que foi fruto de três aulas de Sociologia dadas em outubro de 2018 no Colégio Nini Mourão. A primeira parte pode ser lida neste link

**Thiago Quinteiro é jornalista e filósofo. 

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