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A Morte sempre foi uma questão chave na existência humana. E na atual configuração de sociedade, ela é a maior das desgraças. Quanto mais nos desenvolvemos cognitiva e tecnologicamente, menos preparados estamos para lidar com a maior certeza da nossa existência. E então passamos a criar mecanismos para adiá-la, evitá-la e até mesmo esquecê-la. A Morte virou tabu.

A medicina, por exemplo, adia a Morte o máximo que consegue. A indústria farmacêutica idem, e todos os outros mecanismos, que de tantos seria impossível citá-los aqui, mas fazem simplesmente que nos esqueçamos de como será o nosso fim. Pois vivemos como se fôssemos eternos. Utilizamos dos recursos que temos, e juntamos bens materiais, na esperança que estes nos deem algum pingo de prazer, algum resquício de sabor que estupidamente acreditamos ser para sempre, para esquecermos que a vida se vive não só de prazer mas também de dor e sofrimento, principalmente diante da maior realidade de todas: morreremos. Mas, ao invés disso, preferimos negligenciar a Morte. Fingimos que ela não existe. Maldizemo-la. A Morte sofre bullying, por fazer o que nasceu para fazer, e só ela faz.

Dos livros que li, um se destacou e até hoje segue sendo para mim o melhor enredo. Da mente brilhante de José Saramago, a obra “As Intermitências da Morte” trata de uma comunidade na qual a Morte simplesmente decide que irá tirar uma folga. A partir daí, naquela comunidade, ninguém morre. A princípio, um paraíso. Muitas pessoas ultrapassam as barreiras deste pequeno país, de forma ilegal, para alcançar a imortalidade. Mas a médio prazo as coisas ficam bizarras. Porque quem deveria morrer também não morre. Os idosos e gravemente enfermos começam a viver de maneira vegetativa, assim como os gravemente acidentados experimentam uma angústia inconcebível ao sentirem insuportáveis dores “ad aeternum”, sem poderem gozar do que naquela situação seria o maior prazer de todos: morrer. Imaginemos. É muito importante notarmos que a Morte, maior fonte de angústia da atualidade, é também a maior dádiva do ser humano. Porque nós temos prazo de validade, e produto vencido não presta.

Penso, sem demagogias, que deveríamos nos aproximar da Morte. Convidá-la a conhecer nossas casas, nossas famílias, nossos medos e angústias, nossas conquistas. Talvez esta seja uma via de mão dupla. Quem sabe se a Morte confiar em nós e se sentir à vontade em nosso meio, talvez ela possa igualmente nos mostrar a sua realidade? Quem sabe assim a gente consiga finalmente descobrir o que vem depois dela?  E a partir daí, compreender finalmente qual o sentido da Vida? Talvez se ao menos tentarmos compreender a Morte e sua real função, a gente consiga ficar em paz na hora de partir desta para uma melhor. Termo curioso, aliás: Partir desta para uma melhor. Tomara que seja assim.

Não penso que seja difícil. A dor sim, é difícil. A perda, muito difícil. A saudade, às vezes quase insuportável. Mas é hora de crescermos, de amadurecermos. De entendermos que, ainda com todos os entraves da nossa existência, precisamos viver nossas vidas como se ela realmente fosse acabar. Pasmem, ela vai. A humanidade ainda é um grande bebe chorão, mas neste caso, não adianta fazer birra. É o que é.

Que a certeza da Morte consiga gerar em nós a reflexão acerca de toda a imundície que criamos em vida. Que assim seja.

*Anderson Loro é psicólogo e músico. Como psicólogo, atua em clínica particular e no serviço público pela Prefeitura de Poços de Caldas, com pessoas em situação de rua e com grupos de homens denunciados por meio da Lei Maria da Penha. Como músico, atua em diversos grupos, dentre eles a Banda Capitão Vinil.

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