Mais uma tragédia anunciada. Não é de hoje, e não vai parar por aqui. Tudo em nome do lucro. Homem primata, capitalismo selvagem.  

Já no começo destes escritos, percebo que não será difícil abordar o tema. Pois não é preciso pensar demais para escrever uma crônica que trata de injustiças, uma vez que a forte emoção já fez sumir qualquer resquício de razão, e o que resta neste caso é iniciar um movimento quase involuntário de pôr pra fora toda raiva e indignação, em uma tentativa frustrada de catarse.  

Libertas quae sera tamem, profere nossa linda bandeira, que lança mão de ambos os sentidos literal e simbólico para pregar que ainda que seja tarde, a liberdade sempre será bem-vinda. Porém, ao olhar fixamente para nossa bandeira admirando a vermelhidão de um triângulo perfeito, meus olhos refletem sua cor e ficam igualmente avermelhados, ao perceberem que já é tarde e ainda estamos muito longe de conquistar nossa liberdade. Pois as Minas Gerais nasceram para serem exploradas e assim se mantém, por mais de trezentos anos até hoje, para o futuro a perder de vista.  

Aliás, nosso Brasil tem muito, mas muito mais do que quinhentos e poucos anos, como rezam os livros de história. Também nossas Minas Gerais, que sopram trezentas e poucas velas, mas que carregam consigo uma história de mais de dez mil anos, esquecida quando os europeus colocaram seus pés neste solo e passaram a nos ensinar que nada aqui existia antes de chegarem, deturpando – e estuprando – nossos ancestrais com seus costumes, morais e religiosidades. E claro, explorando, já contaminados pelo capital e pelo lucro. E assim seguimos, nativos escravos, donos de infinita riqueza, que no fim irá pertencer a quem tem a grana para cavoucar cada vez mais fundo. E se for preciso sacrificar milhares de vidas, humanas e animais, que seja. O lucro vale mais que isso, não, Vale?  

Tal tragédia não é pioneira e nem nova. São várias, no Brasil e no mundo. Em 2015, sabemos todos, um desastre semelhante aconteceu em Mariana. Na época, ao fim de uma noite de trabalho, me encontrei por acaso com meus amigos João e Juliano, fundadores deste jornal. Em meio a prosas e saideiras, me pediram uma opinião. Desejavam avidamente fazer a cobertura da tragédia in loco, jornalistas proativos que são, porém as dificuldades eram grandes. Mas não maiores que o desejo. Dei minha opinião, ainda que todos soubéssemos que ela só serviria para reforçar uma decisão já tomada: era preciso enfrentar o barro. Nos dias seguintes, li reportagens e vi fotografias que me fizeram encharcar os olhos por no mínimo cinco vezes. Coisa rara.  

Eu posso apenas imaginar o que eles presenciaram por lá, e nós todos podemos apenas imaginar o que é estar na pele dos familiares das vítimas deste tipo de evento. Não existe palavra no mundo, em nenhuma das milhares de línguas existentes, que consiga expressar tamanha dor. Na falta delas, nos coloquemos em silêncio. E em luto. Luto pelas famílias, luto pela natureza. Luto pela humanidade. Luto por Minas Gerais e pelo Brasil.  

Enquanto isso, rolam os bilhões. E nós nos perguntamos: Quanto vale uma vida? E centenas de vidas? E a natureza?  

Quanto, Vale?  

#naofoiacidente 

*Anderson Loro é psicólogo e músico. Como psicólogo, atua em clínica particular e no serviço público pela Prefeitura de Poços de Caldas, com pessoas em situação de rua e com grupos de homens denunciados por meio da Lei Maria da Penha. Como músico, atua em diversos grupos, dentre eles a Banda Capitão Vinil.

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