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Durante a gestação, enquanto fazem o enxoval, muitas gestantes compram chupetas e mamadeiras, acreditando que esses artigos possam ser necessários após a chegada do bebê. Esses objetos estão tão enraizados na nossa cultura que são utilizados como símbolos para representar a “ideia da maternidade” em geral. Podemos ver desenhos de chupetas e mamadeiras em decorações nos “chás de bebê” e batizados, enfeites de porta de maternidade, lençóis, quadros, etc… e até mesmo as bonecas infantis são vendidas com esses artigos, para as crianças brincarem, como se não fossem capazes de suprir as necessidades dos seus “bebês de brincadeira”, de outras formas (naturais).

Tudo isso nos faz perceber que esses artigos, que são praticamente “novos” na história da humanidade e totalmente industrializados, são vistos quase como “itens obrigatórios” para quem vai ter um bebê e seu uso é totalmente naturalizado na sociedade atual.
Vivemos na era da cultura da mamadeira e da chupeta.

Há quem ache lindo um bebê chupando chupeta e compre o artigo de diversas cores para combinar com as roupas do bebê, antes mesmo do bebê nascer. Há também quem ache que não vai conseguir amamentar e compre mamadeiras, com o bebê ainda na barriga, para se sentir prevenida em caso de insucesso, mesmo antes de tentar… e por aí vai…
O fato desses artigos estarem tão enraizados na nossa cultura interfere na nossa relação com eles, pois estão tão presentes na nossa ideia de maternidade que para algumas pessoas é difícil desvincular esses artigos do seu dia-a-dia. Algumas pessoas não se sentem capazes de exercer a maternagem sem o uso desses objetos e duvidam de seus poderes naturais, como a capacidade de produzir e alimentar um bebê somente com o leite materno (comprovadamente, o melhor alimento para os bebês na esmagadora maioria dos casos).

Por isso, é fundamental que as pessoas sejam alertadas sobre o quanto esses artigos podem interferir negativamente no processo de aleitamento, pois, embora pareçam inofensivos, a chupeta e a mamadeira podem arruinar o estabelecimento da amamentação e causar o seu insucesso.

Isso pode acontecer devido ao “fenômeno” chamado de CONFUSÃO DE BICOS.

Esse fenômeno pode acontecer com bebês que tenham contato com qualquer tipo de bico artificial, podendo ser chupeta, mamadeira, bico de silicone, etc…e também pode interferir imediatamente ou demorar alguns meses para acarretar consequências. Há bebês que chupam chupeta ou tomam mamadeira e passam ilesos pela experiência, sem que ela interfira na amamentação. Porém, os casos de interferência desses objetos na amamentação são infinitamente superiores em quantidade e, devido a isso, até mesmo o Ministério da Saúde passou a exigir um alerta nas embalagens de chupetas, mamadeiras e na caderneta de vacinação, quanto ao uso desses artigos e a possibilidade deles atrapalharem o processo de aleitamento.

O maior malefício ligado ao uso dos bicos artificiais, que é muito frequente em bebês que utilizam um ou mais artigos desse tipo, é o DESMAME PRECOCE acarretado pelo uso da chupeta, mamadeira, bico de silicone ou todos eles (sendo o desmame precoce, considerado o desmame antes dos dois anos de idade, que pode ser consequência do uso desses artigos).

A confusão de bicos pode acontecer quando oferecemos bicos artificiais ao bebê que está sendo amamentado no seio materno. Isso porque os movimentos de sucção que o bebê precisa fazer para sugar esses objetos é absolutamente diferente dos movimentos que eles precisa fazer para mamar no seio de sua mãe. A sucção que o bebê precisa fazer para amamentar e conseguir extrair o leite do seio da mãe é extremamente diferente do movimento que ele faz para chupar chupeta ou tomar mamadeira.

Essa diferença, confunde o bebê e geralmente, ele acaba optando pelo caminho “mais fácil” e começa a recusar o seio materno.

Para extrair o leite materno, o bebê precisa fazer um verdadeiro “exercício”. Tanto é, que alguns bebês suam bastante enquanto mamam. Já para tomar mamadeira e chupar chupeta, não é necessário esforço algum.

Além disso, crianças que utilizam chupetas e mamadeiras, solicitam o seio materno com menos frequência e acabam deixando de estimular a produção do leite com a mesma eficiência. Pois sabemos que quanto mais o bebê mama, mais leite a mãe tem.

Por isso, são bastante frequentes os casos em que uma mãe insere a chupeta, mamadeira ou os dois, na rotina da criança e logo depois, começa a sentir uma diminuição na sua quantidade de leite materno.

O desmame precoce, portanto, é uma das consequências mais comuns, pois inserir chupeta, mamadeira ou ambos na vida do bebê, acarretam, quase sempre, o efeito “bola de neve”: o bebê passa a confundir os bicos, começa a pegar o seio de forma errada ou ineficaz (ingerindo menos leite), começa a rejeitar o seio materno e a chorar mais (às vezes, de fome, por estar com a pega errada e ingerindo menos leite), o seio da mãe pode começar a ter fissuras e ser machucado devido à pega incorreta, a produção de leite da mãe diminui (pois o bebê mama com menos frequência) e o bebê acaba desmamando.
Mesmo algumas mães que acreditam que seus filhos não passaram pela confusão de bicos, muitas vezes descobrem, tardiamente, que seus filhos desmamaram antes dos dois anos, porque já estavam tomando mamadeira e/ou chupando chupeta junto com o processo e “substituíram” um hábito pelo outro.

Sabemos que há mães que precisam trabalhar e que inserem esses artigos para que seus filhos possam ser alimentados enquanto estão fora e sabemos que há, inclusive, creches que não aceitam leite materno ordenhado.

Por isso é tão importante que lutemos para que essa realidade mude, para que as mães sejam orientadas e incentivadas a ordenhar seu próprio leite e seus bebês possam continuar a receber o melhor alimento para eles, mesmo quando a mãe necessita se ausentar.

Vale lembrar também que muitas mães inserem esses artigos porque se sentem exaustas após o nascimento do bebê, quando se deparam com seus bebês reais, que querem mamar a toda hora e não ficam dormindo por muito tempo. Por isso, frequentar e participar de grupos de apoio ao aleitamento e rodas de bate papo com mães, mesmo que virtuais, é uma excelente forma de desabafar sobre as dificuldades iniciais e sobre a quebra das expectativas. Descobrir que um bebê que achamos que mama muito e não larga o peito, é “normal” e parecido com a maioria dos bebês, pode ser acalentador para muitas mães que se sentem exaustas nesses momentos.

Finalizo ressaltando que a intenção desse texto não é a de julgar as mães que precisam utilizar esses artigos por escolha própria ou necessidade, mas INFORMAR e ALERTAR gestantes e mães sobre as possíveis consequências do uso desses artigos.

*Bia Câmara é atriz, relações públicas, criadora do canal Minha Opinião Materna, uma das coordenadoras do Círculo Materno, diretora da Cia. BrinCanto, professora e diretora do curso de teatro musical da Vivace e mãe do Bento e do Antônio. 

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