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Muitos ditados populares são como retratos do pensamento do povo. Numa dessas manhãs preguiçosas de domingo, eu ouvi na televisão um trabalhador rural nordestino falando a frase que dá título a este texto. Já conhecia essa expressão, mas fazia um bom tempo que não a ouvia. É um exemplo típico de declarações cunhadas pelos sentimentos ocultos que povoam nossas mentes.

Quando deixamos escapar alguma coisa desse gênero, estamos, na realidade, desejando que alguém perca alguma coisa para que possamos achar. Nessas ocasiões, pensamos somente nas nossas necessidades e esquecemos das obrigações dos outros.

Deveríamos considerar que, se uma pessoa carregava uma quantia em dinheiro é porque teria uma destinação para ela. E que, se esse indivíduo perdeu essa quantia em dinheiro, provavelmente não conseguirá cumprir seus compromissos. Sem pensar nessas consequências, nos deleitamos com a felicidade de ter encontrado algo que nos traga prazer. Especialmente se for dinheiro, porque assim podemos adquirir coisas que gostamos. Geralmente não nos lembramos que quem perdeu pode estar passando dificuldades.

São pensamentos de mão única, que não respeitam o lado contrário. Na maioria do tempo, tudo o que pensamos tem essa característica. Costumamos ver as coisas somente de acordo com nossas necessidades. Embora seja assustador chegar a esta conclusão, nada mais humano do que pensar assim. Normalmente ninguém gosta de admitir que está pensando em prejudicar alguém. Mas isso ocorre frequência na mente de pessoas ditas normais, já que ninguém é santo.

Se bem observarmos, o relacionamento entre as pessoas, em resumo, também é isso: uma troca em que ambas as partes doam algumas coisas e recebem outras. Na maioria das vezes uma das partes leva prejuízo porque doa mais que recebe. E esse desequilíbrio nas doações tende a perpetuar-se. Aquele que doa mais vai sempre fazê-lo por ser mais generoso e menos exigente.

De certa forma, esse perde e ganha tem a ver com o tema deste texto. Muitas coisas que ganhamos nos relacionamentos são como dinheiro achado. Geralmente o outro lado está perdendo algo com isso.

Ainda que seja assim, de forma meio desequilibrada, receber alguma coisa de valor num relacionamento, um mínimo de dedicação, na verdade, é algo extremamente valioso. Mas o melhor mesmo é doar. Doar algo que não vai fazer falta no nosso farto estoque particular, como amor e carinho. Principalmente se fazemos isso altruisticamente, sem exigir nada em troca. Isso, definitivamente, não tem preço.

Sem dúvida, é melhor ainda do que o dinheiro achado do ditado popular lá do início.

*José Nário é escritor, engenheiro florestal, especialista em Informática na Educação e Gestão Ambiental e autor dos livros “Lelezinho, o pintinho que ciscava pra frente e andava pra trás”, “Lelezinho vai à escola” e “Minha janela para o nascente”.

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