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Mesmo antes de ser povoada, a região onde Poços de Caldas foi construída já sofria constantemente com enchentes no período chuvoso. Muito se engana quem imagina que a primeira grande enchente foi aquela que vimos com nossos próprios olhos em janeiro de 2016. Registros históricos não nos deixam mentir. Os primeiros relatos das enchentes são de antes mesmo da cidade enquanto freguesia ou vila, no século XIX. Fotografias preservadas no Museu são testemunhas históricas dos grandes estragos causados pelas chuvas na década de 1920; da retificação e canalização dos ribeirões; e da transformação da cidade na década de 1930, com ênfase para um capítulo muito importante desta história: a construção da barragem Saturnino de Brito, represa que por décadas cumpriu bravamente o dever de conter a força das águas em direção ao centro da cidade.

O problema não é de hoje porque Poços foi construída em região com elevados índices pluviométricos e apresenta um contexto geológico e geomorfológico muito diversificado, com relevos e declividades contrastantes. Isso, somado ao desenvolvimento desordenado e constante impermeabilização do solo, vem exigindo mais do que a estrutura da cidade é capaz de suportar.

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Os primeiros relatos de enchentes em Poços tratam de um período posterior a 1826, quando chegavam os primeiros povoadores. Em “Memórias históricas de Poços de Caldas”, Nilza Botelho Megale conta que, após a descoberta de poços de água quente e com propriedades medicinais que brotavam do chão, “o Conselho da Província enviou ao Campo das Caldas o Juiz de Fora da Vila da Campanha, dr. Agostinho de Souza Loureiro para inspecionar o local e tomar providências. Chegou em 1826 e mandou fazer levantamento topográfico da região. Ordenou a abertura de dois poços para melhorar a utilização das águas medicinais, daí a denominação de “os poços das caldas” e depois Poços de Caldas.

As fontes foram cercadas por uma parede de cinco palmos de altura, mais reforçada na banda do rio. Foi o primeiro balneário construído junto aos poços e constava de dois banheiros separados e cobertos por uma choupana de palha. Eram forrados por dentro, de taboado, com grandes buracos para a saída das águas e competente escoadouro de tubos de madeira para o ribeirão. No entanto, pouco depois esta construção foi demolida pelas repetidas enchentes do ribeirão e os banhos passaram a ser tomados como antes, em tanques abertos sobre as fontes ou em tinas ao lado das mesmas, cercadas por esteiras de vedação.”

O mapa a seguir é de 1826 e foi interpretado pela arquiteta e urbanista Adriane de Almeida Matthes na dissertação de mestrado “Arquitetura e Permanências”. A

imagem deixa evidente que já havia algum estudo urbanístico de ocupação para a área ao redor dos poços de água sulfurosa.

“É importante verificar que no mapa de 1826 já se encontram registradas algumas ocupações e intervenções bastante precárias feitas para que se pudesse usufruir das fontes termais e também para se conseguir transitar, por pontes nesta área rodeada por nascentes, córregos e ribeirões. A povoação nesta data era composta por:

* em torno das fontes termais alguns ranchos para doentes;

* uma casa na beira do ribeirão;

* rua projetada para casas de 60 palmos

* ao sul das fontes, lugar reservado para o hospital, distando 45 braças das nascentes;

* curral de pedra e casa da fazenda provavelmente já residência do Capitão Joaquim Bernardes da Costa Junqueira;

* uma casa no caminho que vai para Caldas;

* grupo de 5 cabanas na margem direita do ribeirão do Pinhal (fonte dos macacos);

* cemitério antigo;

* nascentes das águas termais mais quentes (a);

* nascentes das águas termais menos e mais temperadas (b)”.

Fonte: MATTHES, Adriane de Almeida. Arquitetura e Permanências. Dissertação de Mestrado. Campinas: POSURB, 2005.

Antes de prosseguirmos, é importante relacionar as protagonistas dessa história. A imagem abaixo foi elaborada pelo grupo ‘A cidade que engole rios’ e ilustra as bacias hidrográficas dos ribeirões e córregos de Poços, bem como o curso da água no município. A maior parte dessa água se encontra no centro da cidade e segue para a zona oeste pelo Ribeirão Poços de Caldas, na avenida João Pinheiro.

Mapa hidrográfico produzido pelo grupo A cidade que engole rios, impresso em sacos de pão e distribuídos gratuitamente em padarias de Poços

A partir da década de 1920 a fotografia passa a nos ajudar com esta história. Mais especificamente entre 1925 e 1926, quando ocorreram graves enchentes. As imagens revelam os transtornos que atingiram tanto o centro de Poços, quanto a zona oeste, na avenida João Pinheiro.

No início do século XX o município investiu na retificação e canalização de trechos dos ribeirões que atravessam a cidade. Imagens de 1910 mostram os trabalhos no Ribeirão da Serra, na av. Francisco Sales. A partir de 1928 é possível ver a cobertura do Córrego Vai-e-Volta no cruzamento com o Ribeirão de Caldas, frente a rua Assis Figueiredo. Em 1929 foi finalizada a cobertura do rio que passava pela antiga rua Bahia, depois denominada Riachuelo e atualmente Prefeito Chagas.

As enchentes já foram problema tão constante na cidade, que casas mais antigas eram projetadas de maneira que as águas não atingissem o interior. No livro “Na rua da minha casa”, Norberto Donaldo Danza descreve com detalhes a rua Prefeito Chagas, mais precisamente na década de 50. O autor relembra as edificações que havia na rua, sejam residências ou comerciais.

Segundo ele, a destruição do Casino Imperial na década de 50 era implacável, motivada pelas chuvas e pelo abandono, numa cidade que contava apenas 25 mil habitantes. Sobre a residência de José Raphael dos Santos Neto, esquina com a rua Rio Grande do Sul, Danza descreve: “Na casa havia um porão habitável, construído para prevenir das possíveis enchentes que assolavam a cidade, antes de haver a Represa Saturnino de Brito”.

De acordo com Nilza Botelho Megale, o então prefeito Carlos Pinheiro Chagas (1927-1929) deu início a um importante projeto de transformação da cidade, programado pelo Presidente Antônio Carlos Ribeiro de Andrada. Para isso, consultou técnicos urbanistas da Itália e da França e contratou os melhores especialistas nacionais em serviços urbanos, entregando as obras de água e esgoto aos engenheiros Saturnino de Brito e Saturnino de Brito Filho; a edificação das Termas, do Palace Hotel e do Palace Casino ao arquiteto Eduardo Pederneiras e os parques e jardins foram executados pelo paisagista Dieberger. A receptação das fontes sulfurosas foi feita pelo engenheiro alemão Eugen Maurer.

“No tempo do prefeito Francisco de Paula Assis Figueiredo (1931-1939), foi quebrado monopólio do jogo em Poços de Caldas, surgindo boates e cassinos com grandes vantagens

para os cofres públicos, pois as casas de jogos proporcionavam vultuosas rendas ao município. Engenheiro empreendedor, calçou toda a cidade com asfalto e paralelepípedos, construiu a Represa “Saturnino de Brito”, afastando definitivamente o flagelo das enchentes; iniciou as obras do aeroporto, inaugurado em 1938, facilitando o transporte aos turistas das regiões mais distantes. (…) Deu início a uma propaganda turística tão eficiente, que incrementou a vinda da alta cúpula social e política do Brasil e do estrangeiro para Poços de Caldas. (Mourão, 1960)”.

E foi Saturnino de Brito quem conseguiu pôr fim às enchentes que castigavam a cidade, por ocasião das chuvas. No texto “Espaços de Humanização: simbolismo e apropriação no Parque José Affonso Junqueira”, as autoras Esther Aparecida Cervini, Jane Victal Ferreira e Renata Baesso Pereira ressalvam a atuação do engenheiro sanitarista em Poços:

”SANITARISMO MODIFICANDO A PAISAGEM: SATURNINO DE BRITO

Em 1927, Saturnino de Brito e seu filho Saturnino de Brito Filho, estudaram a cidade de Poços de Caldas, resultando num projeto e obras de saneamento, abastecimento de água e sistema de drenagem das águas pluviais.

Ele criticava a adoção da malha reticulada para as vias públicas urbanas, recomendando esta tipologia às áreas planas e não a encostas. Propunha uma adequação à topografia, de modo a facilitar as obras de saneamento (BRITO, 1944).

Os ribeirões que cortam a cidade foram considerados eixos estruturadores da futura expansão urbana e onde está o núcleo urbano, numa pequena planície onde ocorria a confluência dos ribeirões a leste estava a Avenida Francisco Sales, margeando o Ribeirão da Serra, a sudoeste o Ribeirão das Caldas e a oeste seguindo o troco das águas a Avenida João Pinheiro.

O desenho urbano da nova paisagem deveria acompanhar os Ribeirões e a topografia, cabendo ao “urbanista” a adoção dos traçados a serem adotados.

Nesse sentido, o conceito de aformoseamento não se limitava a obras de embelezamento, mas também a uma estética que estabelecia diretrizes técnicas para a expansão urbana. Para a construção dessa cidade bela e salubre, criando uma imagem urbana moderna, Saturnino de Brito teve vários problemas a enfrentar, desde a existência de quintais junto às águas nos quais se lavavam as roupas tantos dos sãos quanto dos doentes, até a execução de obras contra enchentes e melhoramentos nos balneários.

Saturnino de Brito indicava para a preservação dos mananciais da cidade, a desapropriação das bacias hidrográficas. Localizou os principais mananciais e sua captação, analisou os sistemas de esgoto e propôs a correção das irregularidades. Na análise das enchentes, foi considerada a grande inundação de 1926, que deixou a área central sob um metro de água. Com a conclusão dos estudos e dos projetos, uma série de obras de saneamento de grandes proporções foi realizada, e compreendiam também a construção das redes de água e esgotos, regularização dos cursos d´água e a canalização dos ribeirões, saneamento e redesenho da cidade contribuindo para a construção de uma nova paisagem urbana (Pozzer, 2001)”.

Segundo as autoras, em 1933 o escritório do Engº Saturnino de Brito dá a solução final da construção de uma represa de contenção para controlar as cheias na área central. Dezenas de imagens do Museu registraram desde o planejamento até a execução das obras e a inauguração da represa já com água até as margens.

Ao longo do texto vimos, portanto, décadas de empenho para conter a força das águas. Contudo, este esforço foi desempenhando no passado, quando não havia tantos recursos e tecnologia a disposição. Ocorre que nas últimas décadas os esforços se direcionam muito mais às construções e expansão do município do que a conservação do que permanece. Enquanto isso, continuamos com as mazelas da cidade que engole rios ou dos rios que, eventualmente, engolem a cidade.

*Bárbara Salomão é jornalista formada pela Universidade Católica de Santos. Atua com assessoria de comunicação e fotografia. É pós-graduada em Jornalismo Digital e em Imagem: processos, gestão e cultura contemporânea. Atualmente integra o conselho curador do Museu Histórico e Geográfico de Poços de Caldas.

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