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Falar sobre a Marielle não pode, simplesmente, ser só uma análise de conjuntura sobre o país, me avisou minha querida amiga Isabella, que assina esta coluna junto comigo, quando lhe propus esta escrita conjunta. Uma das mais brilhantes estrelas do movimento negro aqui na região me ensinando a falar sobre outra, a que tentaram, sem sucesso, apagar com uma rajada de tiros na cara. Um jeito que se mata alguém que não se suporta, alguém que simboliza tudo o que a sociedade não tolera.

Há quatro anos, no dia 16 de março de 2014, foi assassinada Claudia Silva Ferreira, uma mulher, negra, auxiliar de limpeza, 38 anos de uma vida lutando para existir. Claudia foi baleada e seguidamente arrastada por 350 metros por uma viatura da PM/RJ no Morro do Congonha, na Zona Norte carioca. Era mãe de quatro filhos e cuidava de mais quatro sobrinhos. Todos esses anos se passaram e nenhum dos seis policiais responsáveis pelo crime foi julgado ou preso.

Quatro anos depois, no dia 14 de março de 2018, Marielle Franco, no cumprimento da sua agenda política diária, certamente, fazia com que a memória de Cláudia fosse presente em cada passo, cada luta, cada espaço e cada ato. Nesse dia, por volta das 19h, Marielle dizia: “a gente não pode esperar mais 10 anos ou achar que eu estarei ali por mais 10 anos (na Câmara) […] Os nossos passos vêm de longe mesmo”. Ela fazia um chamado, um chamado de quem sabia que ancestralidade e amor entre mulheres pretas são revolucionários. Era uma roda de conversa com mulheres, em comemoração ao mês de março, e Marielle compartilhava as vitórias dos projetos coletivos que apresentava na Alerj. Ela sabia que tudo aquilo só era possível porque tinha raiz firme a sustentando e por isso tinha uma Marielle lá, dizendo que seria raiz para outras pretas chegarem ao lugar que ela preparava com muita ousadia, garra e muito pouco medo.

Marielle, aliás, parecia ter medo de poucas coisas nesta vida. Ela sabia que, na condição de mulher, preta e bissexual, num país racista e machista, ter medo era também um privilégio, mesmo sob ameaça constante por ser quem era.

Pouco mais de três horas depois, calaram Marielle. No dia 14 de março de 2018. Quatro anos depois de Claudia. Um assassinato, uma execução, um corpo político tombado, um corpo preto tombado, uma brutalidade inaceitável que nos deixou um gosto amargo na boca.

O que Claudia e Marielle tinham em comum? Eram mulheres, negras, resistiam existindo, mantendo essa raiz forte que só gente preta sabe de onde vem. As duas eram alvos fáceis e, mais que fáceis, as duas eram alvos necessários do Estado. Que ousadia é uma mulher preta resistir! Como assim uma mulher preta ousa falar de outras mulheres pretas no lugar político que foi sempre negado a alguém como Marielle?

A resposta foram nove tiros que nos arrancaram uma aliada na luta pela justiça no caso Claudia, tirou a vida da mãe da Luyara, da companheira de Monica e nos tirou aquela mulher que a gente ouvia peitar o sistema e que aí então as teorias sobre representatividade faziam sentido.

Que se considere a importância da sua escolha política e ideológica por um partido de esquerda e o seu legado na disputa e construção deste partido. Marielle tomava partido! Mas, é importante fazer ecoar que Marielle morreu porque carregava uma luta que é sensorial para a negritude deste país, a luta contra o extermínio do povo preto, pelo direito das mulheres e pelos direitos humanos. Ela sentiu o luto pela morte de Claudia, a revolta por Rafael Braga, a angústia por Amarildo. Marielle morreu porque a dor não fazia a boca dela se calar. A dor move a raiva e a coragem e é por isso que Marielle se mobilizava.

E a lacuna que nos deixa a execução de Marielle, realmente, não pode estar atrelada somente à leitura de um momento específico do país ou do Estado do Rio de Janeiro. Uma vereadora brutalmente assassinada não significa apenas um crime político, nem tampouco é resultado somente da violência de um estado sob a famigerada intervenção militar, porque Marielle não era somente mais uma detentora de um cargo público, ela era a expressão de tudo o que nossa sociedade expele.

Isso também explica tanta indignação nas Redes, o questionamento dos motivos pelos quais essa morte nos abala tanto e porque falamos muito mais nela do que em outras: assassinar Marielle simboliza a tentativa de destronar uma mulher preta, ainda que tenha sido eleita democraticamente, e porque além de mulher e preta, não nos cansaremos de repetir, ela representava exatamente, ocupando o Legislativo, aquilo que era: uma lutadora contra a violência a que seu povo é submetido dia após dia.

Falar em Marielle incomoda e não é só porque, como ela, morrem muitos todos os dias, mas sim porque a execução dela escancara a violência policial, a vergonha das milícias no Rio de Janeiro e joga em nossas caras o jogo político sujo por trás da intervenção. Gritar que ela foi assassinada em resposta à sua luta, às denúncias que fez sobre moradores que sofrem abusos nas intervenções nos obriga a olhar para a realidade política suja do Brasil e saber que o que nos resta de alternativa é uma reação à altura de Marielle.

Assassinaram Marielle, mas nada vai fazer a nossa boca se calar. Nem o medo. Marielle é raiz, e raiz, do substantivo feminino, é o que segura a gente de pé no chão.

Que sua história, trajetória e acúmulos políticos, que são públicos, sejam respeitados na sua legitimidade e luta. Marielle, presente!

Assina esta coluna, bem mais do que eu, a cientista social Isabella Silveira, formada pela Unifal e Mestranda em Educação pela mesma Universidade. É militante feminista interseccional e tem atuação no Movimento Negro no Sul de Minas Gerais.

* Andréa Benetti é pedagoga, formada na Puc Minas pelo ProUni, e conselheira tutelar em Pocos de Caldas, regiões sul/oeste.

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