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Uma dúvida que sempre se apresenta nesta época: o Carnaval acabou e o ano, finalmente, vai começar no Brasil? Pelo menos é o que prevê o nosso calendário, totalmente diferenciado do resto do mundo. Ninguém quer saber de nada antes da festança. E não é só o povo, não. O Poder Judiciário fica meio travado, em razão dos prazos exíguos, antes do Carnaval. O Legislativo, nem se fala! Os deputados e senadores continuam sumidos após o recesso de fim de ano.

O Executivo, da mesma forma, trava nas quatro rodas em dezembro e, lentamente, começa a destravar na quaresma. Nem bem chega a pegar embalo e já vem a semana santa para atrapalhar. Neste ano de 2018 a coisa será pior. Teremos nove feriados nacionais em dias úteis, provocando os “feriadões”, tão ao gosto do povo brasileiro.

Além, é claro, dos feriados municipais como os aniversários de fundação dos municípios, dias dedicados aos padroeiros locais e outros mais. Dentre eles, o Dia Nacional da Consciência Negra, que é comemorado em muitas cidades.

Essa profusão de feriados e “dias santos”, como se fosse possível santificar os dias, é um grande entrave no andamento das coisas por aqui. Um verdadeiro contrassenso enraizado nos nossos costumes. Contudo, como fica explícito desde o início do texto, o assunto é a carnavalização generalizada que domina o país durante todo o período anual.

Desde a minha juventude, nos tempos em que comecei a ter consciência das coisas, que uso o termo “carnavalização” para designar algumas situações. Especialmente para distinguir atos carregados de irresponsabilidade e inconsequência, comuns por aqui, assinalando que a vida no Brasil é um eterno Carnaval.

Mas eis que um dia, lá ainda na juventude, eu descubro que a carnavalização não é privilégio do povo brasileiro. Aliás, não é uma prerrogativa dos tempos atuais, como eu pensava na época. O filósofo russo Mikhail Bakhtin (1895-1975), pesquisador minucioso da linguagem humana, cunhou o termo ao estudar a obra literária do padre francês François Rabelais (1494-1553), a partir da década de vinte do século passado.

Portanto, como se percebe, a coisa é antiga, vem do período medieval. De forma bastante simplificada, observamos que Bakhtin percebeu que lá na Idade Média as pessoas já desenvolviam uma existência dupla e contraditória. Uma delas vivida no espaço doméstico, totalmente sujeita a normas rígidas de comportamento; e a outra, vivida no espaço público da rua, livre e plena de sacrilégios e profanações, sem regras e normas.

Segundo o estudioso russo, “O Carnaval é um espetáculo não para ser observado, mas para ser vivido, onde se tem as suspensões das regras, proibições que regem a vida normal”. Ele conclui ainda que “A conduta, o gesto e a palavra do homem se libertam das dominações hierárquicas (camadas sociais, graus, idades, fortunas) que as determinam internamente fora do carnaval e se tornam excêntricas, deslocadas do ponto de vista lógico da vida habitual”.

Se bem considerarmos, este é um retrato fiel da vida no Brasil. A diferença é que esse espírito anárquico não se desfaz após o período carnavalesco, prevalecendo por todo o ano. Nada é levado a sério. As pessoas se acostumaram a enxergar a vida como uma eterna brincadeira. E nem mesmo a corrupção largamente disseminada é capaz de mudar alguma coisa.

No ano corrente temos uma nova brincadeira para entreter as pessoas: as eleições. E muitos novos incompetentes, a maioria com o nome mais sujo do que poleiro de pato, serão eleitos-reeleitos e chamados de representantes do povo. Nada mais justo. Um povo que vive a vida carnavalizando, merece mandatários que exerçam seus cargos da mesma forma: assim, assim, sem um mínimo de regras e normas da vida civilizada.

*José Nário é escritor, engenheiro florestal, especialista em Informática na Educação, Gestão Ambiental e Educação Inclusiva e autor dos livros “Lelezinho, o pintinho que ciscava pra frente e andava pra trás”, “Lelezinho vai à escola” e “Minha janela para o nascente”.