segunda-feira , 11 dezembro 2017
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Missão impossível

*José Nário


Retornando ao vasto assunto da leitura, abordado recentemente em texto anterior, existem várias sugestões para que se consiga um aumento no número de leitores no Brasil. E estas sugestões são bem conhecidas. De acordo com pesquisa promovida pelo Instituto Pró-livro no ano de 2012, dez ações poderiam ajudar a aumentar o número de livros lidos por ano, atualmente em 1,7 unidade per capita. São elas:

1 – reduzir impostos e preços;

2 – exigência social, ou seja, que parte dos recursos repassados através de programas sociais sejam destinados à compra de livros;

3 – otimização das bibliotecas públicas;

4 – arregimentação, ou seja, que leitores se esforcem para formar novos leitores;

5 – vale-livro, valor distribuído junto ou separadamente aos valores dos programas de distribuição de renda, específico para a compra de livros;

6 – escola pode mais, aumento do incentivo para leitura nas escolas com envolvimento da comunidade;

7 – Harry Potter nos currículos escolares, a grande penetração dessa obra junto aos jovens é a justificativa;

8 – mais livrarias;

9 – envolver escritores nas ações;

10 – envolver mídias de massa.

Enquanto elas não são implementadas de forma persistente e generalizada, permanece o problema principal: lê-se muito pouco em nosso país.  Sabemos que, em consequência disso, publica-se também muito pouco e em tiragens mínimas.

Isso me fez lembrar de alguns dados que eu li em um periódico, há alguns anos, sobre a produção literária regional nos Estados Unidos. Os dados citavam como exemplo o estado da Califórnia, na costa pacífica do país norte-americano. Somente nessa unidade da federação havia, na época, pelo menos três autores locais que vendiam, no mínimo, um milhão de unidades de cada um de seus títulos lançados. E cada um dos Estados americanos têm lá os seus grandes vendedores de livros. Além, é claro, daqueles que vendem nacional e internacionalmente.

Eu não saberia dizer quantos dos nossos autores de renome nacional possam ter vendido uma quantidade semelhante de suas obras, em toda sua vida produtiva. Talvez nem somando as tiragens de várias obras dos nossos maiores vendedores de livros se possa conseguir chegar a números tão expressivos. E isso evidencia o nosso pouco apego à leitura e às lides literárias em geral.

Não é novidade alguma que a preguiça de ler, bastante generalizada entre os brasileiros, mantém as pessoas longe dos livros. Principalmente dos romances, que são mais longos. Talvez seja em decorrência disso que a literatura brasileira foi dominada muito tempo pelos contistas, que são muitos e, registre-se, de inegável qualidade. As histórias curtas são as preferidas de grande parte do pequeno público leitor. Livros de contos e crônicas costumam vender bem. O perfil do leitor brasileiro é bem parecido com o leitor da internet, onde os usuários também são adeptos dos textos concisos.

Frequentemente os poucos interessados em leituras mais sérias e extensas esbarram em outros obstáculos intransponíveis. Um deles é a falta de bibliotecas que, quando existem, ainda sofrem do mal da falta de atualização. Não oferecem obras mais recentes e contemporâneas. Muitas delas mantém somente velhas coleções de obras clássicas nacionais e internacionais. Além de prateleiras e mais prateleiras cheias de velhas enciclopédias tão desatualizadas que só servem para informar às novas gerações como eram os livros de antigamente. Os clássicos têm o seu valor insubstituível, ilustrando o passado e perpetuando as ideias e as imagens da época, uma das funções mais nobres da literatura. Mas não garantem a frequência da juventude às bibliotecas.

Outros entraves para o desenvolvimento do hábito da leitura no Brasil são o reduzido número de livrarias e o elevado custo dos livros no país. Isto torna proibitiva a aquisição e a manutenção de exemplares em bibliotecas pessoais. Esse problema do custo elevado está diretamente ligado às pequenas tiragens de cada obra. Sabe-se que quanto maior a tiragem, menor o custo de cada exemplar.

Esses problemas acabam refletindo também na produção literária regional. Para os novos autores, que não disponham de recursos próprios, as dificuldades são ainda maiores. Publicar um livro é um sonho que pode frustrar a maioria dos escritores estreantes. Com isso muitos talentos são sufocados no nascedouro. Muitos possíveis grandes autores nem conseguem chegar a ser escritores. Na maior parte dos casos o livro, o veículo ideal para a expressão de sua arte, a arte da escrita, nunca será concretizado. Com isso a divulgação e a produção de cultura regional sucumbe ao encontrar o primeiro obstáculo.

Parte dos costumes e tradições de cada região acaba por se perder ao longo do tempo por dependerem somente das narrativas orais. Com o livro é diferente. Ele não conta só uma história. Ao descrever a ambientação da narrativa, o livro está perpetuando um momento único no tempo, um momento que não se repetirá nunca, como uma fotografia. É o registro de uma época. É a representação de um estrato da realidade vigente. Cada personagem traz uma imensa carga de vivência – informações, pensamentos, dúvidas, certezas, virtudes, defeitos –  que irá enriquecer a todos os que partilharem dela.

Quando novas tecnologias aparecem, os imediatistas de plantão correm a decretar o sepultamento das outras em uso. Alguns pessimistas dizem que os livros, no seu formato atual, estão com os dias contados. Eu não ousaria afirmar que isso é verdade ou mentira. No momento atual seria uma temeridade emitir um palpite favorável ou contrário. Nesses tempos de globalização e de troca de informações cada vez mais rápidas, acontecem também mudanças na forma de armazenagem dos conhecimentos e, principalmente, na sua divulgação.

A única certeza que eu tenho é que publicar um livro aqui no interior, sem ter um nome conhecido ou recursos próprios, é uma missão impossível. E quem perde com isso são as futuras gerações, que serão privadas do conhecimento de muitas das nossas tradições e dos nossos costumes.

* José Nário é escritor, engenheiro florestal, especialista em Informática na Educação, Gestão Ambiental e Educação Inclusiva e autor dos livros “Lelezinho, o pintinho que ciscava pra frente e andava pra trás”, “Lelezinho vai à escola” e “Minha janela para o nascente”.

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