Músico participou da sessão nesta terça-feira (5).

A última sessão ordinária da Câmara Municipal de Poços de Caldas foi marcada por polêmica quando o assunto ‘ideologia de gênero’ voltou a ser abordado em plenário. Desta vez, o músico Jean Nastrini fez uso da tribuna popular para tratar do tema.

Em entrevista ao Poços Já Política pouco antes de sua apresentação, Nastrini comentou o que o levou a solicitar espaço na Câmara. “O que me motiva é ver o país no estado de anarquia em que se encontra, com essa inversão de valores e o futuro das crianças que se encontram completamente perdidas. Já tem um tempo que eu venho estudando sobre política e participando de debates”, declarou.

O discurso 

Durante a fala na tribuna, o músico fez questão de ressaltar que não era contrário a orientação sexual de ninguém. “Nada contra o homossexualismo. Tenho amigos homossexuais, vizinhos. Mas a laicidade cristã da família está em jogo (…) Já não bastasse a corrupção, vivemos a época onde a ética e a moral escoaram pelo ralo”, comentou.

O discurso foi pontuado ainda pela leitura de documentos e trechos de livros que Nastrini considera relevantes para a discussão. Ele ainda aproveitou para declarar: “Vivemos uma época de ditadura das minorias onde não bastasse ter a sua vida, mas ter que impor. Eu não sou obrigado a ver um casal homossexual se beijar e muito menos heterossexual. Se eu parar com uma namorada para beijar na rua, um policial imediatamente vai nos parar e dizer ‘circulando’. Agora o que acontece com essa vitimização? Você começa desde a escola a preparar as crianças para achar que tudo é normal. Uma vez em formação de caráter, como as crianças vão saber dizer o que é certo e o que é errado?”, questionou.

Os vereadores

Ao final do discurso, o presidente da Casa, Antonio Carlos Pereira (DEM), abriu espaço para que os parlamentares fizessem perguntas ou considerações sobre a fala de Nastrini.

Primeiro a pedir a palavra, Paulo Tadeu (PT) comentou sobre discrepâncias no discurso. “Particularmente aqui em Poços, o Plano Municipal de Educação sequer trata dessa questão do ponto de vista que você levantou, nem o Plano Nacional de Educação. O que os planos querem é que essas pessoas que tenham qualquer tipo de orientação não sofram no ambiente escolar. Que as outras pessoas entendam que a diferença é para ser respeitada. O senhor sabia que os transexuais vivem, em média, 33 anos? Sabe por quê isso? Porque eles são excluídos desde cedo. Porque não têm oportunidade de emprego, não têm espaço e ambiente dentro da escola e o que sobra para eles, em sua maioria, são as sombras da sociedade. (…) [Ideologia de gênero e identidade de gênero] são temas que não estão sendo tratados por nenhuma legislatura nessa casa. Pode ficar tranquilo quanto a isso. Mas todas as vezes que forem tratados, respeitando muito a sua posição, eu estarei na outra trincheira, graças a Deus”, declarou.

Quem também comentou a fala foi Maria Cecília Opípari (PT), que aproveitou para fazer uma correção ao termo ‘homossexualismo’, usado por Nastrini. “Quando o senhor se refere a ‘homossexualismo’ tem que tomar cuidado, temos que falar de homossexualidade. Homossexualismo a gente trata como se fosse doença e de doença e intolerância eu já estou cansada. Nós não estamos aqui defendendo e fazendo bandeira para A ou B, só quero que as pessoas tenham mais respeito umas com as outras. A intolerância mata pessoas. A intolerância matou, esse final de semana, uma mulher. A intolerância deixou uma pessoa ferida na praça. Não quero isso na minha cidade”, ressaltou.

Último a se manifestar, o vereador Carlos Roberto (PSC) declarou-se contrário a ideologia de gênero. “Defendo, de modo absoluto, aquilo que defende a igreja católica e o  cristianismo como um todo. Sou, sem dúvida, veementemente contra a ideologia de gênero como está sendo colocada. Mas, em nenhum momento, pregamos ou incentivamos qualquer tipo de intolerância ou violência, visto que a intolerância existe, não só em relação a um determinado público,uma determinada população, mas em relação a tantos grupos e pessoas que sofrem com a intolerância”, pontuou.

O debate ficou ainda mais tenso quando Jean, ao rebater a fala dos parlamentares da esquerda, citou o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC), o que fez com que a vereadora Maria Cecília abandonasse o plenário. “A intolerância é ela levantar e ir embora. Depois, quando falam da Maria do Rosário [referindo-se à deputada  ofendida por Bolsonaro], as pessoas falam que são impassivas”, anunciou Nastrini.

“Cuidado ao me comparar com ela”, foi a fala da vereadora pouco antes de sair.

Relembre o caso

O assunto passou a ser pauta na Câmara em abril, depois que o vereador Ricardo Sabino (PSDB) fez uso da tribuna popular para manifestar-se sobre a decisão do Ministério da Educação (MEC) em retirar as expressões ‘identidade de gênero’ e ‘orientação sexual’ da nova versão da Base Nacional Curricular. Imediatamente, o vídeo com o discurso de Sabino passou a ser comentado nas redes sociais.

Uma semana após o ocorrido, militantes da causa LGBT compareceram à reunião para protestar contra as falas do parlamentar e foi feito um pedido para que a Mestranda em Educação e pesquisadora de Gênero e Juventude, Andréa Benetti, comparecesse ao plenário e rebatesse o discurso do vereador, o que aconteceu em maio.