quinta-feira , 21 setembro 2017
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“Vivemos uma época de ditadura das minorias”, afirma músico na Câmara

Jean Nastrini fez uso da tribuna popular para falar sobre ideologia de gênero. Durante debate, entrou em atrito com vereadores.


Músico participou da sessão nesta terça-feira (5).

A última sessão ordinária da Câmara Municipal de Poços de Caldas foi marcada por polêmica quando o assunto ‘ideologia de gênero’ voltou a ser abordado em plenário. Desta vez, o músico Jean Nastrini fez uso da tribuna popular para tratar do tema.

Em entrevista ao Poços Já Política pouco antes de sua apresentação, Nastrini comentou o que o levou a solicitar espaço na Câmara. “O que me motiva é ver o país no estado de anarquia em que se encontra, com essa inversão de valores e o futuro das crianças que se encontram completamente perdidas. Já tem um tempo que eu venho estudando sobre política e participando de debates”, declarou.

O discurso 

Durante a fala na tribuna, o músico fez questão de ressaltar que não era contrário a orientação sexual de ninguém. “Nada contra o homossexualismo. Tenho amigos homossexuais, vizinhos. Mas a laicidade cristã da família está em jogo (…) Já não bastasse a corrupção, vivemos a época onde a ética e a moral escoaram pelo ralo”, comentou.

O discurso foi pontuado ainda pela leitura de documentos e trechos de livros que Nastrini considera relevantes para a discussão. Ele ainda aproveitou para declarar: “Vivemos uma época de ditadura das minorias onde não bastasse ter a sua vida, mas ter que impor. Eu não sou obrigado a ver um casal homossexual se beijar e muito menos heterossexual. Se eu parar com uma namorada para beijar na rua, um policial imediatamente vai nos parar e dizer ‘circulando’. Agora o que acontece com essa vitimização? Você começa desde a escola a preparar as crianças para achar que tudo é normal. Uma vez em formação de caráter, como as crianças vão saber dizer o que é certo e o que é errado?”, questionou.

Os vereadores

Ao final do discurso, o presidente da Casa, Antonio Carlos Pereira (DEM), abriu espaço para que os parlamentares fizessem perguntas ou considerações sobre a fala de Nastrini.

Primeiro a pedir a palavra, Paulo Tadeu (PT) comentou sobre discrepâncias no discurso. “Particularmente aqui em Poços, o Plano Municipal de Educação sequer trata dessa questão do ponto de vista que você levantou, nem o Plano Nacional de Educação. O que os planos querem é que essas pessoas que tenham qualquer tipo de orientação não sofram no ambiente escolar. Que as outras pessoas entendam que a diferença é para ser respeitada. O senhor sabia que os transexuais vivem, em média, 33 anos? Sabe por quê isso? Porque eles são excluídos desde cedo. Porque não têm oportunidade de emprego, não têm espaço e ambiente dentro da escola e o que sobra para eles, em sua maioria, são as sombras da sociedade. (…) [Ideologia de gênero e identidade de gênero] são temas que não estão sendo tratados por nenhuma legislatura nessa casa. Pode ficar tranquilo quanto a isso. Mas todas as vezes que forem tratados, respeitando muito a sua posição, eu estarei na outra trincheira, graças a Deus”, declarou.

Quem também comentou a fala foi Maria Cecília Opípari (PT), que aproveitou para fazer uma correção ao termo ‘homossexualismo’, usado por Nastrini. “Quando o senhor se refere a ‘homossexualismo’ tem que tomar cuidado, temos que falar de homossexualidade. Homossexualismo a gente trata como se fosse doença e de doença e intolerância eu já estou cansada. Nós não estamos aqui defendendo e fazendo bandeira para A ou B, só quero que as pessoas tenham mais respeito umas com as outras. A intolerância mata pessoas. A intolerância matou, esse final de semana, uma mulher. A intolerância deixou uma pessoa ferida na praça. Não quero isso na minha cidade”, ressaltou.

Último a se manifestar, o vereador Carlos Roberto (PSC) declarou-se contrário a ideologia de gênero. “Defendo, de modo absoluto, aquilo que defende a igreja católica e o  cristianismo como um todo. Sou, sem dúvida, veementemente contra a ideologia de gênero como está sendo colocada. Mas, em nenhum momento, pregamos ou incentivamos qualquer tipo de intolerância ou violência, visto que a intolerância existe, não só em relação a um determinado público,uma determinada população, mas em relação a tantos grupos e pessoas que sofrem com a intolerância”, pontuou.

O debate ficou ainda mais tenso quando Jean, ao rebater a fala dos parlamentares da esquerda, citou o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC), o que fez com que a vereadora Maria Cecília abandonasse o plenário. “A intolerância é ela levantar e ir embora. Depois, quando falam da Maria do Rosário [referindo-se à deputada  ofendida por Bolsonaro], as pessoas falam que são impassivas”, anunciou Nastrini.

“Cuidado ao me comparar com ela”, foi a fala da vereadora pouco antes de sair.

Relembre o caso

O assunto passou a ser pauta na Câmara em abril, depois que o vereador Ricardo Sabino (PSDB) fez uso da tribuna popular para manifestar-se sobre a decisão do Ministério da Educação (MEC) em retirar as expressões ‘identidade de gênero’ e ‘orientação sexual’ da nova versão da Base Nacional Curricular. Imediatamente, o vídeo com o discurso de Sabino passou a ser comentado nas redes sociais.

Uma semana após o ocorrido, militantes da causa LGBT compareceram à reunião para protestar contra as falas do parlamentar e foi feito um pedido para que a Mestranda em Educação e pesquisadora de Gênero e Juventude, Andréa Benetti, comparecesse ao plenário e rebatesse o discurso do vereador, o que aconteceu em maio.

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