quinta-feira , 23 novembro 2017
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Máquinas que voam

* José Nário


Sonhos são sonhos. Neles pode tudo. Um dos mais recorrentes que tenho é que estou voando. Sozinho ou de avião. Com asas ou sem elas. De barriga pra baixo, olhando pra terra. De barriga pra cima, olhando pro céu. Voando pra frente ou para trás. De frente ou de costas, de todo jeito. Voar é um sonho meu. Sonho enquanto durmo ou totalmente acordado, quando vejo um pássaro planar no ar ou quando o avião passa sujando o céu com sua fumaça de querosene queimado.

Não sei exatamente porquê, mas sempre imaginei que a tecnologia um dia iria propiciar o voo solo do homem, com a ajuda da máquina, é claro. Algo como os super-heróis fazem. Super-heróis como o Homem de Ferro, que usam um uniforme voador. Alguma coisa nesse sentido já pode ser vista por aí. Foguetes grudados nas costas dos usuários, soltando um spray para baixo e elevando o corpo no ar.

São pouco eficientes, com baixíssima autonomia e dirigibilidade complicada. Carecem de muita evolução para realmente darem a liberdade que os pássaros têm no voo. Temos também os aviões ultraleves, que são praticamente pessoais. E as técnicas de voo propiciadas pelos parapentes e as asas delta, inspiradas nos pássaros que utilizam as convecções térmicas para ganhar altura.

Nenhuma delas, porém, é capaz de reproduzir minimamente o voo dos pássaros, detentores da habilidade de bater as asas para subir às altitudes mais elevadas e realizar incríveis manobras no ar. Alguns deles com habilidades espetaculares como as águias que mergulham a velocidades estonteantes e conseguem frear a centímetros do solo, sem se espatifar nele.

Ou o abutre africano que tem o nome científico de Gyps rueppellii, que já foi encontrado a 11. 278 metros e é capaz de suportar tranquilamente o ar rarefeito dessas altitudes. Um deles inclusive e infelizmente, colidiu com um jato comercial que passava sobre Abidjan, na Costa do Marfim, no dia 29 de novembro de 1973, a mais de 10 mil metros de altitude.

Embora tenha uma imaginação reconhecidamente fértil, não consigo imaginar o rumo que tomarão os avanços tecnológicos na direção do voo individual, sonhado por grande parte da humanidade. A minha esperança é que se torne possível o voo solo de uma forma bastante próxima das performances dos super-heróis e da imensa autonomia dos pássaros.

A teoria da evolução das espécies, que atingiu resultados definitivos com o pesquisador Charles Darwin, afirma que os humanos descendem dos peixes. Como é que se explica então essa vontade de voar? É bom lembrar que existem peixes voadores. São espécies que decolam da superfície do mar e percorrem distâncias consideráveis no ar, utilizando o impulso que tomam na água.

Isto quer dizer que a vontade de voar está impressa em nosso DNA, desde as mais incipientes formas de vida que resultaram nisso que é hoje, e lamentavelmente, a espécie humana. Apesar de que nenhum dos nossos ancestrais tenha possuído asas, somente nadadeiras. Em virtude disso, creio que é plenamente justificada minha vontade de voar.

Não deveria então ter escolhido a profissão de piloto aéreo, lá pelos idos da adolescência? Sim! E foi o que fiz. Mas várias contingências me fizeram desistir desse intento. Talvez me arrependa hoje de não ter lutado mais para concretizar esse meu sonho. Se tivesse feito isso, não estaria aqui a choramingar a falta de asas ou a falta de foguetes propulsores, eficientes e baratos, capazes de tirar-me do solo e elevar-me pelos ares.

Pode parecer bobagem isso tudo, mas não esqueçamos que muitos seres considerados divinos, como querubins, serafins e anjos têm asas. Ou melhor, tais seres são representados com asas. Porém, creio eu, nesse universo todo de seres alados, que incluem pássaros e aviões, os únicos que não precisariam delas seriam exatamente os divinos. Além, é claro, dos helicópteros.

Afinal, até onde vai a divindade desses seres? Se são divinos, não precisam de asas. Asas são objetos que promovem atividades mecânicas, próprias dos pássaros e de algumas invenções humanas. Realmente! Uma breve pesquisa revelou-me que os anjos da tradição judaico-cristã só passaram a ser representados com asas a partir do século V. Antes disso os serafins, os querubins e muitos outros seres eram retratados com asas. Mas os anjos, não.

Que fique claro que não quero falar de divindades aladas. Não é minha praia. Estou aqui simplesmente a lamentar a ausência de asas no ser humano, fato que, tenho certeza, um dia será compensado pelo uso de uma parafernália eletromecânica grudada no corpo, coisa que será capaz de nos fazer voar.

Enquanto isso não acontece, vou ficando por aqui, com os pés bem plantados no solo, sonhando com a possibilidade de voar como os pássaros. Se não posso fazê-lo concretamente, faço-o em sonhos e em pensamento. Embora fique confinada aos limites do meu cérebro, esta também é uma maneira de voar. Tem a vantagem de ser muito segura e eu nem preciso sair do lugar. Afinal, cada coisa, ainda que não seja a mais desejada, tem a sua vantagem.

Em tempo: acabei de saber de uma pesquisa que diz que sonhar, coisa que faço muito bem, também ajuda a reduzir o risco de Alzheimer. Legal, né? Pelo menos faço algo de útil!

*José Nário é escritor, engenheiro florestal, especialista em Informática na Educação, Gestão Ambiental e Educação Inclusiva e autor dos livros “Lelezinho, o pintinho que ciscava pra frente e andava pra trás”, “Lelezinho vai à escola” e “Minha janela para o nascente”.

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