quarta-feira , 22 novembro 2017
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Rio de Janeiro, a maravilhosa cidade que não deu certo

* José Nário


Eu me ponho a imaginar a beleza da paisagem vislumbrada pelos portugueses quando chegaram à Baía da Guanabara em janeiro de 1502. Creio que era realmente uma visão paradisíaca. O Padre Fernão Cardim disse dela, já no final do século XVI: “…dentro da barra tem uma baía que bem parece que a pintou o supremo pintor arquiteto do mundo, Deus Nosso Senhor”.

Sua beleza foi a sua desgraça. Os franceses da época também gostaram dela e se estabeleceram por lá no ano de 1555, ficando por dez anos. A cidade do Rio de Janeiro foi fundada para ajudar na expulsão dos franceses da baía. Mas eles voltaram em 1710 e tentaram novamente. No ano seguinte conquistaram a cidade e só saíram depois de receber um resgate em dinheiro.

Uma das paisagens mais veneradas do mundo todo, desde o século XVI, a “cidade maravilhosa”, é palco de uma guerra civil não declarada. Ninguém mais tem dúvidas sobre isso. Nos últimos dias, um contingente de aproximadamente 10 mil militares invadiu a cidade para tentar combater o crime que assola aquele pedaço do paraíso. Esse contingente foi adicionado às forças policiais do município e do estado, que não conseguem levar a contento suas obrigações.

Essa mesma operação foi realizada durante a Copa do Mundo de Futebol, em 2014, e nas Olimpíadas do ano passado. O sucesso naquelas ocasiões, tão propalado pelas autoridades e usado para justificar uma nova ação do mesmo tipo, mostra que existe algo de muito errado naquelas paragens tão deslumbrantes.

A nova ação deixa claro que, principalmente, houve uma falência da segurança pública naquela cidade, ao contrário do que foi mostrado nos últimos anos. A ocupação do Morro do Alemão, no ano de 2010, para a pacificação da comunidade e instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), se transformou num espetáculo midiático e artificial que rendeu até prêmios internacionais às redes de televisão pela cobertura ao vivo.

Era só uma falsa demonstração de que o crime estava sob controle, patrocinada pelas autoridades e pela principal rede de TV do país, detentora dos direitos de transmissão da Copa do Mundo e das Olimpíadas. O Brasil foi escolhido em 2006 para receber o campeonato mundial de futebol e, embora remota, havia a possibilidade de cancelamento do evento na cidade por falta de segurança.

As UPPs, cuja primeira unidade foi instalada no Morro Dona Marta em 2008, pretendiam, no curto prazo, tomar um espaço que o Estado deixou vago por muitos e muitos anos e que foi ocupado pelo tráfico de drogas e pelas milícias. É claro que o fracasso, já reconhecido pelas autoridades, era uma questão de tempo. Hoje, a própria população pede a retirada dos militares e a extinção das UPPs, sob a alegação de que os militares são tão violentos quanto os bandidos. Aliás, lá no Rio é difícil distinguir quem é um e outro.

A criminalidade nas favelas e morros cariocas não é só falta de policiamento nas ruas. É o fruto da ausência total do Estado nas periferias do Rio de Janeiro. Falta escola, falta assistência social, falta amparo à saúde, faltam serviços básicos de uma forma geral e falta, principalmente, o respeito ao cidadão.

Desde que surgiram as primeiras favelas na cidade, no final do século XIX, em 1897, nos morros da Providência e de Santo Antônio, que os moradores dessas áreas são deixados à sua própria sorte. Com o passar do tempo, mais favelas surgiram e se transformaram em refúgios seguros para criminosos e toda sorte de contraventores. Segundo o último censo populacional, existem hoje 763 favelas na cidade. Calcula-se que 22% da população viva nessas áreas.

Mas, naquela linda cidade, não só os morros e favelas são abrigos seguros para a bandidagem. As áreas mais nobres também foram tomadas pelo crime, inclusive instituições como a polícia e os governos municipal e estadual. Temos como principal exemplo o ex-governador Sergio Cabral, hoje preso pela operação Lava Jato em virtude dos vários milhões de reais recebidos em seguidas propinas que configuram um caso grave de corrupção.

Episódios de envolvimentos de policiais e políticos com o crime organizado são divulgados quase que rotineiramente. Vários dos desembargadores do Tribunal de Contas do Estado estão sob suspeição de receberem propinas para aprovarem contas de vários municípios. O atual governador, vice que assumiu após a prisão do titular, também está sob suspeitas de fazer parte dos esquemas de corrupção.

O lado exuberante da cidade, com suas praias mundialmente famosas e seus conhecidos acidentes geográficos – Pão de Açúcar, Corcovado, Pedra da Gávea – a elevaram à categoria de Patrimônio da Humanidade e atração turística mundial. Inclusive com o Cristo Redentor, instalado no Morro do Corcovado, sendo eleito em 2007 como uma das sete maravilhas do mundo moderno.

Nada disso, porém, é capaz de encobrir o lado podre da cidade, que vem se mostrando muito maior do que as belezas naturais colocadas ali pelo criador. Parece castigo. Um lugar tão bonito com tanta gente ordinária! Se Deus é brasileiro, como dizem por aí, com certeza não visita o Rio de Janeiro há muito tempo. Pelo visto deve estar transferindo aquilo lá para a administração direta do capeta.

Pelo jeito, em breve teremos ali uma verdadeira e genuína filial do inferno.

José Nário é escritor, engenheiro florestal, especialista em Informática na Educação, Gestão Ambiental e Educação Inclusiva e autor dos livros “Lelezinho, o pintinho que ciscava pra frente e andava pra trás”, “Lelezinho vai à escola” e “Minha janela para o nascente”.

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