domingo , 20 agosto 2017
Últimas Notícias
App Poços Já

Um pai e as destemperanças de um judiciário adoecido

* Mariana Ponce


Meu pai, dentre tantas coisas que é, é engenheiro agrônomo; e pai. Há 12 anos ele é também avô, e acredito que entre pai e avô ele se envaidece mais com o segundo ofício.

Meu pai exerceu a profissão por 40 anos na mesma empresa, na mesma cidade, com a mesma rotina diária e se aposentou ano passado.

Meu pai, ano passado, foi denunciado pelo Ministério Público Federal, por fraudar o Sistema Financeiro Nacional, junto com a Dona Zélia.

Dona Zélia é uma senhora simplória que subsiste do seu pequeno pedaço de terra do tamanho de um campo de futebol. Faz queijo, planta milho, vende ovo caipira, dentre outras “mineirices capiais” que gostamos bem.

Meu pai, enquanto engenheiro agrônomo de uma empresa pública, trabalhou 40 anos com gente simples, pequenos produtores, transformou a vida de muitas pessoas; e pôde assistir centenas de famílias durante a vida. Hoje, aposentado, ele sente falta disso.

Meu pai, há dez anos, entendeu, pelo conhecimento do árido histórico de vida rural que a Dona Zélia possuía, que ela poderia ser beneficiária de um microcrédito através do PRONAF – Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar.

Meu pai, agrônomo com conhecimento literal de campo, triou Dona Zélia para obter pouco mais de 5 mil reais para comprar vaca e milho. Assim, ela financiou e, fazendo-o, honrou, religiosamente, como costuma fazer gente honesta de cidade pequena. Guaranésia tem pouco menos de 20 mil habitantes.

Meu pai e a Dona Zélia estão sendo acusados de fraudar o Sistema Financeiro Nacional em razão de um microcrédito de 5 mil reais já liquidados junto ao Banco do Brasil entre 2006 e 2007.

Meu pai é um senhor de 67 anos, digno, reto, probo, que, ainda que tivesse nascido submerso em mangue, permanecia íntegro e nobre, pois a nobreza humana e espiritual faz parte dele.

Meu pai nunca discutiu com vizinho, nunca furou fila e sempre teve um rigor muito inflexível na nossa educação. Meu pai já viveu pior para que a gente vivesse melhor. Eu tenho idolatria por ele. Ele é uma pessoa grande.

Meu pai, que de tão rijo não chora a toa, faz lágrima quando fala sobre esse processo que surgiu nos “quarenta e cinco do segundo”, momento em que tanta descrença paira no mundo.

Meu dia dos pais será elaborando as alegações finais em favor dele. Que o magistrado tenha sensibilidade e cuidado para ir além “das peças” e de encontro aos sujeitos com humanidade.

Mais. Espero que todas as convicções que direcionem o processo emanem de pessoas que tenham um pai justo de quem possam se orgulhar, tal como o meu. Certamente isso faz diferença na forma como se conduz a vida e em como se evidencia o caráter.

Um feliz dia aos pais!

*Mariana Ponce é advogada, especialista em direito do consumidor e resoluções sustentáveis de conflitos, consultora jurídica da ADEFIP (Associação dos Deficientes Físicos de Poços de Caldas) e graduanda em relações internacionais na Puc Minas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Copy Protected by Chetan's WP-Copyprotect.