segunda-feira , 16 outubro 2017
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Um povo à deriva

* José Nário


Tenho feito um esforço supremo para não pensar a respeito dessa lambança que é a política brasileira. É muito cansativo e irritante. Mas, em meio a tantas idas e voltas, tantas reviravoltas e piruetas, não tenho outra alternativa senão fazê-lo. Contrafeito e relutante, tento inutilmente visualizar algo de positivo. Mas só consigo me ver, e ao povo brasileiro, como parte de um espetáculo circense. Mais especificamente como o palhaço que morre de rir enquanto o circo pega fogo; metáfora recorrente em meus textos, mas muito significativa para mim.

Assim, tirando um tempinho para pensar, concluo que não me conheço muito bem. Olho no espelho e o que vejo? Um palhaço velho e um velho desencantado. Mas não sei se sou isso ou aquilo. Um palhaço velho ou um velho desencantado. Ou os dois. Os dois, muito provavelmente. Nas últimas quatro décadas, desde de que me reconheço como um ser pensante, tenho esperado que nosso Brasil tome um rumo. E o país continua sem rumo.

Esclarecendo: já tenho quase seis décadas de vida, mas considero que minhas primeiras opiniões claras só apareceram na segunda delas, por volta dos doze anos.

Vivi a infância e a adolescência durante a ditadura militar. Os chamados “anos de chumbo”. Tempos de censura plena e intensa pregação ufanista, com aquelas campanhas tipo “Ame-o ou deixe-o”, quando cada brasileiro era colocado na parede para escolher entre ser brasileiro, aceitando a ditadura com todos os seus defeitos, ou exilar-se. Muita gente levou a sério, foi embora, e se deu bem.

Mas a quase totalidade dos brasileiros, mesmo que quisesse ir embora, tinha que ficar por aqui mesmo. Embora sabendo ser impossível, eu também tive o desejo de zarpar daqui, ficar bem longe da ditadura. Tínhamos que viver dentro do regime de exceção com todas aquelas mentiras e manobras nebulosas que, na sua maioria, nunca foram totalmente elucidadas. Muitas perguntas continuam sem respostas e, pelo que podemos concluir, continuarão assim.

Desde que se restabeleceu a democracia no país, no ano de 1985, que estamos convivendo com uma pretensa normalidade. Mas, note-se, já tivemos o impedimento de dois presidentes e, ao que parece, convivemos com a possibilidade, ainda que remota, de um terceiro afastamento. Podemos concluir então que isso é a normalidade? Aparentemente, sim!

Mas tenho minhas dúvidas. Penso que logo depois do primeiro impedimento, quando o presidente Collor foi afastado, os brasileiros já deviam ter desconfiado que faziam parte de um grande circo de horrores, que funciona ao sabor dos ventos. Os ventos da direita e da esquerda, que sopram alternadamente. Mas que não mudam nada na essência.

E agora, depois de um considerável período de governos de esquerda, o país sofre uma guinada abrupta e oportunista para a direita. Mas este arranjo não está se sustentando e ameaça soçobrar no mesmo mar de ignomínias que levou à falência a administração anterior. Num período de pouco mais de um ano saímos de uma situação preocupante para uma posição desesperadora.

Na atualidade, não dá mais pra saber se a saída de Temer é boa ou é ruim para o país. O que observamos é que esse governo já não tem mais o respeito de ninguém. Os membros do Congresso Nacional, o Poder Legislativo, se acham proprietários do Poder Executivo e negociam abertamente para explorá-lo ao máximo. Em benefício próprio, é claro.

O mais terrível é saber que o partido que serviu de sustentação ao governo da ditadura, o Democratas (que foi ARENA, depois PDS, em seguida PFL e finalmente DEM, saracoteando mais que macaco de circo), com o deputado Rodrigo Maia, poderá voltar ao poder central, ocupando o principal cargo do nosso sistema presidencialista. Isto só poderia acontecer aqui, nesse quimérico país, cuja política se desenha como uma metáfora do inverossímil.

Esse argumento poderia muito bem fazer parte de uma narrativa ficcional, típica do realismo fantástico tão presente na literatura latino-americana. Parece mentira, mas é a mais pura verdade. Doses significativas das nossas idiossincrasias, nossos mais temíveis costumes na relação com a coisa pública se fazem presentes “como nunca antes na história desse país”. Costumes que se perpetuam sem que os revoltosos de plantão façam alguma coisa.

Em síntese, somos um povo à deriva, viajando por um mar de incertezas, indo de encontro a uma tempestade e acossado por piratas salteadores. Confesso que isso me deprime. Não em função do meu próprio futuro, mas pensando nas gerações vindouras, que nem imaginam o que as espera.

Em função disso tudo, não conseguimos ver a luz no fim do túnel. Ainda que pudesse ser vista, ela poderia simplesmente ser uma imensa placa luminosa, de neon colorido, com os dizeres em letras garrafais: “Gran Circus Brazil”.

*José Nário é escritor, engenheiro florestal, especialista em Informática na Educação, Gestão Ambiental e Educação Inclusiva e autor dos livros “Lelezinho, o pintinho que ciscava pra frente e andava pra trás”, “Lelezinho vai à escola” e “Minha janela para o nascente”.

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