sexta-feira , 20 outubro 2017
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Um URBANO MAIS HUMANO: “Mexido no jantar ou uma época SUSTENTAVEL”


MEXIDO

é a união de arroz, feijão, carne desfiada, couve, linguiça, bacon, cheiro verde, pimenta, etc… tudo em uma panela, mexer bem e está pronto o mexido. Bom demais da conta UAI!

O significado dado pelo dicionário Informal da palavra mexido, antes de tudo, era um costume de infância. Quando mamãe gritava pela janela, me lembrando a hora de retornar à casa no final do dia, era um código que reconhecíamos em conjunto. Nós,  crianças da rua, sabíamos que era a hora do banho e do delicioso mexido. Sim, era o jantar, preparado com tudo o que sobrara do almoço, quiçá da semana, e se misturava de forma deliciosa na reunião da família a mesa.

Essa breve nostalgia me leva a pensar sobre o que sobra. Sobra mesmo? Ou jogamos fora, em simples descarte nessa eterna sociedade de consumo, de descarte e substituição?

O mexido do jantar é a economia doméstica que, em sua lógica diária, fazia as contas do que estava na geladeira, pensando no dia da feira ou esperando o dia do carroceiro, que passava dia sim dia não, e que trazia o leite, os biscoitos, o queijo e as quitandas da semana.

O mercado não era ‘super’, era mercadinho.

Mercadinho que tinha um pouquinho de tudo e o super estava lá no Centro, maior, imponente, lá na Rua Assis, pavimentada, onde mamãe me arrumava com o ponche de tricô e boina [do mesmo ponto] e pompons pendurados para ver as vitrines à noite com a família. Andávamos conversando e vendo as vitrines iluminadas, às vezes um café , mas logo retornávamos ao descanso para o dia seguinte.

Era mesmo assim. Nada sobrava, tudo se fazia para o aproveitamento das coisas e alimentos. A casa ‘Ao ponto Ajour’ ficava ali, ao lado do Chalé, em frente ao Marrom e pertinho da Matriz [hoje Basílica Nossa Senhora da Saúde]. Era visita garantida pelo menos uma vez na semana. Mamãe sempre passava por lá para comprar os aviamentos e ver as novidades de lãs. Cores e texturas me deixavam encantada. E os botões! Nossa, era cada um mais lindo que o outro. Sempre criava minhas roupas pelos botões, era uma viagem encantadora…

Hoje, pergunto sobre o Mexido. Mexido? O que é isso? Talvez tenha um novo nome para o que sempre foi um mexido. Sim, parece uma nova ‘tendência’ contemporânea. Tendência acaba sendo outra palavra para ‘mania’ ou ‘moda’.

Gostaria de falar sobre os novos nomes para as mesmas coisas. Penso sobre a cozinha e nem cozinha temos mais … agora, em novo vocabulário se reinventam os lugares que sempre existiram. A COZINHA agora passa a ser ‘Espaço Gourmet’, a entrada da nossa casa, que já foi HALL, VESTÍBULO, hoje nem guarita vemos mais, agora são porteiros eletrônicos e biometria (sim, a digital dos dedos) para acesso ao prédio ou casa…

Cadê os humanos? Desumanizamos as entradas onde moramos. Falamos por mensagens criptografadas, matamos a saudade por SKYPE ou por redes sociais, grupos em aplicativos e em casa, sempre sozinhos, isolados, cada qual com sua célula nas mãos, o celular.

Mas isso é na cidade? Na cidade do ‘Ao Ponto Ajour’? Da loja de aviamentos de cores e texturas incríveis? Era essa a cidade onde andávamos à noite para vermos as vitrines? Onde está? Ela está?

Sim, está.

Está na praça, nos passeios cheios de pessoas apressadas, cada um preocupado com seu horário e tentando não olhar para as redes sociais dos telefones em células… que são os aparelhos de telefonia móveis, e que chamamos de celulares.

Mas e quanto ao mexido? O mexido era o que não descartávamos. E não fazemos mais mexidos, jogamos fora, misturados ao plástico, ao papelão, ao latão e a tudo que não queremos mais…e levamos ao LIXO. E também mudamos o nome desse lugar, não é mais LIXO, o LIXÃO virou aterro sanitário, sem ser ATERRO e sem ser SANITÁRIO.

Até quando mudaremos os nomes das coisas sem mudar as coisas?

Nossa rua está ai, nossos lugares estão aqui, basta olharmos para nossos lugares e as pessoas nos lugares. Iremos ver pessoas que não víamos há tempos, veremos nossa cidade de todos os tempos e olharíamos mais para o que sobrou na geladeira … Façamos MEXIDOS, com nosso lixo do descarte inconsciente, façamos com nossas roupas, que virou customização …

Éramos SUSTENTÁVEIS, hoje decidimos mudar o nome das coisas… que continuam as mesmas coisas sem que  as mude. Acho que assim nos sentimos menos culpados do descarte, do por longe de mim o que não quero mais…

E o ESPAÇO URBANO? Esse desumano espaço pede um bocadinho de mexido no dia a dia, sem a artificialização do cotidiano, de nossas vidas, e sem esse simples descarte de tudo que não queremos mais. O destino do lixo é precioso, se transforma em preciosidade, basta querer e ver. Tirar a venda da rotina que nos cega  e olhar com olhos de ARTE, em tudo!

O Lixo vira asfalto se misturado ao pneu descartado. Vira calçamento ecológico de passeios, Vira brinquedo, vira camiseta, e vira ARTE como as imagens dos meninos de açúcar (fig. 1) de Vick Muniz ou a reciclagem das pessoas do maior lixão do Rio de Janeiro, o Jardim Gramacho, onde um ‘Lixo extraordinário’ (fig3)  vira ARTE com pessoas a partir do olhar único do artista que captura a cultura e  a vida.

Fig.1 –Vik Muniz, Sugar Children, 1996 – Fotografia utilizando papel preto e vários tipos diferentes de açúcar. In http://dacc.univasf.edu.br/?p=649

“Pensar na escolha de materiais anteriormente “renegados” faz parte das propostas difundidas pela arte contemporânea, mas essa escolha, antes de buscar uma inovação, deve atender aos objetivos conceituais e estéticos da obra, como nos ensina com maestria nosso artista da semana.”

Na série Sugar Children, 1996 (Crianças de Açúcar), Vik Muniz organiza composições visuais de crianças. Crianças filhas dos trabalhadores do cultivo da Cana de açúcar em St. Kitts. Ao fotografá-las, Vik Muniz imprime sua sensibilidade de artista e de menino pobre criado em Diadema, SP, com dificuldades, que ao olhar o bolor da infiltração na laje do seu quarto, imaginava desenhos e sonhava ser mais e fazer mais para melhorar sua cidade e seu país. Foi isso que Vik Muniz fez e faz. E hoje Vik e assim reconhecido internacionalmente:

 “… Conceituado no mercado internacional, Vik Muniz mora atualmente entre o Rio de Janeiro e Nova York. O artista brasileiro Vik Muniz acaba de ganhar um espaço de exposição permanente visto in loco por 200 mil pessoas por dia. Obras do artista ocupam as paredes de uma das três estações da nova linha de metrô inaugurada em Nova York (EUA) no início deste mês.

 (FORBES Brasil,19/01/ 2017)

Para o site DACC – Diretoria de Arte, Cultura e Ações Comunitárias da Universidade Federal do Vale do São Franscisco – Univasf, … sua proposta nos incita a problematizar dois aspectos no tocante ao “AÇÚCAR” presente metafórica e concretamente na série. Podemos pensar na “doçura” das crianças e da infância, e principalmente em como o material açúcar, molda suas vidas e seus cotidianos, nem sempre tão doces assim…(DACC- 19/06/2015)

Em sua última produção Vik Muniz produziu  um mosaico em cerâmica com cerca de 30 personagens em tamanho natural, que mostram a diversidade humana da Big Apple, em Nova York.

A obra, batizada de Perfect Strangers, fica na estação da Second Avenue com a 72nd Street, na nova linha de metrô que é uma extensão da linha Q e que transportará cerca de 200 mil pessoas diariamente.

Fig. 2 – Exposição do artista brasileiro Vik Muniz em estação de metrô de Nova York, 2017.

O documentário Lixo Extraordinário, filmado entre 2007 e 2008, concorreu ao Oscar em 2011, e mostra o projeto de Vik para o maior aterro sanitário do mundo, o Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro. Vik transforma a vida dos catadores de lixo, entrevistados por ele no documentário e consegue ver o que cada um deles tem como repertório cultural no transcorrer da vida vivida de cada um.

O MARAT, pensador que é representado no cartaz do filme pelo líder da comunidade Tião, jovem presidente da Associação de Catadores do Aterro Metropolitano de Jardim Gramacho (ACAMJG), ou Zumbi, catador que resgata os livros do lixão e acabou montando uma biblioteca com os exemplares. Tião viaja a Nova York acompanhando seu quadro num leilão, e arrecada R$100.000,00, é emocionante e vale a pena assistir, sempre.

Em entrevista à João Jardim Vik Muniz responde à pergunta “Qual foi o maior aprendizado pessoal que “Lixo Extraordinário” te proporcionou?

“O maior aprendizado que eu tive foi com os personagens/catadores do filme. Descobri que existe um mundo rico de valores, dignidade e humor num lugar onde normalmente só se vê miséria.”

Fig. 3- imagem do Filme “Lixo extraordinário” – Vik
Muniz, artista plástico analisando a execução do quadro feito com materiais encontrados no lixo para a construção a partir da foto. Documentário de 2007, ‘Lixo Extraordinario’.

Acho que Vik faz os MEXIDOS com sua ARTE!

Só desejo para as cidades mais MEXIDOS, por favor!!!

*Adriane Matthes é arquiteta e urbanista – mestre e doutoranda em urbanismo  pela PUC Campinas; professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da PUC Minas campus Poços de Caldas.

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