sexta-feira , 22 setembro 2017
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“A corrupção no Brasil compensa”, afirma Dallagnol


Deltan Dallagnol participou da Flipoços durante a noite de sábado (6).

Ele é anunciado e imediatamente a platéia fica de pé. No público, nomes conhecidos da política local, todos da base aliada do atual prefeito de Poços de Caldas, Sérgio Azevedo (PSDB).  Antes de ser ovacionado, o procurador da República Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava Jato, concedeu uma entrevista exclusiva ao Poços Já.

Autor do livro “A luta contra a corrupção”, ele foi uma das atrações mais aguardadas da Flipoços 2017. Chegou ao Espaço Cultural da Urca, na noite de sábado (6), escoltado por um forte esquema de segurança. Na entrada do Teatro Benigno Gaiga, todos tivemos que passar por um detector de metais.

O procurador fala com tranquilidade e de forma simples sobre as questões que envolvem a operação Lava Jato, da qual participa desde o início. Sua maior bandeira é o combate à corrupção, mas faz questão de lembrar que nem todos políticos se enquadram no estereótipo de desonestidade construído ao longo da história brasileira.

Poços Já: Esse livro é uma forma de se combater a corrupção?

Dallagnol: Esse livro é feito com o objetivo de alcançar um país menos corrupto, exatamente. Mas o caminho pelo qual ele vai é um pouco diferente da Lava Jato. Ele diz exatamente que não basta a Lava Jato. Pela Lava Jato a gente combate a corrupção com causa concreta, mas esse caso é um ponto fora da curva da impunidade, que continua lá. Por isso, no livro a gente fala um pouco sobre como é importante que nós, a sociedade brasileira, caminhemos para além da Lava Jato. A Lava Jato é um passo importante, mas precisamos ir além dela.

Poços Já: Ter uma posição de destaque na Lava Jato e ainda escrever um livro causa que tipo de pressão em você? Houve alguma ameaça?

Dallagnol: A gente não costuma conversar sobre questões de segurança, por razões de segurança. Isso é uma vedação que a gente tem para ser cauteloso.

Poços Já: Além de investigações como a Lava Jato, na sua opinião o que pode ser feito para resolver o problema da corrupção?

Dallagnol: A corrupção é um fenômeno multicausal, existem vários fatores que afetam os índices de corrupção. Quando nós olhamos o cenário brasileiro e esses fatores, dois chamam atenção. Um deles é a impunidade. A corrupção no Brasil compensa, é um crime de baixo risco. O segundo fator são falhas no sistema políticos que fazem com que aquelas pessoas que entram no ambiente político queiram e se sintam estimuladas, pressionadas a praticar a corrupção. Veja que os políticos saem da mesma sociedade em que saem procuradores, médicos, jornalistas, professores. Agora, eles se colocam e são colocados em um ambiente que gera índices maiores de corrupção, segundo algumas pesquisas. Isso mostra que há coisas erradas nesse meio, e é sobre essas coisas que nós conversamos no livro. Por exemplo: as campanhas eleitorais são caríssimas. Existe um número de candidatos extremamente elevado, que concorre com outros candidatos, que concorrem em um “grande distrito” que se chama Estado. Isso faz com que o candidato, se quiser se destacar no meio da multidão, tenha que investir somas muito pesadas.

Poços Já: Certo, mas quais seriam as medidas necessárias para combater a corrupção?

Dallagnol: Nós temos duas reformas muito importantes para que possamos sair desse buraco em que nós estamos. Se quisermos sair desse atoleiro, precisamos puxar duas cordas. Uma dessas cordas é a da reforma do sistema de justiça criminal. Com esse objetivo, o Ministério Público Federal ofereceu à sociedade, como contribuição para a discussão, um pacote que foi chamado de 10 Medidas Contra a Corrupção. Outra corda para sair desse atoleiro é a reforma política, e para isso a gente precisa implementar mudanças na lei que façam com que as campanhas eleitorais sejam mais baratas, que faça com que o número de candidatos seja menor e fiscalizável. Nós tivemos mais de 500 mil candidatos nas últimas eleições.

Conversa foi mediada pelo jornalista Vladimir Netto.

Poços Já: Você é contrário à anistia do caixa 2, até porque essa é uma ferramenta que estimula a corrupção.

Dallagnol: O maior problema na anistia ao Caixa 2, que veio à tona, é que não era uma anistia ao caixa 2. Era uma anistia à corrupção disfarçada deste discurso, desta narrativa. Quando o texto veio à tona, o que se viu era que se objetivava anistiar recursos que eram destinados a campanhas eleitorais e crimes relacionados. Ou seja, se o dinheiro veio da corrupção mas tivesse sido destinado a campanhas eleitorais, esse crime de corrupção relacionado a caixa 2, seria anistiado. Era algo muito mais amplo, se fosse aprovado esse texto os criminosos presos pela Lava Jato poderiam sair pela porta da frente.

Poços Já: Hoje temos aqui na platéia da Flipoços muitos políticos locais, principalmente do PSDB e de outros partidos de direita. A que você atribui essa admiração da direita e rejeição da esquerda?

Dallagnol: Acho que isso está praticamente superado com a colaboração da Odebrecht, que revelou a corrupção em mais de 20 partidos, de centenas de políticos, das mais variadas cores partidárias. A investigação começou a partir da Petrobras e de diretorias que eram controladas por pessoas indicadas pela presidência. A presidência só indicava pessoas do seu próprio partido ou da base aliada, por isso pessoas mais vinculadas ao PT e PMDB. Agora, com a colaboração da Odebrecht, que divulgou crimes de corrupção nos governos estaduais e nos municípios, a investigação revelou o que já se sabia e nós já afirmávamos: a corrupção não é um problema do partido A, do partido B, ou do governo A, do governo B. É sempre importante lembrar que não podemos generalizar no sentido de que todo político é corrupto, porque isso condenará os justos com os injustos e desestimulará pessoas boas a entrarem para a política, quando o que queremos é o contrário. Por outro lado, precisamos reconhecer que existe esse problema que se espalhou pelo Brasil e que é preciso ser encarado de frente.

Poços Já: Aonde você acha que a Lava Jato pode chegar e aonde você gostaria que ela chegasse?

Dallagnol: A Lava Jato vai chegar aonde as linhas de investigação nos levarem, e aí não tem muito como escolher. Pode ser que nós estejamos no final da investigação e uma nova pessoa decida colaborar, suja uma nova busca e apreensão que levante outras 20 linhas de investigação novas que nos conduzam a 20 novas pessoas, que podem colaborar e nos levar a outras 200 pessoas, e assim por diante. Por isso, a investigação tende a se expandir enquanto houver colaborações premiadas, a não ser que acabem com ela. A não ser que exista uma reação forte dos governantes, estancando as investigações. Agora, se você me perguntar até onde eu gostaria, pra onde eu torço que ela fosse, hoje eu torço para que ela vá até o momento em que as reformas do sistema político e da justiça criminal se tornem inevitáveis.

Poços Já: Há a possibilidade da Lava Jato não dar em nada e tudo continuar como antes?

Dallagnol: Existe sim um risco de que a Lava Jato acabe em impunidade. É o que aconteceu na Itália, na operação Mãos Limpas, mas os políticos vão esvaziar uma punição deles próprios depois de um bom tempo de investigação. É como se no Brasil depois de 2022 se esvaziassem as punições, quando a poeira já baixou, quando  a sociedade já abaixou a guarda. Isso é um risco que permanece, a não ser que exista uma grande renovação política no parlamento. Para isso, é preciso que a sociedade exerça de modo consciente o voto e, se está preocupada com a corrupção, que eleja pessoas comprometidas com a pauta de corrupção. Para conscientizar, é importante que nós estejamos sempre próximos da sociedade, como estamos hoje aqui no Flipoços conversando com a sociedade mineira, da cidade de Poços de Caldas e pessoas que vieram de outros lugares. Uma energia muito gostosa, uma grande alegria estar aqui com vocês todos. Espero que eu possa voltar com mais calma para aproveitar as águas termais, medicinais. Depois de três anos de investigação a gente está precisando disso (risos).

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