domingo , 19 novembro 2017
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Corrupção, síndrome dos pequenos poderes e o tráfico de influências: prólogo da tragédia brasileira contemporânea


Tenho pensado bastante sobre o que dizer aos meus filhos (que ainda nem os tenho) daqui alguns anos. Sou cria de um pai universitário no Rio de Janeiro na década de 70 e de um avô detido pelo DOPS em 1950 (e alguma coisa) por “movimentos pela paz”. Tive uma construção bem fiel e que trouxe à luz os horrores vividos em tempos de incertezas políticas; e hoje, nosso amanhã é tão incerto.

Qual será o padrão de referência nestes tempos em que a moral pública (se houver) soa tão hipócrita aos nossos ouvidos? Como fazer entender as próximas gerações que a nossa ética de conveniência falhou e nossa cultura de hipérbole jogou todos contra todos num emaranhado complicado de entender?

Acabo de ouvir o áudio de uma reunião deliberativa ordinária sobre uma proposição que acompanho na Câmara dos Deputados e sobrou um pouco de perplexidade quanto aos representantes que sequer conjugam corretamente a língua pátria, mal conseguem exprimir uma estrutura coerente de pensamento técnico e teórico sobre as leis que irão reger a nossa civilidade, e que certamente goza de uma notoriedade em forma de espetáculo infinitamente maior que um acadêmico de carreira que rasteja para saldar a vida.

Hoje está sobrando um desgosto generalizado em mim, por tudo o que não somos ou fazemos, pelos direitos de tantos milhões dispostos em guilhotinas, por tentarem fazer da gente o que bem entendem, e ter êxito na empreitada. Está de fazer doer os tímpanos a palavra delação, as piadocas vulgares zombando da própria desgraça (coisa que fazemos bem) e a moça da padaria amassar a casca do pão porque gratuitamente não foi com a minha cara.

Agora, inclusive, me aborrece o fato de protestar em caracteres, no conforto da minha sala de luz amarela e café forte sobre a mesa. É fácil esbravejar na escrita com o corpo inerte e o mundo em movimento. Buscar a identidade desse destino descarrilhado de som e fúria no conforto da poltrona torna tudo um tanto mais simples. Disso não me orgulho nem me agrado. Hoje, nosso amanhã é tão incerto.

*Mariana Ponce é advogada, especialista em direito do consumidor e resoluções sustentáveis de conflitos, consultora jurídica da ADEFIP (Associação dos Deficientes Físicos de Poços de Caldas) e graduanda em relações internacionais na Puc Minas.

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