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Desde a última sessão da Câmara, realizada na terça-feira (25), um vídeo do vereador Ricardo Sabino (PSDB) tem repercutido nas redes sociais e dividido opiniões. O parlamentar usou a tribuna para comentar a decisão do Ministério da Educação (MEC) em retirar as expressões ‘identidade de gênero’ e ‘orientação sexual’ da nova versão da Base Nacional Curricular. “Aqui na Câmara, em 2015, a ideologia de gênero foi refutada nos próximos dez anos no Plano Municipal de Ensino e, como vereadores, é nosso papel fazer com que isso seja cumprido à risca. Precisamos conscientizar nossas famílias, conscientizar a quem nós temos condições de falar que não podemos expor nossas crianças a esta doutrinação que tiveram intenção de fazer com que acontecesse no nosso país”, declarou.

O texto citado pelo vereador está na Base Nacional Curricular desde 7 de abril,  e garante que “a equidade requer que a instituição escolar seja deliberadamente aberta à pluralidade e à diversidade, e que a experiência escolar seja acessível, eficaz e agradável para todos, sem exceção, independentemente de aparência, etnia, religião, sexo ou quaisquer outros atributos, garantindo que todos possam aprender”.

No vídeo, que tem cerca de quatro minutos de duração, Ricardo ainda questiona os também vereadores Lígia Podestá (DEM) e Mauro Ivan de Oliveira (PSB) sobre o real significado do que chama de ‘ideologia de gênero’. “Vereador Mauro Ivan, para a ideologia de gênero, você não é um homem. A senhora não é mulher, vereadora Lígia. Parece maluco, né? Mas é que é maluco mesmo. Eles querem dizer que nós não nascemos homens ou mulheres e que isso foi uma construção social. Isso é um absurdo”, ressaltou.

O jogo Baleia Azul, que tem preocupado pais de adolescentes neste ano, por estimular suicídio e automutilação, também entrou na fala do vereador. Para ele, essa é a “ponta do iceberg”, consequência da desestruturação das famílias causada por diversos fatores, inclusive a ideologia de gênero. “Nossas famílias têm sido atacadas e a ideologia de gênero foi uma forma de atacar e desconstruir a família”.

Repercussão

Após o fim da sessão, o vídeo, que está disponível no canal oficial da Câmara Municipal no Youtube, passou a ser compartilhado nas redes sociais e teve repercussão instantânea. “Acho que, como pessoa pública, antes de mais nada, ele deveria defender os direitos de toda população, não de uma pequena parcela”, comentou um internauta. “Gostaria de parabenizar o vereador Ricardo Sabino pela sua fala na Câmara dos Vereadores nesta terça, nos representando enquanto família, e deixando aqui o nosso total apoio a ele e aqueles que também são contra a ideologia de gênero nas escolas”, defendeu outra.

De acordo com a mestranda em Educação e Pesquisadora de Gênero e Juventude, Andréa Benetti, o termo ‘ideologia de gênero’ é algo inventado. Em entrevista ao Poços Já, ela afirma que a modificação feita pelo MEC é um retrocesso. No entanto, não proíbe que professores abordem o assunto em sala de aula. “O PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) já contempla uma discussão de sexualidade. Então o professor tem todo direito e respaldo de fazer isso. Ele não pode ser constrangido de forma nenhuma. Não é porque não está previsto lá no currículo comum que o professor não vai trabalhar”, enfatiza.

Questionada sobre sua opinião acerca da comemoração do vereador, Andréa responde que “estamos passando por um retrocesso do Estado, que tende a cercear direitos”, e considera a atitude de Ricardo “resultado de um processo quase fascista”. Ela ainda destaca que o entendimento de que a identidade de gênero irá romper toda sociedade faz parte de uma fantasia criada pela falta de conhecimento sobre o assunto.

“Gênero não é órgão sexual, não é ter pênis ou ter vagina. A identidade de gênero é uma construção cultural. Não precisa modificar a cabeça de ninguém. Esse entendimento de que o gênero é construído, que o meu é diferente do seu, que as pessoas se constituem de forma diferente e que tem pessoas que não se adequam ao que a cultura estabeleceu é obvio, e, de alguma forma, a escola vai passar por isso, as pessoas têm essa percepção”, finaliza.

A pedagoga ainda cobra um pronunciamento da Prefeitura quanto ao assunto. “O vereador faz parte da base do Executivo e o Executivo precisa se pronunciar. Tanto a Prefeitura quanto a secretaria de Educação, que é um órgão oficial, e tem que se defender e defender a educação das crianças”.

Direito de resposta

A reportagem do Poços Já também procurou o vereador Ricardo Sabino, que afirmou ter ficado surpreso com a repercussão do vídeo. Ele afirma que usou a tribuna respeitando o Regimento Interno da Câmara Municipal de Poços de Caldas, que prevê que “o vereador terá direito à inviolabilidade por suas opiniões, palavras e votos no exercício do mandato e na circunscrição do Município”.

O parlamentar comentou ter compreensão de que suas colocações não foram aceitas por algumas pessoas, mas garante que representa um grupo e não irá voltar atrás.

“Pode ser que um grupo não se identifique com a minha fala, não se sinta representado. Se fosse para que todos os 15 vereadores pensassem igual, não precisaríamos de 15 vereadores, bastava que elegêssemos um, mas somos 15 para que, tendo divergência de opinião, a gente possa enriquecer uma democracia. Não foi minha intenção, em nenhum momento, ofender ninguém. Nós vivemos num país livre. Eu não quero que ninguém tenha minha fé, siga minha religião. Assim como respeito perfeitamente os adultos que fazem as suas escolhas na sua vida, também na vida sexual. Agora, o que eu estava pontuando ali, e que realmente eu não volto atrás em nenhuma virgula, é que a escola não é espaço para a gente trabalhar aquilo que é papel de pai e de mãe, a moral. Eu coloco meu filho na escola para aprender matemática, português, geografia, ciências. Agora, valores, isso é coisa de família”, pontua.