sexta-feira , 20 outubro 2017
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Anestesia geral


Parece que o povo resolveu sair da toca. Muito timidamente, por enquanto, manifestações começaram a questionar esse estado de coisas que parece enredar o país cada vez mais nos meandros da corrupção. Na verdade, eu estava meio surpreso com essa paralisação total na reação popular. Especialmente porque acabamos de passar por um período de intensa atividade de protestos.

Não estava acreditando nos meus olhos. Eu via, mas meu cérebro se negava a crer. O panorama político do país há tempos vem se deteriorando rapidamente, se é que é possível piorar, com um quantidade imensa de agentes envolvidos em corrupção e tramoias variadas. Apesar disso, até dias atrás não havia sinal significativo de reação popular, como aconteceu no passado recente, nas manifestações de junho de 2013.

No congresso nacional já aconteceram várias tentativas de proteger esses agentes políticos envolvidos nas falcatruas e, ainda por cima, cercear a ação do poder judiciário, o único que ainda guarda um mínimo de dignidade e cobra dos demais as suas funções republicanas. Dentre as quais, é óbvio, não está a corrupção. E agora surge a tal da reforma política com a famigerada “lista fechada”, que pretende tão somente garantir o foro privilegiado para os figurões de cada partido.

Não faz muito tempo, quase quatro anos, protestos tomaram conta do país depois de alguns aumentos nas tarifas de ônibus de algumas grandes cidades e também por causa dos gastos com a copa do mundo de futebol. A repressão violenta da polícia, depois de alguns dias de protestos, ainda provocou o acirramento das manifestações.

Além disso, estava em evidência o envolvimento de várias figuras do governo petista, além de funcionários da estatal, com os escândalos da Petrobrás. As pessoas foram pra rua e demonstraram sua indignação. Algumas deixaram aflorar seus instintos mais sombrios e promoveram depredações e saques que não tinham nada a ver com os motivos alegados para as manifestações, criando dúvidas sobre suas verdadeiras intenções.

De uma maneira geral, esses protestos influenciaram a tomada de posição de deputados e senadores frente ao impedimento da Presidente Dilma Rousseff. Partidos antes aliados do governo se voltaram contra ele, surfando na onda legalista, que na verdade se revelou extremamente oportunista. Agora todos eles abraçam o governo substituto, recebendo cargos nos diversos escalões.

Nos dias atuais, quando até mesmo o principal partido que fazia oposição ao governo anterior tem cargos importantes no atual, as denúncias de envolvimento de políticos com a corrupção atingiram índices inimagináveis. Numa reviravolta interessante, até mesmo o partido denunciante da corrupção no governo petista, tem vários membros denunciados pelos delatores da Operação Lava Jato da Polícia Federal, numa versão clássica e deliciosa da virada do feitiço contra o feiticeiro.

Este argumento poderia fazer parte do enredo de um filme hollywoodiano, com um roteiro premiado, cujas mudanças nos rumos da trama fariam vibrar a plateia. Nos últimos dias tenho ouvido que os partidos enredados, duas das maiores agremiações políticas do país,já se entendem para que não haja grandes consequências que possam atrapalhar as candidaturas das suas principais figuras em 2018.

O que me deixa mais abismado é que a grande parte do ministério atual do Governo Temer é de políticos citados em delações da Lava Jato. Alguns deles com vários envolvimentos, numa situação de agravamento de suas participações em corrupção ou fraudes.

Pois é, embora tenhamos uma situação tão ou mais grave do que aquela apresentada no governo anterior, a indignação popular mostra-se esgotada. Parece mesmo que uma anestesia geral tomou conta das pessoas, impedindo o povo de reagir a esse estado de coisas.Espero que um dia o povo saia da letargia.

E que não demore muito! Senão pode ser tarde…

*José Nário é escritor, engenheiro florestal, especialista em Informática na Educação, Gestão Ambiental e Educação Inclusiva e autor dos livros “Lelezinho, o pintinho que ciscava pra frente e andava pra trás”, “Lelezinho vai à escola” e “Minha janela para o nascente”.

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