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Cachorros nadam e bebem água do Rio Doce.
Cachorros nadam e bebem água do Rio Doce.
Reginaldo Krenak, de 34 anos, lembra que brincava no Rio Doce quando menino.
Reginaldo Krenak lembra que brincava no Rio Doce quando menino.

Enquanto visitamos os índios Krenak, no município de Resplendor (MG), somos escoltados por companheiros especiais: os cachorros da aldeia. São caçadores de capivaras e carregam no corpo as marcas das lutas. Arranhados e magros mas bem dispostos, vão conosco para todo lado. São cinco ou seis. Assim que alcançamos a margem do Rio Doce, eles não hesitam. Pulam com vontade na lama. Nadam, bebem, refrescam-se. Não sabem o risco que estão correndo.

Os índios Krenak, que antes também pescavam e bebiam a água do rio, agora dependem das doações que chegam todos os dias. A parte externa da escola tornou-se um depósito de galões. São muitos, mais de cem.

Esse é o menor dos problemas. Os olhos de Reginaldo Krenak, de 34 anos, vão para baixo, desolados, quando surgem as lembranças do rio, conhecido na aldeia como “Uatu”. Era lá que ele brincava todos os dias da infância. “A partir do momento que você nasceu os seus pais te levam para o rio para você aprender a nadar, a remar”, conta.

Ano passado, a aldeia foi sede dos Jogos Indígenas de Minas Gerais, tendo o Rio Doce como atração principal. Foram lá as competições de natação e canoagem, o que será impossível de ser repetido por muito tempo. As crianças, que costumavam brincar por ali, têm que se conformar com a situação. O índio Tito Krenak, de 42 anos, diz para a filha pequena que “o rio está dodói”. Infelizmente, sabe que essa doença é crônica. “O neto do meu filho, e olhe lá, ainda não vai ver esse rio como era. Era limpinho, clarinho, nunca teve problema com negócio de doença”, lastima.

Tito Krenak observa o rio que está doente.
Tito Krenak observa o rio que está doente.

Tito ainda descreve, com orgulho, a reunião que teve com representantes da Samarco, empresa responsável pela barragem que estourou. Depois de serem ignorados os índios pararam a ferrovia que passa dentro das suas terras e conseguiram atenção. Com encontro marcado, decidiram levar o lanche: água do rio e peixes mortos. Apesar do impacto, por enquanto não há solução definitiva para eles. Continuam esperando, assim como todos os outros afetados pelo barro tóxico.

A chegada dos resíduos da mineração ao trecho do rio que passa pela aldeia foi acompanhada de perto pelos índios antigos. Eles ficaram mais de três dias acampados, esperando. Tinham a esperança de que o rio sobrevivesse. Hoje, Reginaldo diz que os idosos são os que mais sofrem. A Laurita Krenak, de 85 anos, costumava sentar-se à beira do rio todos os dias para admirá-lo. Mas vê-lo destruído é pesado demais. Agora, apenas senta-se de costas para o Uatu.