José Ramos trabalhou na Rádio Cultura durante 17 anos.
José Ramos trabalhou na Rádio Cultura durante 17 anos.

Assim que chegamos, ele nos mostra as instalações e lembra que muitas coisas mudaram desde que começou a trabalhar na TV Poços. No dia 21 deste mês, a emissora completou 25 anos. O Poços Já Entrevista desta semana comemora a data e conversa com um dos principais nomes do jornalismo poços-caldense: José Ramos.

Longe da formalidade necessária à bancada do telejornal, José Ramos é franco. Admite os erros e as dificuldades que enfrenta diariamente. Ele lembra como foi o início da primeira emissora de televisão de Poços de Caldas e reclama da falta de entusiasmo dos profissionais de hoje em dia. Entusiasmo que fica evidente quando ele fala sobre os novos rumos do jornalismo. Ou melhor: entusiasmo que fica evidente sempre que ele fala sobre a profissão.

Poços Já: Como foi o início da sua carreira, no rádio?

José Ramos: A minha história é muito voltada para o rádio. Eu sou radialista de essência, desde pequeno sonhei em trabalhar no rádio. Ouvia os grandes comunicadores, gostava de imitar os caras que eram mais famosos na época. Eu batalhei para isso, comecei trabalhando como locutor de discoteca, DJ, na noite, até que comecei a fazer testes para trabalhar nas rádios. Em alguns não passei, até que fiz o teste na Cultura e passei. Trabalhei na Rádio Cultura 17 anos e meio.

Poços Já: Com que idade começou?

José Ramos: Tinha 21 anos. Trabalhei até 2005 na rádio. Durante 12 anos eu trabalhava lá e aqui. De oito ao meio dia lá e da uma às oito aqui. Tinha uma horinha de almoço e vinha para cá. Aí depois de um certo tempo eu subi de cargo aqui, tive a proposta de ficar só aqui e tive que largar a rádio. Mas foi duro para mim, porque sou mais radialista do que jornalista. Eu não sou formado em Jornalismo, sou formado em Letras. Meu primeiro registro de jornalista, na década de noventa, eu consegui graças ao avô desse rapaz que está aí (aponta para o fotógrafo Juliano Borges, do Poços Já, neto de Décio Alves de Moraes), entendeu? Na época, para conseguir registro de jornalista, um jornalista tinha que assinar um documento para você. O Seu Décio que assinou para mim. Consegui registro de jornalista profissional na década de 90. E comecei a trabalhar como jornalista, eles aceitaram esse registro aqui e estou até hoje.

Poços Já: Como era o seu programa na rádio?

José Ramos: Na rádio era comunicador popular. Então tinha cartas das ouvintes que eu lia, horóscopo. Só para você ter uma ideia, eu consegui uns sete casamentos através do meu programa. Por exemplo: o casal brigava e escrevia carta pedindo perdão, e reatava. Tinha casos de pessoas solitárias, que ficavam viúvas, e queriam arrumar um outro companheiro. Eu lia, dava as características, idade, e conseguia casamento. Inúmeras cadeiras de roda, cestas básicas. Além desse trabalho de comunicação, de alegria, tocar música, eu fazia esse trabalho de prestação de serviços. Era muito show, cara. Consegui ajudar muita gente através do programa, fazendo campanha para arrecadar alimento, remédios, quando a pessoa às vezes não podia comprar. Mas eu trabalhei no esporte, era locutor de publicidade também, fazia de tudo. No interior, no trabalho da comunicação, é mais ou menos igual o trabalho no circo. No circo é assim: o cara vende pipoca, é o trapezista e faz o globo da morte. Em rádio e tv do interior é assim também. Você escreve e apresenta, é produtor e repórter, motorista e passa o prompter, você é cinegrafista e editor. A gente tem que se virar, né?

Formado em Letras, José Ramos conseguiu o registro como jornalista na década de 1990.
Formado em Letras, José Ramos conseguiu o registro como jornalista na década de 1990.

Poços Já: Como chegou à TV Poços?

José Ramos: Na época eu trabalhava na Cultura e cheguei a trabalhar de locutor numa campanha política, tanto para rádio quanto para televisão. E indo na tv gravar, o diretor da tv na época, Osvaldo Navarro, me viu, gostou de mim e me chamou. Quem deu a força para eu entrar na tv na época foi o Lourinho, o músico. O Lourinho que me apresentou para o diretor na época. Aí ele me viu, conversou comigo, gostou de mim e me deu a oportunidade de aprender. Cheguei a trabalhar de graça para aprender, saía com os repórteres para ver como era o serviço, cheguei a trabalhar de graça. Cheguei a trabalhar sem registro em carteira no começo. Meu serviço principal era a rádio. Fiquei algumas semanas, até que surgiu a vaga e fui efetivado. Aí durante quase doze anos eu conciliava os dois. De 2005 para cá eu estou só aqui.

Poços Já: Sua formação é em Letras, que é uma área próxima ao Jornalismo.

José Ramos: Eu não fiz Jornalismo, na época não tinha condições financeiras. Aqui tinha a Autarquia Municipal de Ensino, antes da PUC. Lá os cursos eram bem mais em conta. Tinha Filosofia, Ciências e Letras. Eu optei por Letras, porque se você tem o dom mais de comunicar, escrever, ler, você tem facilidade para atuar na área de jornalismo. Faltava só a questão burocrática da coisa, que era ter o registro no Ministério do Trabalho como jornalista.

Poços Já: Qual a sua opinião sobre a necessidade do diploma?

José Ramos: Hoje a gente dificilmente pega alguém que não seja formado. O diploma é importante sim, mas não é essencial. Se a pessoa tem o dom, sabe se expressar com bastante clareza, sabe trabalhar, respeitar as normas e as regras, tanto do jornalismo quanto as leis em geral, consegue atuar bem na área. Alguém que queira entrar na carreira hoje, eu aconselho a fazer faculdade de jornalismo. Até porque hoje em dia, apesar de hoje você conseguir facilmente um registro de jornalista, tendo segundo grau você já consegue, se você não tem o diploma não tem embasamento técnico. Aí fica faltando isso na hora de exercer a prática. Hoje em dia, mesmo tendo diploma já está super difícil de entrar e trabalhar na área, porque o mercado já está muito complicado.

Poços Já: Os profissionais que chegam das faculdades estão bem preparados?

José Ramos: É relativo. Tem uns que já chegam melhor preparados, que já têm um dom nato e a faculdade foi um elemento para aprimorar o dom. E tem aquele que às vezes não tem o dom, tem conhecimento técnico, mas tem que lapidar o que adquiriu na faculdade. Aí exige um treinamento prático do dia a dia. Já fizemos isso com muita gente que passou aqui. Por exemplo, a Bel (Braga), a Nathália Assis, a Carol Scassiotti. Vários jornalistas que hoje estão trabalhando em emissoras maiores, quando chegaram aqui eram ainda estudantes e foram lapidando os conhecimentos com a gente. Aqui a gente tem muita prática, então a gente faz essa associação da teoria que eles têm em sala de aula com a prática do dia a dia, que é bem diferente.

Poços Já: Como foi o processo para implantação do sinal digital?

José Ramos: Foi um processo bem difícil, burocrático. Tem que ter autorização do Ministério das Comunicações, exige um investimento alto. O processo foi gradativo, primeiro a gente implantou o sinal digital e depois nós começamos a transmitir em HD. Hoje nós não estamos 100%, porque tem um ou outro programa que não é em HD, mas estamos com um percentual bom de programas transmitidos em HD.

Poços Já: A TV Poços também chega a outras cidades da região. Como incluir essas cidades no jornalismo?

José Ramos: Essa é uma dificuldade que a gente tem, de logística. A nossa equipe não é tão grande assim. A gente tem fontes nessas cidades, que às vezes passam notícias. Recentemente, nós criamos um quadro que chama “Na sua cidade”. Nós estamos visitando as cidades para ver o que elas têm de bom, o que estão precisando. Já visitamos Caldas, Bandeira do Sul, Campestre, hoje a Ludimila (Ramos) está em Botelhos. Depois vamos para Cabo Verde, Caconde, Serrania, Lambari, para as outras cidades que pegam a gente. Esse é um ponto que a gente precisa aperfeiçoar. Não basta ter o sinal lá, tem que dar o feedback para essas cidades. Tem muito pouco patrocínio da região, acho que quando a gente começar a fincar mais a nossa bandeira nas cidades da região a gente começa a ter retorno também. Estamos fazendo isso gradativamente, esse quadro acho que foi um passo importante.

Poços Já: O jornalismo é completamente independente do comercial?

José Ramos: O ideal é ser completamente independente, mas em cidades pequenas é muito difícil isso. A gente tenta no máximo, mas é muito difícil. Acaba tendo uma certa influência, mas você tem que procurar, na medida do possível, separar os departamentos. Às vezes tem uma parceria com alguém que está divulgando um evento, vai realizar uma festa. O comercial fechou e a gente tem que dar uma cobertura para essa festa, não adianta. Se eu falar que a gente não faz, estaria mentindo. Não preciso mentir, a gente faz sim. Existem momentos em que um departamento acaba pedindo apoio do outro. Uma via de mão dupla. Mas o ideal é a isenção total, mas aí é sonho. Achar que isso vai acontecer no interior é sonho. Porque você tem seus vínculos.

Poços Já: Não acontece no interior e em lugar nenhum.

José Ramos: Lugar nenhum. A gente vê até nas grades emissoras. Vou dar o exemplo da EPTV. Já vi propaganda lá da festa de rodeio de Guaxupé e depois entra uma equipe ao vivo. Quer dizer, teve uma coisa atrelada. A gente não pode afirmar, mas acaba tendo. A gente vai fazer uma reportagem sobre o Dia dos Pais, que está chegando, e precisa mostrar opções de presentes. Vamos em uma empresa que nunca acreditou na gente nesses 25 anos ou nós vamos em uma empresa que sempre esteve do nosso lado? A gente tem que privilegiar também os nossos parceiros, as pessoas que acreditam na gente.

José Ramos é o jornalista responsável pelo Telefatos.
José Ramos é responsável pelo jornalismo da TV Poços.

Poços Já: Como foi se adaptar às mudanças no jornalismo com a popularização da internet e dos smartphones?

José Ramos: Hoje em dia, para a pessoa parar de fazer tudo que está fazendo para sentar diante da televisão e assistir qualquer que seja o programa, e qualquer que seja a emissora, é muito difícil. Você tem que usar dessas ferramentas tecnológicas, como internet, WhatsApp, Facebook, Youtube, para se aproximar das pessoas. Isso não tem volta mais. A gente transmite a nossa programação online, ao vivo pela internet,  as reportagens estão disponíveis no Facebook a qualquer momento. Teve uma reportagem que a gente produziu aqui na porta da tv, de uma mãe indignada porque estava passando com a filha cadeirante e havia um carro em cima da calçada. Atingiu mais de 14 milhões de pessoas, foi o maior recorde nosso no Facebook. Foi visualizada mais de dois milhões de vezes. Estamos beirando umas duas mil pessoas que recebem também pelo WhatsApp os nossos destaques. O cara entra li no Face, assiste, opina. Outro negócio legal do Facebook é isso. Você acaba tendo feedback. Não vem só elogio não, às vezes vem crítica.

Poços Já: E como vocês lidam com as críticas?

José Ramos: A gente tenta responder a todos. Ás vezes, mesmo quando é negativo, a gente fala: “Obrigado pela crítica, valeu. Vamos tentar corrigir na próxima”. Tem que ter humildade também para reconhecer os erros e tentar corrigir da próxima vez. A gente não só acerta, a gente erra. E às vezes erra até muito.

Poços Já: As pessoas também enviam informações, fotos, vídeos?

José Ramos: Por esses grupos do WhatsApp, ao mesmo tempo que tem a mensagem nossa para eles, tem deles para nós. A gente tem recebido demais. A nossa equipe não é tão grande, então a gente precisa disso. É um combustível diário esse retorno do telespectador. Hoje em dia é assim. É difícil até de imaginar como a gente fazia antes, quando não tinha internet. Qualquer coisa que você ia apurar era uma dificuldade danada. Às vezes a gente apelava às vezes para o Seu Décio, se a gente queria saber alguma coisa da Caldense antiga. Às vezes tinha uma dúvida de português, o repórter ligava para o professor Gaspar. Ele era o nosso Google. Isso há 23 anos.

Poços Já: Como é a relação da TV Poços com as outras emissoras da região?

José Ramos: Com as emissoras da região nós temos uma parceria muito boa, isso é interessante. Tem a TV Andradas, TV Sul, de Guaxupé, Onda Sul, de Carmo do Rio Claro, TV Libertas, de Pouso Alegre. São emissoras regionais que têm essa parceria com a gente. E até com as comerciais. A gente tem uma parceria boa com a TV Alterosa. Às vezes, quando a EPTV precisa de alguma coisa que a gente fez, a gente passa para eles. É mais difícil deles para nós. Quando a gente precisa deles dá um trabalhão. Alterosa não, a gente tem uma parceria muito boa.

Poços Já: Quais as reportagens mais marcantes da sua carreira?

José Ramos: Cheguei a fazer bastante matéria de destaque, cheguei a ter matérias minhas na Rede Minas, na TV Cultura de São Paulo. A matéria que eu sempre cito foi o caso de um cara que mandou uma carta bomba para o Itamaraty, na década de 90, e foi preso aqui em Poços. Nós fizemos matéria aqui, mandamos para a TV Cultura e a Cultura passou para a Manchete, Bandeirantes, Record. Isso foi na década de 90, faz tempo pra dedéu.

(Nesse momento chega o Marco Antônio Guedes, supervisor de operações da TV Poços).

Guedes: Era o caso Mirândola.

José Ramos fala da adaptação do jornalismo à internet e aos smartphones.
José Ramos fala da adaptação do jornalismo à internet e aos smartphones.

José Ramos: O Guedes era traidor, na época ele fez para a Globo. Eu fiz para a TV Cultura, o Guedes não estava na tv ainda e fez para a Globo, entrou no Jornal Nacional. A Globo teve que pagar uma multa para o avião decolar aqui depois do pôr do sol.

Guedes: Nós chegamos lá com a fita e o cara falou que não podia sair. Eu já estava quase indo embora, com a fita debaixo do braço, e toca o rádio do cara assim: “Pode decolar, Rede Globo assumiu multa”. O cara entrou no aviãozinho e não quis nem saber.

José Ramos: O cara foi preso aqui às cinco e pouco da tarde e saiu no Jornal Nacional.

Guedes: O mais interessante foi que eu saí de lá, deixei o equipamento, quando cheguei em casa já estava passando.

José Ramos: a matéria do Plano Real é outra que dá para eu citar. Lançou o Plano Real em um dia, no dia seguinte a primeira viagem oficial do Fernando Henrique foi para Poços de Caldas. Ele era Ministro da Fazenda. O Plano Real foi lançado em primeiro de julho de 1994, no dia seguinte ele estava aqui fazendo a troca para URV.

Guedes: A primeira utilização do Real foi aqui. Era novidade, ninguém conhecia. Era URV.

José Ramos: Era URV, puta merda. Essa matéria estava aqui na minha área de trabalho porque a gente fez a reportagem especial de 25 anos da TV Poços. Achamos uma fita da época.

Poços Já: Como era a TV Poços no início?

José Ramos: A TV, no dia 21 de julho agora, completou 25 anos. Eu cheguei aqui a TV já tinha dois anos, estava no início ainda. Eram muito precárias as condições de trabalho, muito improviso. Mas tinha uma equipe que era muito apaixonada por aquilo que fazia. Então a gente driblava as dificuldades com esforço, com a vontade de fazer bem feito. Tinha aquela história do pioneirismo, era uma das primeiras emissoras educativas de Minas Gerais. Então, apesar das limitações, da falta de veículo, da falta de equipamento, as pessoas tinham vontade de fazer bem feito. Surgiam exemplos da pessoa se desdobrar, de fazer coisas que às vezes nem eram da área dela, mas tentava fazer de tudo para que o negócio desse certo.

Poços Já: A jornalista Rose Lino, que também acompanhou o início da TV Poços, uma vez me disse que chegou a trabalhar de ônibus.

José Ramos: É, até de Kombi. Uma vez quebrou o carro, teve que pegar carona. Era tudo improvisado. Mas isso que é gostoso. Quando as coisas são muito fáceis, às vezes você não dá valor. Às vezes hoje em dia a gente sente falta desse comprometimento, principalmente com os jovens que estão chegando. Eles já não têm mais aquela raiz, de valorizar por ser a primeira emissora. A pessoa chega para trabalhar como se estivesse trabalhando em uma empresa qualquer. Deu certo bem, não deu tchau, estou indo para outro e vamos que vamos. Agora, os que estão aqui desde o início, eu, o Guedes, a gente valoriza cada coisa, cada equipamento novo que chega.

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